
Assim como em 2024, este ano deve ser muito positivo para os investimentos em renda fixa. Os juros devem seguir rendendo bem mais do que a inflação. Um levantamento da consultoria Elos Ayta mostra que os Certificados de Depósito Interfinanceiro (CDI) renderam em média 10,78% em 2024. Isso significa juros reais de quase 6% ante uma inflação de 4,83% medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA)
As expectativas do mercado são de que a inflação permanecerá elevada. Na segunda-feira (24) a edição mais recente do Relatório Focus mostrou que a média das projeções é de um IPCA de 5,66% neste ano, acima dos 4,50% do teto da meta de inflação. Isso indica juros em alta.
Esse cenário não passou despercebido aos investidores. A pesquisa “O Brasil que Investe” realizada pela B3 em 2024, mostrou que 60% dos entrevistados mencionam a rentabilidade como o principal critério na escolha do investimento.
Além dos títulos do Tesouro, o investidor pode buscar a rentabilidade (e os riscos) mas elevados dos papéis privados. Especificamente as Letras Financeiras (LF) e as Letras de Câmbio (LC), que vêm ganhando participação no mercado. Os especialistas consultados pela Forbes Brasil destacaram alguns aspectos essenciais para você saber se vale a pena aplicar em Letras Financeiras e em Letras de Câmbio em 2025.
Cenário
O temor de um desequilíbrio nas contas públicas, com o excesso de gastos do governo pressionando a inflação, está no centro das preocupações do mercado. O cenário indica uma taxa Selic elevada. A edição mais recente do Relatório Focus mostra que o mercado espera juros de 15% ao ano na virada para 2026.
Na primeira reunião com o Banco Central (BC) sob a direção de Gabriel Galípolo e validando as expectativas do mercado, o Comitê de Política Monetária (Copom) elevou a taxa referencial Selic em 1 ponto percentual (p.p.) para 13,25% ao ano. O Copom também confirmou mais uma alta de um ponto percentual na reunião agendada para março.
No cenário externo, o clima também é volátil. O presidente dos EUA, Donald Trump, promete lançar tarifas de importação em produtos exportados para os Estados Unidos, mas não há um padrão estabelecido para as tributações. Esse ambiente imprevisível, somado a juros altos no Brasil e no Exterior, favorece os investimentos em renda fixa, já que proporciona retornos atrativos e mais seguros aos investidores.
De acordo com Brenno Domingos, especialista em investimentos e sócio da assessoria GT Capital, como as LFs e LCs estão atrelados ao CDI ou à inflação, momentos de juros elevados podem tornar essas aplicações mais vantajosas, pois garantem retornos atrativos no médio e longo prazo.
O que é Letra Financeira e Letra de Câmbio?
A LF foi regulamentada em 2009 e é um título de renda fixa emitido por bancos múltiplos, comerciais, de investimento e sociedades de crédito, financiamento e investimento. Segundo Domingos, essa aplicação em geral exige um investimento inicial mais elevado, a partir de R$ 50 mil. Os prazos de vencimento em geral são de dois anos ou mais. Esse investimento não possui a garantia do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), ou seja, sua proteção está na solidez da instituição emissora.
Antes de aportar, Andressa Bergamo, especialista em investimentos e sócia-fundadora da AVG Capital, destaca que é importante verificar o risco de crédito do emissor do título.“Vale ficar de olho no rating de crédito. Quanto melhor a nota de crédito do emissor, menor o risco”, afirma. A maioria das LFs e LCs não possui liquidez diária, então o investidor deve estar confortável com o prazo do investimento.
Ao contrário da Letra Financeira, a Letra de Câmbio (LC) é antiga, foi criada há mais de 100 anos. Apesar do nome, não tem relação direta com o mercado de câmbio. É um título privado emitido por sociedades de crédito, financiamento e investimento, conhecidas como financeiras.
As LC são uma aplicação popular, com investimentos mínimos entre R$ 1 mil e R$ 5 mil, e prazos superiores a um ano. “Atualmente, recomendo fazer aplicações com prazos de até cinco anos, devido ao cenário político e econômico do país”, diz Brenno Domingo.
Segundo Rafael Bellas, coordenador de produtos da assessoria InvestSmart, a LF e a LC funcionam de forma similar a um empréstimo. O investidor aplica seu dinheiro e, ao final do prazo, recebe o valor investido acrescido da rentabilidade acordada.
O coordenador explica que as LFs e LCs podem ter três formas de rentabilidade:
- Pós-fixadas, atreladas ao CDI (exemplo: 110% do CDI);
- Prefixadas, com taxa fixa (exemplo: 12% ao ano);
- Híbridas, atreladas ao IPCA + taxa fixa (exemplo: IPCA + 6% ao ano).
Particularidades
A principal diferença para outros investimentos mais populares está no perfil do emissor e nas garantias. Por exemplo, de acordo com Bellas, o CDB é emitido por bancos e também conta com a cobertura do FGC até R$ 250 mil por CPF e instituição, enquanto o Tesouro Direto é um título emitido pelo governo federal, considerado o investimento mais seguro do país. “A LF tende a oferecer taxas mais atrativas. Já a LC tem características parecidas com o CDB e também conta com proteção do FGC”, explica o coordenador.
A rentabilidade varia conforme o emissor, o prazo e as condições do mercado. As LCs oferecem taxas próximas ou superiores a CDBs, variando entre 100% e 120% do CDI, dependendo do prazo e da instituição. Já as LFs, por não terem garantia do FGC, precisam oferecer prêmios mais elevados para atrair investidores, podendo superar 120% do CDI ou ter remuneração atrelada ao IPCA + taxa fixa.
Os especialistas destacam que as LFs são indicadas para investidores de perfil moderado a arrojado, que buscam rentabilidade maior e estão dispostos a abrir mão da liquidez. Já a LC pode ser uma opção interessante para quem deseja obter retornos competitivos com a segurança da cobertura do FGC. Os profissionais recomendam comparar com as tarifas praticadas no Tesouro e nos CDBs e se vale a pena o risco / retorno da aplicação.
As LFs e LCs podem ser negociadas no mercado secundário a depender da instituição na qual utilizam. No entanto, Domingo alerta que por serem ativos não muito comuns no mercado, até pelo secundário é difícil a sua venda e possui um alto risco de perder o rendimento como penalidade.
Tributação sobre LF e LC
A tributação das LFs e LCs segue a tabela regressiva do Imposto de Renda (IR) para investimentos de renda fixa, onde as alíquotas variam conforme o tempo de aplicação:
- Até 180 dias: 22,5%
- De 181 a 360 dias: 20%
- De 361 a 720 dias: 17,5%
- Acima de 720 dias: 15%
O imposto é cobrado sobre os rendimentos no momento do resgate. Se a liquidação for feita antes de 30 dias, há cobrança de Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), que reduz progressivamente até zerar no 30º dia. Além disso, de acordo com o sócio da GT Capital, o investidor pode ter custos operacionais, como taxas de corretagem ou custódia, dependendo da instituição financeira intermediária.