EUA sofrem com a seca que deve elevar o preço dos alimentos e causar bilhões em perdas no campo

Produtores rurais não têm mais água para as lavouras, causada pela estiagem “mais extensa e intensa” dos 22 anos.

Chloe Sorvino
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Reprodução/Forbes
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Seca causará mais de US$ 3 bilhões (cerca de R$ 13,8 bilhões) em impacto econômico na Califórnia

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O agricultor de terceira geração de San Joaquin Valley, Gary Beene, plantará apenas metade de seus 485,6 hectares este ano. Ele não tem água suficiente para a outra metade.

“Estamos trabalhando na sobrevivência, mais do que qualquer outra coisa, e esperando o ano acabar”, disse Beene, que cultiva tomate, amêndoa, algodão e alho com seus filhos e netos na terra em que seu avô se estabeleceu na Califórnia, na década de 1930, depois de deixar de ser meeiro de terras em Oklahoma. “É bem desanimador. Espero afastar meus netos da agricultura. É triste.”

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A Califórnia está atravessando seu ano mais seco de todos os tempos. No oeste do Texas, ninguém viu tão pouca chuva em suas vidas. O vasto lago subterrâneo que alimenta as Grandes Planícies, que ajuda a produzir um sexto dos grãos do mundo, está encolhendo.

A atual seca se estende da costa do Pacífico até o leste do Mississippi, Wisconsin e Illinois, uma estiagem histórica, de não apenas um, dois ou três anos, mas de uma “fome” de chuva tão severa que alguns dizem que teria de voltar aos anos 1500 para encontrar uma cena rival.

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Ela não poderia vir em pior hora. Os preços dos alimentos já são estratosféricos. Os preços do trigo dispararam, agravados pela escassez  causada pela guerra da Rússia na Ucrânia. A soja está em seu maior preço em 10 anos. Os preços do milho estão flertando com um recorde histórico. Entre as frutas, os abacates não são tão caros desde a década de 1990. Agora, a seca da América do Norte vai empurrá-los ainda mais, além de outros produtos que também devem subir de preços.

“Os consumidores verão preços mais altos e menos opções, ou substituições importadas”, disse Mike Wade, diretor executivo para agropecuária da California Farm Water Coalition. Apesar dos preços elevados, os agropecuaristas, de produtores de tomate a operadores de laticínios, foram empurrados para fora do negócio pela seca. “O primeiro ponto para a tomada de decisão é se eles têm ou não acesso à água”, disse Wade. “Muitos agricultores estão recebendo uma alocação zero este ano. E estão tomando decisões tomando por base se podem encontrar água para bombear.”

A organização de Wade estima que os agricultores tendem a permanecer no atual quadro, que é deixar de produzir em terras aptas ao cultivo na Califórnia, e que a seca causará mais de US$ 3 bilhões (cerca de R$ 13,8 bilhões) em impacto econômico negativo este ano.

A cadeia de nozes que necessita de muita água, como amêndoas e pistaches, está desapontada com os resultados da produção, mas Wade disse que a indústria de frutas e vegetais frescos da Califórnia sofrerá um impacto ainda maior porque as nozes são culturas de maior valor agregado.

O Monitor de Secas dos EUA mostra que a atual seca plurianual do Ocidente é “a mais extensa e intensa” nos 22 anos de história do banco de dados. “No momento, não posso dar boas notícias a ninguém”, disse Rich Tinker, meteorologista e especialista em seca do Serviço Nacional de Meteorologia e da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica, que ajuda no monitoramento. “Qualquer coisa a oeste do meio do país, que esteja em seca, provavelmente ficará lá por pelo menos mais alguns meses. Haverá um efeito econômico.”

O acesso à água tornou-se um problema para os produtores rurais serem elegíveis para empréstimos, de acordo com Curt Covington, diretor sênior de crédito institucional e especialista em commodities da AgAmerica, um dos maiores credores agrícolas não bancários dos EUA.

“Está se transformando em uma situação de ter e não ter”, disse Covington. “A agropecuária é o negócio definitivo de gerenciamento de risco. Estamos tentando ficar longe de transações em que acreditamos que um produtor não tenha um plano de água sustentável”.

Covington disse que os produtos que serão mais afetados incluem os de pêssegos, ameixas, nectarinas, cultivadas em áreas de alta seca na Califórnia, bem como amêndoas e pistaches. “No oeste, você terá uma agricultura de amarelinha, onde se poderá em faixas de terra”, disse ele. “Alguns desses hectares serão retirados da produção. A água dessas propriedades, alocadas para as lavouras que estavam lá, será usada para irrigar as lavouras de maior valor.”

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Um estudo da Universidade da Califórnia-Merced descobriu que no ano passado a seca custou à indústria agrícola da Califórnia mais de US$ 1,1 bilhão (cerca de R$ 5 bilhões) e 14.000 empregos. O sistema de água da Califórnia está sobrecarregado há muitas décadas, disse o principal autor do estudo, Josue Medellin-Azuara, professor associado de engenharia ambiental da universidade.

“Estamos administrando a água para extremos agora”, disse Medellin-Azuara. “Os extremos climáticos se tornaram o novo normal. A agricultura tem que deixar a terra ociosa ou mudar de cultura.”

Um dos aspectos atormentadores da seca é que ter acesso à água não significa necessariamente que ela pode ser usada. Algumas comunidades da Califórnia, particularmente de baixa renda e bairros negros, não têm água potável. Estima-se que 12.000 moradores do Vale Central, no estado, passaram por uma severa restrição hídrica durante a seca de 2012 a 2016. Milhares ficaram sem água no ano passado.

“Há comunidades em todo o Vale Central que precisam transportar água por caminhão porque não podem usar a água que possuem em suas propriedades”, disse Char Miller, diretor de análise ambiental do Pomona College. “Mas não há uma resposta coordenada do estado, que também possa incentivar a agricultura, em termos de como ela deve utiliza a água de irrigação para as comunidades que realmente fazem o trabalho pesado da produção agrícola”.

A análise revisada por pares publicada na Nature Climate Change confirmou o pior cenário: a mudança climática é responsável pelo aprofundamento da seca. “Esta seca muito provavelmente persistirá por todo 2022, correspondendo à duração da megaseca do final dos anos 1500”, concluiu o estudo.

A Califórnia, que produz 400 tipos de commodities com mais de US$ 49 bilhões (R$ 22,6 bilhões) em vendas anuais, detém a maior área em estiagem. Mas temperaturas mais altas e secas prolongadas estão secando regiões em todo o mundo.

Por isso, o aquífero Ogallala, que nutre as Grandes Planícies de Dakota do Sul ao Texas, está sendo muito bombeado. Além dos agricultores afetados na Califórnia, há secas severas na planície do norte da China, na Península Arábica, no norte da Índia, na Austrália Central e no Chile.

A seca representa um grande risco para o abastecimento de alimentos da América Central e do Sul, África e Ásia, de acordo com um relatório do IPCC (Painel Intergovernamental das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas) de 2022. Há casos na África e nas Américas Central e do Sul em que a seca já aumentou a insegurança alimentar e a desnutrição, disse o relatório. A seca também será um fator-chave da migração relacionada ao clima.

Beene, o agricultor de San Joaquin Valley, teve um 2021 “desastroso”. Ele disse que queimou algumas de suas plantações que não tinham água suficiente para crescer. Depois disso, os dois poços da fazenda pararam de funcionar. A conta para perfurar um novo e construir a infraestrutura foi de aproximadamente US$ 1 milhão (R$ 4,6 milhões), disse Beene.

O grande porém da fazenda é que ela não suporta preços ainda mais altos com as despesas de combustível, que é usado para bombear água para a irrigação das lavouras. A maioria de seus vizinhos vendeu suas terras e operações agrícolas para corporações maiores, disse Beene.

“Se as coisas não mudarem, chegará um ponto em que teremos de tomar uma decisão”, disse ele, que mora a oito quilômetros de onde vive desde criança. “Onde vamos?” ele disse. “O que nós faremos?

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