ESPECIAL INOVADORES NEGROS: 5 brasileiros que aceleram as maiores consultorias do mundo

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José Marcos da Silva, da Deloitte: depois de 22 anos de trabalho, começou a atuar na área de consultoria empresarial

Organizações buscando incrementar suas ofertas com inovação para atravessar a crise invariavelmente precisam de apoio para tal, por motivos que incluem a falta de expertise interna para estruturar e conduzir esforços de transformação digital.

O Brasil é um dos países que mais investem em serviços de consultoria, e a procura por ajuda para projetos relacionados à tecnologia tem aumentado de forma consistente por aqui, segundo a Source Global Research (SGR), empresa de pesquisa focada em consultoria. Em 2019, tecnologia representou 37% de toda a receita do setor no país, gerando cerca de US$ 461 milhões. A média de gastos em consultoria voltada a tecnologia é de de 30%, ou US$ 424 milhões.

Para se adaptar à crescente demanda por transformação digital, áreas dedicadas a tais projetos ganharam força nos últimos anos. Profissionais focados em inovação, que ganharam protagonismo durante a pandemia, muitas vezes influenciam a modernização interna das consultorias além de trabalhar com clientes.

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À medida em que organizações se tornam mais cientes da necessidade de combater o racismo estrutural e do valor comercial de ofertas desenvolvidas por equipes diversas, o tema está cada vez mais no radar de quem toma decisões em empresas de serviços profissionais. Segundo um estudo global da SGR, 88% de sócios de consultorias concordaram que ter um corpo de sócios mais diverso facilita na conquista de novos contratos.

Porém, a realidade ainda é desafiadora para profissionais negros na indústria de consultoria, onde diversidade é “um problema perene”, principalmente quando se trata de cargos sêniores, segundo Fergus Navaratnum-Blair, da Source Global Research, em entrevista à Forbes.

“Dados de empresas onde relatórios de disparidades salariais com base em raça são parte da prática padrão sugerem que pessoas de cor – negros em particular – estão significativamente sub-representadas nas líderes de mercado, em particular no nível de sócio”, aponta

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O sucesso de consultorias está condicionado à capacidade de se colocarem no lugar de seus clientes para entender seus desafios e criar respostas inovadoras para estes problemas, segundo Navaratnum-Blair:

“É consideravelmente mais difícil fazer este trabalho com equipes muito homogêneas”, diz Navaratnum-Blair, alertando para o risco de “groupthink”, o padrão de pensamento estabelecido por estes grupos não-diversos.

“Se todos na empresa pensam e agem da mesma maneira, isso vai comprometer a capacidade [das consultorias] de inovar e criar novas soluções que atendam às necessidades dos clientes de hoje”, ressalta.

Na lista desta semana da série Inovadores Negros apresentamos profissionais brasileiros que contrariam o establishment e fazem a diferença na inovação interna e externa entregue por cinco das maiores consultorias do mundo: EY, PwC, KPMG, Deloitte e Accenture.

  • Ana Flávia Bezerra, Accenture

    Filha de um policial militar e uma empregada doméstica, a paulistana Ana Flávia Bezerra, 39 anos, entrou na Accenture em 2014. Desde então, Ana foi promovida a um cargo executivo e hoje, é gerente e responsável por um escritório de gestão de projetos para os clientes da empresa, além de ser responsável pela estrutura de governança dos projetos.

    Formada em relações públicas e MBA em gestão de projetos, Ana conta que teve uma infância marcada pelo exemplo de muito trabalho de seus pais – especialmente da mãe, que enfrentou a orfandade e trabalha desde os 9 anos para se sustentar – que se desdobraram para que ela e o irmão tivessem acesso a educação:

    “Comecei a trabalhar somente quando entrei na faculdade, e sempre soube que seria por meio da educação que eu poderia estourar a bolha e chegar a lugares onde poucas e poucos semelhantes a mim chegam”, conta a executiva, que é lésbica e casada, e define inovação como a capacidade de “transformar sem medo”.

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  • Cristiane Hilário, EY

    Aos três anos de idade, Cristiane Hilário se mudou com os pais de sua cidade natal, Belo Horizonte, para Campinas (SP). No interior paulista, construiu sua história de vida e carreira, e se graduou em Ciências Contábeis pela PUC Campinas e cursou também um MBA em Gestão Financeira na FGV.

    Única mulher negra a ocupar o cargo de sócia da EY no Brasil, Cristiane entrou na empresa em 2004, como trainee. O desempenho diferenciado foi notado desde o início da carreira profissional e trouxe diversas oportunidades, como o trabalho nos Estados Unidos por dois anos, como parte do EY Global Exchange Program de 2010 a 2012. Nesse período, Cristiane conseguiu a sua certificação norte-americana de Contadora, a US Certified Public Accountant – CPA.

    Cristiane tem um papel ativo nas várias atividades na EY relacionadas a Diversidade e Inclusão: ela é membro do Comitê Professional Women Network (PWN) no Brasil, é líder do PWN para a regional da EY em Campinas, integra a Força-Tarefa Global de Trabalho da EY focada em equidade social e inclusão, incluindo o racismo, a Global Working Task Force on Social Equity and Inclusiveness. Ela também é líder e cofundadora do Black Professionals Network no Brasil, rede de profissionais negros da EY que será lançada no dia 18 deste mês.

    A executiva de 37 anos, que entre suas atividades na vida pessoal tem um papel ativo na igreja – ela foi intitulada Evangelista na Assembleia de Deus em 2015 – vê a inovação como a capacidade de pensar fora da caixa: “[inovar] é fazer o que ainda não foi feito, é ser um líder transformativo e contar com um time diverso, onde cada um é capaz de contribuir com o seu melhor, para juntos construir um mundo de negócios melhor para todos.”

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  • Eduardo Alves de Oliveira, PwC

    Em 1999, o paulistano filho de pai pernambucano e mãe mineira Eduardo Alves de Oliveira precisava decidir por uma formação universitária que fosse capaz de proporcionar uma remuneração para redirecionar a trajetória de sua vida. Além disso, havia uma expectativa: todos queriam um advogado uma família.

    Eduardo, que a aquela altura já era técnico em contabilidade, mas não falava inglês, conta que buscou compensar esta lacuna e atender ao desejo da família, bem como educar-se em “algo que os advogados não gostavam de fazer: contas”. Hoje, acumula os títulos de doutor e mestre em Contabilidade e em Controladoria pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP), bem como a graduação em Contabilidade, também pela FEA-USP e outra graduação em Direito pela Universidade Presbiteriana Mackenzie – estas duas últimas cursadas ao mesmo tempo.

    “A parte mineira dizia: E o trabalho? A parte pernambucana dizia: estude! A paulista: confie em você!”, conta Eduardo, sobre os anos intensos que viveu entre 2000 e 2004. Esse empenho foi o que o levou à PwC, mesmo sem inglês, sem ter completado suas graduações – naquela época, Eduardo sequer cogitava fazer um mestrado ou um doutorado.

    Na consultoria desde 2002, Eduardo atua em consultoria tributária para a indústria financeira, assessorou empresas brasileiras e estrangeiras, instituições financeiras e investidores institucionais em projetos de consultoria tributária e em diversas operações societárias. O inglês deixou de ser um problema alguns anos depois, quando atuou na PwC Boston entre 2016 e 2017, atendendo diversas modalidades de investidores. Hoje professor na área tributária, com foco na indústria financeira e em M&A, Eduardo define inovação como a habilidade de “trazer para o presente algo que no futuro já faz sentido”.

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  • José Marcos da Silva, Deloitte

    Filho de migrantes mineiros que se fixaram no bairro paulistano de Ermelino Matarazzo, José Marcos da Silva se formou ajustador mecânico no SENAI aos 14 anos. Desde então, nunca mais parou de trabalhar e teve múltiplas ocupações informais para ajudar na renda familiar.

    Movido pela curiosidade, José, que tem 60 anos e é graduado em Administração de Empresas e pós-graduado em Gestão de Pessoas pela FGV, mudou de atividade profissional diversas vezes, e a vida acadêmica foi acompanhando essas mudanças. Em 1996, veio a grande guinada: depois de 22 anos de trabalho, começou a atuar na área de consultoria empresarial, inicialmente como consultor técnico de um sistema integrado de gestão.

    Trabalhando com José, um colega norte-americano percebeu o talento do colega em relacionamentos, comunicação e empatia e o convidou para atuar em gestão de mudanças (change management), atividade em alta nos dias de hoje entre organizações que buscam inovar, mas naquele tempo desconhecida no Brasil. Em mais uma mudança, José então foi para a área de gestão de mudanças, na EY, onde entrou dois anos depois.

    De lá até os dias atuais, José trabalhou em várias empresas de consultoria, no Brasil e no exterior, até chegar ao grupo executivo da Deloitte, onde trabalha há 12 anos. Hoje, é diretor da área de consultoria em capital humano e desde junho deste ano passou a atuar como co-líder do Grupo Origens, pilar racial do Programa de diversidade e inclusão da Deloitte. José fala sobre a relevância da inovação em seu trabalho diário com clientes: “No trabalho de consultoria em capital humano, é frequente lidarmos com esse tema em nossos clientes, e sempre o abordamos como um processo inerente à cultura das empresas e, por consequência, de importância para as pessoas que nelas trabalham”, aponta, ressaltando a conexão entre processos de criação e transformação e a cultura de diversidade corporativa:

    “Antes de tudo, para que se tenha um ambiente inovador é fundamental termos um ambiente diverso, ou seja, composto por pessoas com experiências únicas que possam contribuir para o desenvolvimento da organização e delas próprias”, ressalta.

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  • Lucas Gomes Arruda, KPMG

    Desde a infância, o goiano Lucas Arruda teve a orientação que o estudo seria seu maior trunfo: “Meu pai, homem negro, deixou evidente desde cedo que em função de sua etnia eu deveria me esforçar para que, se não fosse o primeiro, estivesse entre os três primeiros da turma”, diz o sócio-diretor da KPMG, de 32 anos

    Lucas, que sempre estudou na rede pública, não desapontou: durante o ensino fundamental recebeu premiações nas Olimpíadas de Matemática e de Astronomia, mas a primeira grande vitória foi a aprovação no processo seletivo de uma escola técnica de Goiás. Optou por estudar Ciências Contábeis e teve sua segunda grande vitória, ao ingressar na Universidade Federal de Goiás em 2006. Antes da conclusão do curso, quando foi presidente da equipe vice-campeã do Desafio Sebrae Goiás, e em 2008, ingressou na KPMG como trainee e definiu a carreira de executivo como grande objetivo.

    Galgou os degraus da escada corporativa e, depois da primeira promoção a gerente de auditoria em 2013, tornou-se gerente sênior em 2015 e, em 2017, chegou ao cargo de sócio-diretor. Tornou-se especialista em amostragem e é membro do Comitê de Inclusão e Diversidade da KPMG como líder do Ebony, grupo responsável por cuidar das questões afirmativas étnicas e raciais da firma e é membro do comitê de Millennials da empresa.

    Lucas, que é apaixonado por viagens – já esteve em 17 países – também tem grande interesse pelo processo de aprendizagem, e tem como meta sempre aprender algo novo e não conectado à sua profissão: surfe, dança de salão, violão e acordeons estão no repertório do consultor, que vê a inovação como o processo de “desafiar métodos, comportamentos e ideias regulares, assumindo que somos ilimitados em nossas capacidades.”

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Ana Flávia Bezerra, Accenture

Filha de um policial militar e uma empregada doméstica, a paulistana Ana Flávia Bezerra, 39 anos, entrou na Accenture em 2014. Desde então, Ana foi promovida a um cargo executivo e hoje, é gerente e responsável por um escritório de gestão de projetos para os clientes da empresa, além de ser responsável pela estrutura de governança dos projetos.

Formada em relações públicas e MBA em gestão de projetos, Ana conta que teve uma infância marcada pelo exemplo de muito trabalho de seus pais – especialmente da mãe, que enfrentou a orfandade e trabalha desde os 9 anos para se sustentar – que se desdobraram para que ela e o irmão tivessem acesso a educação:

“Comecei a trabalhar somente quando entrei na faculdade, e sempre soube que seria por meio da educação que eu poderia estourar a bolha e chegar a lugares onde poucas e poucos semelhantes a mim chegam”, conta a executiva, que é lésbica e casada, e define inovação como a capacidade de “transformar sem medo”.

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