Fundadora da Vittude narra a evolução do ecossistema de saúde mental

Capitalizada após um aporte de R$ 35 milhões, healthtech liderada por Tatiana Pimenta vive nova fase focada em expansão

Luiz Gustavo Pacete
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Gustavo Scabora

Tatiana Pimenta, CEO e fundadora da Vittude

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Seis anos após ter criado a healthtech Vittude, plataforma focada em saúde mental e bem-estar para o universo corporativo, a CEO Tatiana Pimenta inicia uma nova fase da empresa após um aporte de R$ 35 milhões em março, em uma rodada liderada pela Crescera Capital e com a participação da Redpoint eventures e Scale Up Ventures, da Endeavor.

Desde sua fundação, a Vittude já atendeu mais de 56 mil pessoas com um total de 600 mil usuário. Ainda de acordo com Tatiana, o impacto para os psicólogos parceiros chega a R$ 32 milhões. “Nós fizemos advocacy para termos uma regulamentação no setor. Teleterapia já é autorizado no Brasil desde 2018, graças ao nosso esforço, enquanto telemedicina e outros setores de saúde só tiveram a regulamentação firmada após a pandemia”, explica.

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Forbes Brasil – Quais foram os desafios de crescer neste segmento?
Tatiana Pimenta – No início da Vittude, um dos principais desafios era sensibilizar os profissionais de psicologia e as entidades de classe sobre a importância da terapia online para a democratização do acesso a serviços de saúde mental. De acordo com o Datasus, cerca de 50% dos municípios brasileiros não contam com profissionais de psicologia. Em função da necessidade constante de estudos, muitos psicólogos optam por estabelecer residência e atuar clinicamente em capitais e grandes centros. A Vittude ofereceu serviços de psicologia online e teve atuação essencial nos debates e aprovação da regulamentação da terapia online em 2018 (2 anos antes de pensarmos em uma pandemia). As demais áreas da saúde só vieram a ter uma regulamentação a partir de abril de 2020, com a chegada da pandemia.

FB – Qual o impacto da necessidade de educação em relação a esse assunto?
Tatiana – Outro grande desafio é a desinformação e o estigma que cercam a pauta de saúde mental. Mesmo nos dias atuais, ainda ouço comentários preconceituosos. Há quem pense que ir ao psicólogo é coisa de gente doida, rica, fraca, com pouca ocupação. Como as doenças mentais, de certa forma, são invisíveis, muita gente não compreende a biologia do adoecimento. Nosso cérebro é a parte mais importante do corpo humano. É por meio de sinapses e da produção de vários elementos químicos como os neurotransmissores e os hormônios, que nosso corpo opera diariamente. No entanto, não cuidamos da nossa cabeça da mesma forma que cuidamos do restante do corpo. Malhamos pernas, glúteos, abdômen, braços e simplesmente esquecemos da mente. Só que, quando não cuidamos da cabeça, muitas funções cognitivas, como a memória, atenção, autocontrole e até mesmo a criatividade, podem ser prejudicadas.

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FB – Quais as oportunidades que vocês ainda enxergam?
Tatiana – Uma das coisas que observo é que a educação precede o uso de qualquer serviço. Veja o exemplo do mercado de investimentos. Duas décadas atrás poucas pessoas se sentiam confortáveis para investir no mercado de ações ou mesmo aportar dinheiro em fundos de maior risco, porém com maior rentabilidade. Algumas empresas, como a XP, por exemplo, fizeram trabalhos incríveis, mostrando para a população que qualquer pessoa poderia investir no mercado de capitais. Quando penso em saúde mental, vejo que ainda precisamos de muita educação. Precisamos disseminar conhecimento sobre o assunto e mostrar para as pessoas o real valor do cuidado com a saúde emocional. Hoje ainda atuamos no tratamento de doenças. É bem comum que um indivíduo procure um psicólogo quando ele já esticou a corda demais, quando já está num quadro adoecimento, com comprometimento das suas atividades e até mesmo em grande estado de sofrimento. Ao meu ver, a grande oportunidade está em chegar nas pessoas quando elas ainda estão saudáveis e ensiná-las a gerenciar o estresse, estabelecer seus limites, compreender suas emoções e desenvolver habilidades sócio emocionais como a inteligência emocional.

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FB – Como o aporte recente vai impulsionar esse crescimento?
Tatiana – O aporte recente vem para fortalecer nossa estratégia de desenvolvimento de novas soluções em psicologia online e educação emocional para empresas. Além do lançamento das ferramentas de diagnóstico de saúde mental, também vamos aprimorar produtos já existentes, como o Vittude Match, nossa solução que usa inteligência Artificial e NLP (processamento de linguagem natural) para ajudar pessoas a encontrarem o psicólogo ideal para cada demanda. O investimento também está sendo usado para trazer executivos seniores, com experiência de mercado, em áreas bastante estratégicas.

FB – Quanto você vê de possibilidade de crescimento no ecossistema de startups voltadas ao bem-estar?
Tatiana – Eu acredito que o ecossistema ainda vai crescer muito. Vivemos em um dos piores países do mundo quando o assunto é doença mental. Somos os recordistas em habitantes convivendo com ansiedade. Também somos o 2º país com maior percentual da população convivendo com o estresse crônico e o 5º em depressão. Apesar dos números assustadores, ainda temos poucas ofertas de serviços e produtos destinados a tratar do problema. Se olharmos para o mercado corporativo, também vejo um universo de possibilidades. Ainda são exceção as empresas que possuem um programa estruturado e eficaz de cuidado com a saúde mental, amparado no monitoramento de indicadores estratégicos e de fato conseguindo olhar para redução de custos, mitigação de riscos e aumento de produtividade. Muitas possuem canais 0800, que servem como uma espécie de “botão de emergência”, apoiando os colaboradores em situações críticas como o surgimento de uma ideação suicida ou casos de violência. Esses serviços atendem um propósito importante, mas já é um trabalho de UTI. Onde fica a prevenção? Eu acredito no potencial da atenção primária e vejo que o futuro das corporações, principalmente aquelas que estão atentas ao S do ESG, vai estar centrado no investimento em saúde não no tratamento de doenças.

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