Trabalho remoto para quem?

Izusek/Getty Images
Izusek/Getty Images

É preciso questionar o agravamento da desigualdade social provocada pela digitalização do trabalho no Brasil

Há exatos cinco meses, em 11 de março de 2020, a Organização Mundial da Saúde declarou que o novo coronavírus tinha se tornado uma pandemia. Naquele dia, líderes de todo o mundo, inclusive no Brasil, reuniram-se às pressas para discutir a continuidade dos negócios em tal situação e muitos decidiram pelo trabalho remoto como forma de continuar operando na crise. Desde então, o modelo ganhou real tração, com todos os seus desdobramentos.

É possível que você, que pode estar lendo esta coluna durante uma pausa no seu home office, considere a internet como uma conta básica como é a eletricidade. De fato, a internet é fundamental para o acesso a uma série de direitos fundamentais e teve sua importância reiterada durante a pandemia. É possível também que você esteja lendo este texto no mesmo computador em que trabalha, ou tenha a opção de fazer isso, se quiser.

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Mas este privilégio é para poucos. Na periferia, garantir o sustento básico é muito mais urgente do que uma conexão estável à internet ou um PC. Quando o acesso é possível, funciona como um meio de entretenimento em casa e, por conta disso, protege vidas periféricas, que correm riscos além da Covid-19. Mas isso ocorre em condições sempre precárias, já que 85% da população pobre no Brasil acessa a internet pelo celular, segundo a pesquisa TIC Domicílios 2019. Isso traz enormes limitações para que essa parcela da população aproveite as possibilidades do mundo digital – inclusive o trabalho de qualquer lugar.

Há também o problema da exclusão deste rol de profissões consideradas aderentes ao home office. É possível que você, leitor, tenha um ofício que já era viável ou que se adaptou ao trabalho remoto. Porém, é preciso lembrar que esta não é a realidade predominante na população socioeconomicamente vulnerável: além dos fatores já citados, existem questões como a falta de referências de sucesso nestas ocupações, bem como de opções de treinamento. Projetos como o Womby, da aceleradora B2Mamy, tem o objetivo de treinar mães negras para as profissões do futuro. Uma gota no oceano em um país sedento por este tipo de iniciativa – precisamos de milhares de Wombys Brasil afora.

Em paralelo aos desafios citados até aqui, existe um movimento onde empresas começam a repensar seus espaços de trabalho, para responder às demandas pandêmicas e transformar espaços em “áreas de convivência”. Isso pode ser visto em empresas como a consultoria ThoughtWorks, que está retomando as atividades no espaço físico em turnos, e na startup brasileira Mobly, que transformou seu escritório em um espaço onde colaboradores têm a opção de irem se for necessário. Empresas como Facebook, Twitter e as nacionais Zee.Dog e Xerpa estão entre as que já instituíram o home office permanente.

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Muitas empresas estão cientes do retorno deste tipo de ação. Afinal, a marca empregadora ganha pontos quando oferece, por exemplo, um subsídio para custear itens como eletricidade gasta em casa, ou mimos como ioga e happy hours online. Sabemos também que a eficiência financeira apresentada pelo home office é atraente: a Global Workplace Analytics calcula que um empregador norte-americano pode economizar o equivalente a US$ 11 mil por ano por colaborador que trabalha de casa. Empresas como o Morgan Stanley, onde 90% dos 60 mil trabalhadores estão remotos, já tomaram nota: o banco considera enxugar o número de escritórios depois de aprender que consegue operar com quase nenhuma base física.

Porém, é preciso pensar no impacto da crescente digitalização dos processos de trabalho para quem ainda nem ingressou nesse mercado. A necessidade de treinar os milhões de brasileiros digitalmente excluídos, bem como garantir trabalho em um ambiente onde nem todos têm um cômodo para chamar de escritório, é um assunto que precisa ser tratado. Existem outros temas relacionados, como a continuidade de desenvolvimento profissional para quem está atualmente inserido no mercado e precisa adaptar sua expertise para a economia digital.

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Também é preciso combater vieses na contratação, que favorecem pessoas que têm o privilégio de se manterem digitalmente atualizadas em detrimento de tantas outras que nem têm um computador. É necessário adotar o compromisso de treinar pessoas que nem sempre estão prontas, e dar força a organizações sociais que atuam na educação digital e no acesso de grupos desfavorecidos a empregos que exigem estas competências.

Mas não há empenho do terceiro setor ou de algumas empresas que seja capaz de criar a escala necessária para atender às novas imperativas digitais sem que existam espaços de políticas públicas e regulação para tal. É válido posicionar o home office como forma de apoiar a sobrevivência e posterior recuperação dos negócios, mas é preciso endereçar o lado negativo da digitalização, que cria novas e perversas formas de invisibilidade e exclusão.

Além de responsabilizar quem emprega, também é preciso desenvolver mecanismos para acompanhar estes avanços e criar os profissionais do futuro que o Brasil tanto necessita. Isso pode parecer utópico em um país que carece de visão e liderança em tantos aspectos, mas é urgente encontrar formas de garantir que o trabalho remoto seja parte de uma realidade possível para muitos de nós, e não somente para alguns.

Angelica Mari é jornalista especializada em inovação há 18 anos, com uma década de experiência em redações no Reino Unido e Estados Unidos. Colabora em inglês e português para publicações incluindo a FORBES (Estados Unidos e Brasil), BBC e outros.

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