Como fintechs podem ajudar o Brasil a sobreviver à crise do coronavírus

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Manuel Silva Martinez, da Santander InnoVentures: fintechs podem criar oportunidades, mas terão que se adaptar rapidamente

Apesar do impacto causado pela crise do coronavírus em todos os setores da economia, investidores em certos segmentos, como o das fintechs, continuam confiantes sobre o papel que estas startups desempenharão durante e depois da pandemia.

Um destes otimistas é Manuel Silva Martinez, sócio e diretor de investimentos da Santander InnoVentures, fundo de corporate venture de US$ 200 milhões que investe em startups focadas em serviços financeiros e tem empresas brasileiras como a fintech Creditas e a plataforma norte-americana de blockchain Ripple entre as empresas de seu portfólio.

Segundo Martinez, a América Latina é um mercado peculiar, onde o ritmo das mudanças que aceleraram fintechs em outros mercados, como penetração de smartphones, ultrapassou a capacidade do setor de serviços financeiros de atender a estas novas necessidades de consumidores. O resultado é um cenário onde a população, até recentemente ignorada por empresas tradicionais, é melhor atendida por startups.

“Investimentos na América Latina são interessantes para nós, pois nos permite apoiar o crescimento desses players emergentes e também adquirir um entendimento melhor e mais profundo do cenário competitivo futuro e como isso vai evoluir fora ou em parceria com o setor financeiro tradicional”, aponta.

Sobre o Brasil em particular, o investidor nota que fatores institucionais favorecem a atuação de fintechs, como taxas de juros, que propiciam a criação de startups de crédito, bem como o avanço no segmento de pagamentos, que favorece negócios ativos na área transacional. Martinez também ressalta o aumento no número de empreendedores estrangeiros que operam no país – como o espanhol Sergio Furio, da Creditas – que ajudou a acelerar a maturidade do ecossistema.

À medida em que a pandemia evolui e empresas começam a pensar em cenários no curto e médio prazos, Martinez acredita que fintechs brasileiras têm uma grande oportunidade de focar em ofertas voltadas a consumidores e pequenas e médias empresas – segundo ele, o momento não é tão favorável para ofertas B2B.

“É difícil ter visibilidade da extensão das consequências [da pandemia] para a economia global e mudanças sociais mais profundas em todo o mundo, mas, apesar disso, as fintechs têm um papel importante a desempenhar”, frisa, ressaltando que isso se dará em duas dimensões: no curto prazo, a crise está deslocando cadeias de suprimentos globais e pagamentos associados a elas, bem como as transferências de risco entre os agentes produtivos.

“Fintechs podem ser uma boa maneira de preencher algumas dessas lacunas”, ressalta Martinez. Segundo o especialista, essas empresas poderão atuar em garantir pagamentos mais rápidos, maior transparência de informações, entrega de mais informações financeiras em tempo real, além de comunicação melhor e mais direta com os clientes, formas alternativas de avaliar o score financeiro deles – e portanto determinar acesso a crédito – bem como acesso diferenciado ao mercado de capitais.

A crise apresentará outras oportunidades para as fintechs: segundo Martinez, a pandemia provavelmente mudará quais segmentos da população ficarão desbancarizados ou mal atendidos pelo reequilíbrio dos fluxos econômicos e dos lucros. Além disso, a ruptura dos mercados de capitais e as enormes intervenções de governos em economias globais podem criar novas classes de ativos que também podem trazer oportunidades de negócio.

Além disso, o investidor nota que a prosperidade de outros segmentos, como os de telemedicina, educação e comércio eletrônico, que aceleram como resultado das mudanças sociais causadas pela crise, posiciona os negócios de fintech como facilitadores dessas indústrias adjacentes.

FLEXIBILIDADE E DESAFIOS

A flexibilidade e capacidade de resposta rápida das startups será um “antídoto” para o efeito nefasto da crise, segundo Martinez, que antecipa um cenário onde estas empresas se adaptarão rapidamente para responder às novas imperativas do mercado. Isso inclui uma ênfase em serviços remotos, flexíveis e diretos, porém envolvendo uma quantidade de risco maior.

“Mas também é possível que algumas fintechs enfrentem desafios no curto prazo que as coloquem sob pressão nas próximas semanas e meses”, prevê. Afinal, as fintechs também fazem parte de um sistema financeiro, e não passarão incólumes ao impacto global da crise.

“[As fintechs] que dependem de acesso ao mercado de capitais podem sofrer uma variedade de desafios: menor oferta de capital, aumento de preços, alteração nos termos contratuais ou uma situação de mudança que limita a garantia de fontes [de capital] de longo prazo”, adverte.

Sobre uma possível alta na mortalidade de startups como resultado da crise do coronavírus, Martinez avalia que o fracasso é um componente natural do ciclo de inovação, mas obviamente a situação atual afetará mais algumas empresas do que outras.

“Toda empresa deve se perguntar: como minha demanda, direta ou indireta, será afetada? Qual é a minha dependência de outros elementos externos, como acesso ao mercado de capitais, solidez de um ativo regulatório específico, canais de distribuição, e como estes elementos serão afetados?”, aconselha.

“A habilidade de compreender as respostas a essas perguntas, tomar decisões corretas de maneira rápida e decisiva e ajustar suas prioridades, custos e perspectivas serão a chave”, ressalta o investidor. “Resiliência e adaptabilidade serão elementos mais importantes que o modelo de negócios para enfrentar essa situação.”

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Sem saber como fazer onboarding à distância, empresas atrasam recrutamento com pandemia

Processos de recrutamento estão sendo adiados, e a perspectiva é que empresas comecem a atrasar seus processos seletivos como consequência da crise. As tendências fazem parte de um levantamento feito pela HR tech Revelo com 14 mil empresas que usam a plataforma de recrutamento e seleção da empresa.

Uma queda de 12% no volume de agendamento de entrevistas foi constatada no estudo. Além disso, a startup tem recebido o feedback que algumas empresas decidiram postergar seus processos seletivos.

Segundo Lach de Crespgny, cofundador da Revelo, o motivo é que com a adoção do regime de trabalho remoto, o processo de entrada do colaborador na empresa (o chamado onboarding) pode ser prejudicado.

Isso vai na contramão da abordagem de algumas empresas, particularmente startups como a Wildlife Studios, um dos unicórnios nacionais, que continua contratando e fazendo o onboarding de funcionários, mesmo à distância.

A Revelo estima que, para as próximas semanas, haverá um crescimento de até 15% nas contratações, principalmente em funções ligadas a operações e tecnologia, e sobretudo em empresas nativas digitais, onde o home office seja um modelo normal de trabalho.

“Esse aumento de contratação nas áreas operacionais e tecnologia pode ocorrer em escala nacional, visto que São Paulo é a cidade que mais sofre com os impactos da pandemia até o momento, algo que ainda não se observou de maneira tão acentuada em outros estados”, afirma de Crespgny.

A startup também prevê que negócios que exigem tarefas presenciais irão paralisar as contratações, ocasionando redução dos níveis de novas vagas, porém isso ocorrerá somente durante a fase ‘aguda’ da chamada ‘quarentena voluntária’.

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Solidez em trabalho remoto ajuda inovação na Stone

A Stone tem colhido os frutos de políticas de home office introduzidas bem antes da pandemia. A empresa de pagamentos, que tinha sua área de inovação trabalhando de forma remota desde 2017, agora acelera o desenvolvimento de novos produtos e serviços. Segundo a empresa, a equipe de inovação tem mais de 100 pessoas de diversos estados como Bahia, Sergipe, Goiás, Pará, São Paulo e Rio Grande do Sul.

Segundo a líder de pessoas da área de inovação, Renata Zenaro, o modelo precisou de ajustes depois de muitos erros e acertos, mas agora a forma de trabalho funciona. “Adotar o trabalho remoto facilita o recrutamento, aumenta o nível técnico do time, estimula a organização e a documentação e traz flexibilidade para o dia a dia”, conta.

Entre as boas práticas aprendidas nos últimos anos, a Stone elenca a centralização de ações, eventos e documentos em uma única tarefa, além de práticas de documentação e compartilhamento de informações relevantes.

A teleconferência, febre entre empresas que estão aprendendo a trabalhar remotamente, não é uma regra na equipe de inovação da Stone. Apesar de as chamadas em vídeo serem utilizadas, a preferência é pela comunicação por escrito, que permite que as pessoas possam avaliar e estruturar informações com calma. A interação presencial também tem valor: os colaboradores se encontram semestralmente no Rio de Janeiro para trabalharem e socializarem juntos.

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Airbnb cria rede de suporte a anfitriões

O Airbnb anunciou a criação de um fundo de US$ 250 milhões para ajudar seus anfitriões a cobrirem os custos dos cancelamentos relacionados à pandemia de Covid-19.

Segundo o CEO Brian Chesky, no caso das reservas feitas até 14 de março – com check-in entre esta data e 31 de maio e cancelamentos enquadrados na política de causas de força maior – a plataforma de estadias e experiências vai destinar 25% do valor a que teria direito pelas regras normais de suspensão do serviço. Os pagamentos começarão a ser feitos agora em abril.

Além disso, a plataforma criou um outro fundo especificamente para os superhosts, anfitriões com as melhores avaliações, no valor de US$ 10 milhões. Neste mês, a empresa vai oferecer um subsídio de até US$ 5.000, sem necessidade de reembolso, aos superhosts que alugam suas próprias casas e precisam de ajuda para pagar aluguel ou financiamento. “Nossos funcionários começaram este fundo com doações que somam US$ 1 milhão, e eu e os demais fundadores, Joe e Nate, estamos contribuindo pessoalmente com os US$ 9 milhões restantes”, contou Chesky.

A plataforma também está abrindo mão da cobrança, de anfitriões e hóspedes, de todas as taxas de serviço relacionadas a cancelamentos relacionados à pandemia. Nesses casos, o Airbnb reembolsa as taxas ou fornece um crédito de viagem em valor equivalente. Por fim, a empresa criou um recurso que permite que os hóspedes possam fazer contribuições financeiras diretamente a anfitriões de acomodações que já utilizaram.

Segundo a empresa, as medidas são globais, ou seja, valem para os 191 países onde a plataforma opera, incluindo o Brasil, que detém o 13º lugar num ranking de geração de impacto econômico local, com US$ 2,1 bilhões.

Já a Vrbo – antigo Alugue Temporada – informou, ao ser procurada pela FORBES, que os imóveis anunciados na sua plataforma são de propriedade e/ou gerenciadas por cada proprietário ou administrador, e as políticas para o aluguel são determinadas por estes parceiros. “Estamos orientando-os fortemente a serem mais flexíveis em suas políticas de cancelamento para reembolsar os viajantes ou oferecer créditos para que as estadias possam ser remarcadas em novas datas, sem custos adicionais.”

De acordo com a plataforma, a grande maioria dos proprietários e administradores está se mostrando extremamente solidária à situação e concedendo reembolso ou créditos aos viajantes, dadas as circunstâncias extremas. “Eles serão recompensados pela Vrbo no futuro, com maior visibilidade nos anúncios de seus imóveis e outras vantagens a serem definidas em breve”, disse a empresa.

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Pesquisadores da USP criam protótipo de robô que poderia ser usado nas unidades de saúde

Seis pesquisadores do Laboratório de Robótica Móvel do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos, sob o comando da doutoranda Daniela Ridel, desenvolveram o protótipo de um robô autônomo que tem como missão dar suporte à distribuição de remédios e alimentos aos pacientes doentes em hospitais. Como resultado, espera-se uma diminuição na carga de trabalho dos profissionais e a diminuição de contato entre eles e as pessoas infectadas.

A iniciativa começou há dois anos, quando Daniela fundou a startup 3DSoft. “Nós temos capacidade técnica para fazer esse projeto acontecer, no entanto, falta ajuda para que o robô chegue às mãos de quem precisa”, explica ela.

Para dar os primeiros passos, a startup contou com o apoio do programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE) e da FAPESP, e criou um sensor de baixo custo, adequado à realidade nacional. “Depois que o projeto encerrou, decidimos desenvolver um robô de serviços para entregas, que deveria ficar pronto nos próximos meses. Mas, devido ao cenário do coronavírus, fizemos uma mudança radical e criamos o protótipo para ajudar os profissionais da saúde”, conta Patrick Shinzato, um dos cofundadores da startup.

Diante do novo desafio, a busca é por parceiros especializados em saúde, que possam ajudar a equipe a compreender melhor a demanda de quem está na linha de frente de combate ao coronavírus. Assim, os pesquisadores conseguirão avaliar a necessidade de fazer algum ajuste no projeto. “O ideal seria um parceiro que conseguisse tanto nos colocar em contato com hospitais quanto investir na montagem de mais robôs. Como todos nós somos da área de computação, precisamos de pessoas com outras habilidades que apresentem o projeto a investidores e a quem mais possa nos ajudar”, diz Daniela.

A pesquisadora estima que, com todos os recursos à disposição, bastariam cerca de dois meses de trabalho para ter um protótipo funcional pronto, ao custo de R$ 17 mil (a primeira versão). “Em larga escala, certamente esse custo seria reduzido significativamente.”

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A Cuidas, healthech que conecta médicos e enfermeiros de família a colaboradores e funcionários das empresas, está oferendo, pelos próximos 30 dias, alguns de seus serviços gratuitamente para negócios de pequeno e médio portes.

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MAIS

– A Sage Brasil anunciou sua nova marca no Brasil. A empresa de software comprada da matriz britânica no mês passado pelo presidente da operação local, Jorge Carneiro, agora se chama ao³. A nova companhia, focada em gestão na nuvem, quer apoiar micro, pequenas e médias empresas e incorpora o portfólio da Sage Brasil, incluindo a operação IOB, marca referência nas áreas contábil, fiscal, tributária e trabalhista;

– O Grupo Movile anunciou Patrick Hruby como seu novo CEO. Fabricio Bloisi, cofundador e CEO até então, torna-se presidente do conselho e irá atuar próximo de Hruby e do time de gestão, enquanto mantém a posição de CEO do iFood. Hruby assume o principal cargo de liderança na organização após passar cinco meses como executive in residence no grupo, período em que pode se aprofundar na operação de todas as empresas – iFood, Wavy, PlayKids, Sympla, Zoop e MovilePay;

– A TempoTem, startup que oferece soluções rápidas no segmento de serviços residenciais e automotivos, desenvolveu um método de desinfecção de ambientes para ajudar a conter a transmissão do coronavírus. Segundo a empresa, o serviço é realizado por meio da nebulização ou atomização de produtos específicos recomendados pela OMS para combater o novo vírus, amônia quaternário e soluções de hipoclorito. A aplicação é feita em todo o ambiente, com foco em locais mais propensos a disseminação, como, por exemplo, maçanetas ou interruptores. A TempoTem diz o tempo de permanência do vírus ativo cai de três dias para 30 segundos, dependendo da superfície. Os preços variam de acordo com a metragem do ambiente. Até 70 metros quadrados, por exemplo, o serviço sai por R$ 329,90. De 351 a 500 metros quadrados, R$ 859,90.

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