É cada vez mais consistente a onda feminina que arrebata altos escalões de grandes empresas brasileiras. A presença da mulher também pede passagem em áreas nas quais os homens, até então, dominavam.
É o caso do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), que tem em seu quadro de professores a primeira mulher negra a lecionar na instituição: a doutora em física Sônia Guimarães. Notícia de impacto mundial, desde maio passado, o principal cargo da Petrobras foi assumido por uma mulher: Magda Chambriard. O que dizer, então, da união nacional em torno do sucesso da atriz Fernanda Torres como protagonista do filme “Ainda Estou Aqui” e indicada ao Oscar?
A seguir, o perfil de 15 mulheres que servem de inspiração para que a igualdade de gênero seja cada vez mais regra, e não exceção.
Conheça as Mulheres Mais Poderosas do Brasil em 2025:
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1 / 15 Marcus SteinmeyerAna Cabral, CEO da Sigma Lithium
Ana Cabral acreditava estar no auge da carreira. Em duas décadas no mercado financeiro, chegou à alta liderança de bancos como Goldman Sachs, Credit Suisse e Merrill Lynch. “Sabia que não seria CEO. Quando se chega ao teto de vidro, é preciso coragem para mudar de direção.” Após rodar quatro continentes em menos de 10 anos com seu primeiro filho (quadriplégico e com paralisia cerebral), ela ouviu sua intuição. Recusou uma proposta em Hong Kong e se estabeleceu no Brasil, onde fundou uma gestora de private equity em 2013. “Foi uma decisão arriscada.” Mas que se provou acertada. Três anos depois, a carioca assumiu como CEO e presidente do conselho da Sigma Lithium, uma das cinco maiores produtoras de lítio do mundo. Sua boutique de capital de risco, a A10 Investimentos, tornou-se a principal acionista da companhia, que produz lítio para baterias de veículos elétricos. A decisão de investir na Sigma veio logo após a tragédia de Mariana. “Me chamaram de louca por querer instalar a indústria de lítio mais moderna do mundo no Vale do Jequitinhonha.” No nordeste de Minas Gerais, a companhia produz o lítio verde “quíntuplo zero” – carbono neutro, com energia limpa, reúso de água, sem barragens de rejeitos ou químicos nocivos. Sob a gestão da CEO, a empresa, negociada na Bolsa de Toronto desde 2018, foi listada na Nasdaq em 2021. O impacto vai além da produção. A Sigma já investiu R$ 3,8 bilhões na região, liderando projetos de construção de escolas, microcrédito para 2 mil mulheres empreendedoras e doação de caixas d’água e cestas básicas para mais de 36 mil pessoas. “Me chamaram de ‘CEO hippie’ e diziam que a Sigma era uma ONG – até 2023, quando os volumes começaram a crescer.” A empresa produziu cerca de 75 mil toneladas do concentrado de lítio no quarto trimestre de 2024, totalizando 240 mil toneladas no ano. Para 2025, deve ultrapassar a meta de 270 mil toneladas. “Estamos construindo uma segunda linha industrial que vai dobrar o tamanho da empresa.” São mais de 1.500 empregos diretos e quase 20 mil indiretos, com 85% da mão de obra local. Ana, de 52 anos, começou como estagiária no Banco Garantia nos anos 1990, enquanto estudava ciência da computação e economia. De São Paulo a Nova York, Londres e Joanesburgo, liderou mais de 150 operações financeiras, movimentando mais de US$ 120 bilhões. “Sempre levantei a mão para os projetos mais complexos”, diz ela, que impressionou os chineses por acompanhar seu ritmo de trabalho. “No início, parecia impossível equilibrar família e sucesso profissional.” Aprendeu a priorizar e a gerir melhor o tempo, o que nem sempre é fácil. Hoje, quando está fora do trabalho, ela é toda dos três filhos. “Transmitir valores não é algo que posso delegar. Nada disso fará sentido daqui a 30 anos se meus filhos não forem bons cidadãos.” -
2 / 15 Victor AffaroBruna Tavares, empresária e influenciadora
Bruna Tavares não só foi pioneira, mas soube se manter no topo. “É o grande desafio”, diz a empresária e influenciadora de beleza de 38 anos, primeira brasileira a ver seus produtos na Sephora e a se unir a um grupo internacional. O segredo, ela revela, é não parar. “Me reinvento o tempo todo – na formulação, nas embalagens e no marketing.” Quando começou a desenvolver os primeiros produtos, algumas gigantes dominavam a indústria. “Cheguei quando as marcas faziam três tons de batom. O mercado era limitado em tecnologia e diversidade. Hoje, a conversa é outra – ainda bem.” Em parte, graças a ela, que apostou em inovação para construir sua marca homônima, que já ultrapassa 5 mil pontos de venda. A empresária projeta faturamento de R$ 250 milhões este ano e mira R$ 1 bilhão em uma década, com a internacionalização. Bruna já estudava dar o próximo passo, enquanto sua marca atraía grandes players do mercado. “Recebi propostas de grandes conglomerados, mas ainda não estava pronta para vender.” No último ano, chegou a um acordo de fusão com o grupo internacional Kiss New York, presente em mais de 100 países, que investirá na marca pelos próximos 10 anos e pode vir a comprar 50% da empresa. Foi o casamento perfeito: “Não tenho concorrência interna e posso crescer livremente.” Uma das exigências era seguir como diretora-executiva e criativa da BT, mantendo todas as patentes. Sua equipe soma 300 funcionários, e a produção passou de duas para seis indústrias brasileiras. Jornalista de formação, aprendeu o que sabe sobre desenvolvimento de produtos na prática. Em 2009, criou o blog Pausa para Feminices e pavimentou o caminho para sua primeira coleção de maquiagens. Em 2016, criou a linha Bruna Tavares. Com 3,6 milhões de seguidores no Instagram, planeja lançar 50 produtos este ano e dobrar o tamanho da empresa até 2030. Além de ser o nome e o rosto da marca, no início Bruna fazia de tudo, do RH ao SAC. Chegou até a levar sua filha, hoje com 18 anos, para a empresa. “Meu maior erro foi misturar Bruna Tavares pessoa física com a jurídica. Queria abraçar o mundo e não sabia delegar.” Até a identidade visual foi criada intuitivamente. Ainda assim, construiu uma das marcas favoritas da geração Z e conquistou licenciamentos com Disney, Hello Kitty, Lu do Magalu e Caderno Inteligente – e, em breve, com uma das maiores companhias do mundo. Natural de Campinas (SP), hoje se divide entre São Paulo, sua casa no interior de Nova York, onde está a sede do grupo Kiss, além de fazer pesquisas de mercado na Europa e Ásia. Para equilibrar a rotina, passa tempo com seus cachorros, faz aulas de canto e tem até um diploma de caçadora de asteroides da Nasa. “Talvez desacelere um pouco quando atingir todos os meus objetivos. Mas não consigo me imaginar longe da criação; é o que me mantém viva.” -
3 / 15 Alicia CohimCecília Brennand, fundadora do Aria Social
Aos 16 anos, ela se tornou professora de balé. Hoje, lidera uma instituição social que transforma a vida de crianças, adolescentes e suas famílias no Recife (PE) por meio da dança, da música e da educação. Cecília Brennand, 65 anos, é fundadora e lidera o Aria Social, uma organização da sociedade civil de interesse público que atende anualmente cerca de 580 alunos. Mais de 13 mil já passaram por ali e mais de 60% ingressaram no ensino superior. “Acredito na arte como uma força transformadora. Ela supre uma demanda social e contribui com a democratização cultural e artística de Pernambuco. Não é sobre ser artista, é sobre ser cidadão.” O musical Capiba, Pelas Ruas Eu Vou é um exemplo, entre tantos. No ano passado, um grupo de mais de 70 bailarinos - -cantores se apresentou em São Paulo e cidades do Nordeste para um público total que supera 25 mil pessoas, levando a história de Lourenço da Fonseca Barbosa (1904-1997), o Capiba, conhecido como o maior compositor de frevos do Brasil, que também escreveu canções de samba, guarânia e maracatu, protagonista na criação do Galo da Madrugada. “O impacto é imensurável, pois são muitas histórias, que se multiplicam. Tem, por exemplo, ex-alunos que se tornaram professores em suas próprias comunidades e também fora do país.” Wagner Lima se tornou uma inspiração. Ele fez parte do projeto, é bailarino e professor formado pela International Dance Theater Association na Inglaterra e hoje é coreógrafo em Portugal. Os eixos de atuação do Aria Social são: arte-educação, formação artística, profissionalização de professores de dança, música e curso técnico em dança com certificação do Ministério da Educação (MEC) e inclusão social. Em paralelo, todos estudam língua portuguesa e raciocínio lógico. Com isso, além da importância da arte no aprendizado na educação formal, quem passa por ali pode sair com diploma, profissão e se inserir no mercado de trabalho. Além de oferecer formação e profissionalização na música e na dança a crianças e jovens em situação de vulnerabilidade social, o Aria Social apoia as famílias com capacitação em técnicas de artesanato, fomentando o empreendedorismo local. “Percebemos que as mães que acompanhavam os filhos também enfrentavam situações complexas. Assim, criamos em 2017 o projeto Casa de Maria, que hoje apoia 140 mães artesãs.” Já é meio século dedicado à arte aliada ao social. Nessa trajetória, Cecília transformou o espaço, que um dia foi ocupado por uma galeria, em um lugar vivo. Com três filhos, quatro netas e algumas sapatilhas, diz não querer parar. Pelo contrário, neste momento dedica-se à pesquisa para a criação de um musical que homenageia Luiz Gonzaga. “Um país sem cultura é um corpo sem alma. Vivemos em um lugar onde sonhos não precisam ser só sonhos.” -
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4 / 15 Getty ImagesFernanda Torres, atriz
Fernanda Torres fez história com Ainda Estou Aqui. Vencedora do Globo de Ouro e indicada às maiores premiações internacionais de cinema, ela se tornou um símbolo do Brasil com o filme que conquistou o mundo. “É uma alegria poder fazer algo que se comunica com as pessoas independentemente da nacionalidade, da língua ou da cultura”, resume a atriz de 59 anos. Dirigido por Walter Salles e baseado no livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva, o fenômeno levou mais de 4 milhões de brasileiros aos cinemas e se firmou como marco histórico no audiovisual nacional. Mas Fernanda sequer imaginava que o filme alcançaria tamanho triunfo. “Tudo que eu fiz que nasceu para arrebentar foi um fracasso. Geralmente, o que você faz humildemente em um canto é o que faz sucesso.” A artista, conhecida por seu trabalho em comédias como Os Normais e Tapas e Beijos, encarnou a história de Eunice Paiva, uma dona de casa, mãe de cinco filhos na década de 1970, que se transforma em uma grande ativista após o assassinato do marido (e pai do autor) durante a ditadura militar no Brasil. “Embora seja uma história trágica, o filme tem uma mensagem de resistência e de reinvenção dessa mulher. Sinto que, assim como a Eunice, tenho esse sentido de maternidade e essa veia de primeira da turma, uma certa inteligência feminina.” Depois de vencer o Globo de Ouro de Melhor Atriz em Filme Dramático pelo papel, conquistou uma indicação como Melhor Atriz ao Oscar, seguindo os passos de sua mãe, Fernanda Montenegro – única brasileira indicada à categoria, em 1999, com Central do Brasil, também dirigido por Walter Salles. Esta edição da Forbes fecha antes do resultado da premiação do Oscar 2025, mas, para Fernanda, a vitória já aconteceu. “Estou tão feliz pelo filme que o que vier é lucro.” Filha de Fernanda Montenegro e Fernando Torres, a atriz herdou dos pais a paixão e a garra pela arte. “Desde muito cedo, saquei que não existe garantia de nada com o lugar que você atinge. Tive isso dos meus pais: o que importa é o ofício mesmo.” Além da atuação, ela divide sua carreira com outras artes: escreve livros e roteiros, produz peças e firma seus próprios projetos. “O convite é algo que acontece por sorte, mas você tem que ser capaz de apontar caminhos para você mesma.” Depois do sucesso com o longa, os planos ainda estão incertos para o futuro. “Não sei se vou fazer teatro, outro longa ou escrever. Não existe um ponto fixo em que estou da minha carreira.” Uma coisa, porém, é certa: a atriz vai tirar um merecido descanso após a correria da campanha de lançamento de Ainda Estou Aqui. “A partir de março, depois do Oscar, volto à minha vida, e a Eunice me devolve a minha encarnação.” -
5 / 15 Victor AffaroGeyze Diniz, cofundadora e presidente do conselho do Pacto Contra a Fome
Quase um terço dos domicílios brasileiros (27,6%) encontra-se em situação de insegurança alimentar, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Isso significa que mais de 50 milhões de pessoas não têm acesso regular e permanente a alimentos em quantidade e qualidade suficientes para uma vida saudável. “Por outro lado, o Brasil joga fora oito vezes o que seria suficiente para alimentar toda a população que passa fome”, questiona a economista Geyze Diniz. Sensível à incoerência, ela cofundou e é presidente do Conselho do Pacto Contra a Fome, liderando uma coalizão suprapartidária e multisetorial que pretende aca - bar com a fome no Brasil até 2030 e fazer com que todos os brasileiros estejam bem alimentados em 2040 – objetivos e prazos instituídos pela Organização das Nações Unidas (ONU). Formada em economia pela Universidade Mackenzie e com MBA pela Fundação Getulio Vargas, trabalhou nove anos no Grupo Pão de Açúcar, onde conheceu Abilio Diniz (1936-2024). Foi diretora de Planejamento Estratégico, integrou o conselho de administração. É conselheira da Península Participações, empresa de investimentos da família, e do Instituto Península. Faz parte de conselhos da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e do Museu de Arte de São Paulo (Masp) – é colecionadora de arte contemporânea. Sua atuação na ONG Verde Escola durante 14 anos também foi marcante, principalmente nas ações emergenciais no Litoral Norte de São Paulo. Mas foi durante a pandemia de Covid-19, quando o fechamento das escolas revelou a urgência da fome infantil, que sua trajetória tomou um novo rumo. Ajudou a criar o movimento União SP, que distribuiu 900 mil cestas básicas e inspirou iniciativas semelhantes em outros estados. Em 2021, com a crise alimentar se agravando, coordenou a campanha Panela Cheia Salva, arrecadando R$ 240 milhões. Após inúmeras conversas com lideranças, nasceu o Pacto Contra a Fome, movimento da sociedade civil com soluções sistêmicas para combater a fome e o desperdício de alimentos. Desde sua fundação, em 2023, o Pacto celebra avanços significativos. Atua em parceria com governos estaduais, como Ceará, Maranhão e Pará, e influencia políticas públicas, incluindo a reforma tributária que garantiu critérios de saudabilidade e regionalização para a cesta básica nacional. Também lançou campanhas de conscientização e criou um prêmio que reconhece iniciativas eficazes no combate à fome. Para Geyze, não é apenas uma questão humanitária, mas um compromisso coletivo que precisa do engajamento do setor privado. “Empresas frequentemente direcionam seus investimentos para causas como saúde e educação, mas a fome, que afeta diretamente a produtividade e o desenvolvimento social, ainda não recebe a atenção necessária.” -
6 / 15 Victor AffaroJuliana Souza, fundadora e presidente do Instituto Desvelando Oris
Quando criança, Juliana Souza sonhava em ser juíza. Na escola, virou alvo de piadas, mas encontrou força nas palavras da mãe: “O impossível é provisório”. Nascida em Feira de Santana (BA) e criada entre Osasco e Itapevi (SP), tornou-se advogada, mas optou por outro caminho. Vinte anos mais tarde, em agosto passado, fez história ao conquistar a primeira condenação no Brasil por racismo e injúria racial com pena em regime fechado. “Fui essa criança negra que sofreu racismo e sou uma adulta negra que lida diariamente com microviolações que de ‘micro’ não têm nada”, diz a advogada, de 33 anos. O caso, que envolveu a filha dos atores Bruno Gagliasso e Giovanna Ewbank, agora segue para a segunda instância. Juliana lidera o Instituto Desvelando Oris (“cabeça”, em iorubá), fundado por ela em 2022 para combater as desigualdades racial e de gênero, apoiado nos pilares de educação, justiça e cultura. A ONG já impactou diretamente 35 mil pessoas por meio de seus projetos: orientação jurídica pro bono, mentorias e oficinas de capacitação profissional, programas de educação antirracista, além de eventos para as comunidades, uma biblio - teca e um closet solidário na sede em São Paulo. “Quero que a jornada de quem vem de onde eu vim seja menos difícil, que essas pessoas se apresentem antes do CEP, da cor da pele ou da conta bancária.” Seu trabalho a levou a Nova York para receber o prêmio Most Influential People of African Descent (MIPAD), que reconhece as pessoas negras mais influentes do mundo. Estar na lista não basta – ela quer ampliá-la. “Esse lugar de ‘única’ não me interessa.” Filha orgulhosa de uma “dinastia de trabalhadoras domésticas”, Juliana encontrou na educação o caminho para ascender. “Em casa, sempre tive minhas maiores professoras”, diz a advogada, que estudou em escolas públicas e devorava o único livro disponível em casa: um dicionário. Foi beneficiária de um projeto social que preparava alunos da rede pública para a universidade. Antes de cursar direito na PUC-SP com bolsa do ProUni, trabalhou como eletricista de manutenção e digitadora. Mais tarde, atuou no Instituto Alana, onde iniciou sua trajetória no terceiro setor. Durante a pandemia, alcançou 2 milhões de pessoas em uma live com a Anitta, e ali percebeu seu poder de traduzir o racismo para um público amplo. Daí nasceu, em 2021, o livro Torrente Ancestral, Vidas Negras Importam?. Advogada, empreendedora, influenciadora e autora, ela defende sua multiplicidade. “Tenho muitos interesses para além de falar sobre raça e desigualdade”, diz a entusiasta da moda nacional e amante de bons vinhos e viagens. Agora, ela quer ampliar sua mensagem por meio da música e prepara o lançamento de seu primeiro disco. “A música, e a arte em geral, têm o poder de nos conectar e nos alcançar em outro lugar.” -
7 / 15 Victor AffaroLaiz Carvalho, economista para Brasil do BNP Paribas
Aos 35 anos, Laiz Carvalho já consolidou seu nome entre os principais economistas do Brasil. Como economista-chefe do BNP Paribas, ela não apenas lidera a cobertura do país para um dos maiores bancos do mundo, mas também ajudou a consolidar a instituição entre as cinco brasileiras que mais acertam projeções financeiras no ano. “É um selo de qualidade e reconhecimento do meu trabalho”, diz a executiva, que está há três anos no cargo. Com 15 anos de carreira e passagens pelo Santander e BTG Pactual, foi a primeira mulher negra a conquistar o cargo de economista-chefe no Brasil, quando trabalhava no Brasilprev, em 2020. “Hoje, somos duas nessa posição em todo o país. Precisamos mexer na base para que mais mulheres queiram trabalhar no mercado financeiro.” Nascida no extremo da zona leste de São Paulo, Laiz não cresceu sonhando em ser economista. “Para mim, banco era a agência que tinha perto da minha casa. Não era factível trabalhar com economia.” Na escola, falava que queria ser advogada e, em casa, inspirava-se na Globeleza. “Era a referência que eu tinha quando criança de uma mulher negra de sucesso na TV.” O caminho para o mercado financeiro se abriu quando estava no ensino médio, ao se espelhar nos professores para tentar uma faculdade pública. Passou no vestibular e se formou no curso pela Universidade de São Paulo, mas só ganhou gosto pela economia quando, de fato, começou a trabalhar. As conquistas vieram com seus desafios. Enquanto estudava na USP e fazia estágio na Faria Lima, enfrentava quatro horas e meia de transporte por dia. “No início, minha maior barreira era a geográfica.” Com o tempo, percebeu que ser uma mulher negra no setor vinha com uma bagagem extra. “Para poder ser respeitada, tinha que alisar o cabelo, me vestir bem, mas nada muito extravagante, ter pulso muito firme e, às vezes, falar mais alto do que homens.” Depois de quebrar inúmeras barreiras, veio o desejo de ter companhia: em 2021, Laiz fundou a Black Swan, iniciativa que ajuda a ampliar oportunidades profissionais para mais de 200 mulheres negras no mercado financeiro com programas de mentoria. “Quero fazer com que elas entendam o quão poderosas são e o quão bem-sucedidas podem ser.” Entre a rotina corrida para gerenciar o trabalho e a iniciativa, Laiz faz questão de reservar os domingos para um respiro da vida profissional: quando não está com a família, viajando ou praticando algum esporte ao ar livre, pode ser encontrada nos cinemas, sua outra paixão. “Sou uma pessoa que não gosta de ficar parada.” Pela frente, a economista já busca treinar novos talentos para ocuparem seu lugar no futuro. “Quando sair do mercado, quero ter mulheres que ajudei a formar prontas para assumir esse espaço.” -
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8 / 15 DivulgaçãoLiana Thomaz, CEO da Água de Coco
A estilista e empresária Liana Thomaz celebra os 40 anos da marca Água de Coco em 2025. Partindo de uma máquina de costura e o talento de uma costureira, iniciou sua trajetória no universo da moda em 1985, ano de fundação da marca, em Fortaleza. Sua liderança visionária a consolidou como referência em sofisticação e design autoral, com criações inspiradas na cultura e na natureza brasileira. Ao longo dos anos, o portfólio expandiu-se além da moda praia feminina, incorporando moda infantil e masculina, acessórios e itens para casa. Consolidada hoje como uma marca de lifestyle de luxo, conta com 29 lojas no Brasil e uma em Miami (EUA), está presente em mais de 200 multimarcas, exporta para 25 países, participa de importantes feiras internacionais, do São Paulo Fashion Week e de outras agendas do segmento. No ano passado, viu o faturamento da empresa avançar 58% ante 2023. A expectativa para este ano é ainda mais otimista. “Com o e-commerce no Brasil e nos Estados Unidos, a Água de Coco segue ampliando seu alcance global.” “Minha principal conquista foi, sem dúvida, construir uma empresa do zero aos 18 anos. Tenho muito orgulho dessa trajetória, de estar à frente da marca todos os dias e saber que contribuo para o sustento de muitas famílias. O que mais me motiva é trabalhar junto a um time apaixonado.” Os desafios têm sido constantes, desde o primeiro dia até hoje, diz ela. “Eles surgem diariamente, mas são superáveis, trazendo oportunidades de crescimento, não apenas financeiro, mas pessoal, como líder e como empresa.” Segundo Liana, a força feminina é um pilar da Água de Coco. Com 85% da equipe formada por mulheres e 82% dos cargos de liderança ocupados por elas, ela reforça seu compromisso com a equidade de gênero e o empoderamento feminino nas operações, o que reflete tanto na criação das coleções quanto na gestão. Aos 59 anos, tornou-se referência no mundo da moda e no dos negócios, inspirando novos empreendedores, sobretudo mulheres. “Comecei muito nova. Hoje, a minha liderança se baseia muito mais em compartilhar tudo que aprendi ao longo desses anos, e não uma liderança de apenas dar ordens. Eu acredito que todos são responsáveis pelo que fazem, porque temos bons profissionais ao nosso lado. Minha principal característica como líder é confiar nos profissionais que estão ao meu lado, porque essa confiança é o que faz a empresa crescer e ter um objetivo único.” A marca tem olhar para responsabilidade social: mantém o projeto Água de Coco Verde, que promove ações de conscientização ambiental. Exemplo disso são os mutirões de limpeza em Jericoacoara realizados em parceria com a comunidade local e cooperativas de reciclagem. -
9 / 15 Thiago LontraMagda Chambriard, presidente da Petrobras
A carreira de Magda Chambriard se confunde com a evolução da indústria de petróleo no Brasil. Formada em engenharia civil (UFRJ, 1979) e mestre em engenharia química (UFRJ, 1989), iniciou sua trajetória na Petrobras ainda nos anos 1980, aos 22 anos, atuando na área de Produção. Com diversas especializações, desde negociação de contratos de exploração até liderança, ela assumiu a diretoria-geral da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) em 2012, tendo liderado ali a criação da Superintendência de Segurança e Meio Ambiente, os estudos técnicos que culminaram na primeira licitação do pré-sal, entre outras conquistas. Quando tomou posse como presidente da Petrobras, em junho de 2024, Magda ressaltou a importância da companhia para os brasileiros. “O que vamos fazer na Petrobras envolve o potencial para gerar centenas de milhares de empregos diretos e indiretos, além de expressivos recursos para União, estados e municípios em participações governamentais. Nosso plano estabelece a trajetória que a companhia irá percorrer como líder brasileira da transição energética justa e inclusiva.” Esse compromisso se reflete nos resultados alcançados. No ano de 2024, a Petrobras atingiu todas as metas de produção estabelecidas em seu Plano Estratégico 2024-2028+. A produção total de óleo e gás natural alcançou 2,7 milhões de barris de óleo equivalente por dia (BOE/D). A companhia também estabeleceu novos recordes anuais de produção total própria e operada no pré-sal, com 2,2 milhões de BOE/D e 3,2 milhões de BOE/D, respectivamente. Ações foram antecipadas, como o início de produção do FPSO (unidade flutuante de produção, armazenamento e transferência, da sigla em inglês) Maria Quitéria, previsto para este ano e registrado em outubro passado. No terceiro trimestre de 2024 (último relatório divulgado), a Petrobras apresentou lucro de R$ 32,6 bilhões, alta de 22,3% em comparação com o mesmo período do ano anterior; e a distribuição de dividendos aos acionistas atingiu R$ 17,1 bilhões. O conselho de administração aprovou, ao final do último exercício, o Plano Estratégico 2050 (PE 2050), que propõe refletir sobre o futuro do planeta e como a empresa quer ser reconhecida no período, e o Plano de Negócios 2025-2029 (PN 2025-29), com metas de curto e médio prazo. No horizonte dos próximos quatro anos, por exemplo, a Petrobras prevê investimentos de US$ 111 bilhões – 9% superior ao volume previsto no PE 2024-28+. O planejamento da Petrobras incorpora a ambição de que a empresa deve manter sua relevância atual no fornecimento de energia e no desenvolvimento econômico do Brasil. A presença inédita de três mulheres na diretoria reflete um novo momento na história da Petrobras – e Magda Chambriard está no centro dessa transformação. Ao assumir o comando da companhia, ela não apenas lidera a maior empresa do Brasil, mas também pavimenta o caminho para uma gestão mais diversa e estratégica, mirando o futuro do setor energético com solidez e inovação. -
10 / 15 Victor AffaroPatricia Muratori, diretora do YouTube para a América Latina
Para Patricia Muratori Calfat, multidisciplinaridade é um conceito que a acompanha desde os 15 anos de idade. Já trabalhou em vendas, administrativo, comunicação, tecnologia e, segundo ela, nem todas as mudanças foram planejadas. “Meu maior aprendizado foi compreender que meu crescimento podia não ser linear. Desse modo, abracei o desconforto muitas vezes e a ideia de que o sucesso poderia emergir de diversas formas, por meio de novos desafios; mudança de rota; ou alcançando habilidades inesperadas.” A executiva, que atualmente é responsável por uma liderança estratégica do YouTube na região, reforça que saber encarar a rapidez com que o mercado se transforma é crucial. “Confesso que não ter medo de mudanças foi um fator determinante para mim. Construí uma rede de apoio diversificada, que foi além de mentores e coaches, valorizando a sabedoria de amigos, colegas e mesmo de concorrentes, cultivando um ambiente de troca constante.” Seu papel no YouTube reflete a responsabilidade em lidar com um negócio que impacta milhões de pessoas ao redor do planeta. Na América Latina, são mais de 167 milhões de pessoas conectadas, sendo Brasil e México, respectivamente, primeiro e segundo lugares em número. Nos últimos anos, sob a liderança de Patricia, o YouTube protagonizou feitos históricos na região, um deles, por meio de uma parceria com a CazéTV, durante os jogos olímpicos de 2024, reunindo mais de 750 milhões de visualizações e 43 milhões de usuários únicos ao vivo. “A transmissão esportiva no YouTube não é apenas sobre o jogo, é sobre todo o entorno, os comentários, a torcida, as interações. Então, traremos todo o potencial da TV conectada para fomentar um ecossistema aberto, democrático e acessível”, destacou Patricia na época, reforçando o impacto cultural e social da plataforma. Para Patricia, o futuro de sua trajetória profissional passa por ser cada vez mais fiel a um propósito. “Quero continuar a construir negócios sustentáveis, focados no bem da sociedade, sem abrir mão dos meus valores inegociáveis e intransferíveis. Além do meu trabalho no mundo corporativo, desejo continuar a retribuir à sociedade pelas oportunidades e privilégios que tive ao longo da carreira, me dedicando às instituições e movimentos que fazem a diferença em nosso país.” Ela reforça que inspiração é algo que precisa se manter vivo no coração de uma executiva de sucesso. “Foi crucial ao longo do tempo coletar referências de mulheres inspiradoras que me mostraram a força originada da vulnerabilidade e a potência que se revela na gentileza. Com elas, aprendi a importância de ser autêntica e fiel à minha essência, construindo meu caminho sem a obrigatoriedade de me encaixar em conceitos preestabelecidos.” -
11 / 15 Victor AffaroPaula Harraca, CEO da Ânima Educação
Quando assumiu como CEO da Ânima Educação, em julho de 2024, Paula Harraca entrou para o seleto grupo de mulheres à frente de companhias listadas na B3. Além de ser a primeira mulher no cargo, a executiva argentina é a primeira de fora do grupo de sócios - -fundadores. “Por onde passei, fui a primeira – e garanti que não seria a última.” Foi assim na ArcelorMittal, onde construiu uma carreira de 20 anos, de trainee a C-Level. Quando entrou na multinacional de aço em Rosário, sua cidade natal, era a única entre 500 homens. Foi a primeira diretora – ao sair, já eram quatro. Após atuar em seis países, estava a um passo de virar presidente quando decidiu sair. “Podia ser CEO, mas existia uma grande diferença entre a minha potência e essa cadeira na indústria de base.” Hoje, aos 44 anos, lidera um ecossistema educacional com mais de 350 mil estudantes em 18 instituições de ensino superior, além de marcas como HSM, Le Cordon Bleu e Singulari - tyU, e mais de 700 polos educacionais pelo Brasil. “Minha mãe foi professora universitária durante 50 anos. A única e melhor herança que eu tive na vida foi a educação”, garante a executiva, que se mudou com suas duas filhas (8 e 11 anos) de BH para São Paulo no início deste ano. Desde 2019, a executiva estava no conselho consultivo da Una, onde começou a história da Ânima. Em maio de 2023, Paula foi convidada pelos fundadores a participar do processo para se tornar CEO e, no final do ano, passou a fazer parte do conselho de administração. A nova CEO dá início ao que chama de “terceira onda da Ânima”, que registrou lucro líquido ajustado de R$ 49 milhões no terceiro trimestre de 2024, totalizando R$ 178,2 milhões nos primeiros nove meses do ano. “Vamos dobrar a Ânima, e não apenas no sentido de receita – vamos multiplicar o impacto.” Nos primeiros 30 dias no cargo, dedicou-se a ouvir – clientes, funcionários, educadores e o comitê executivo. Só então traçou uma nova estratégia: “Inauguramos um desenho ambidestro com três avenidas de crescimento”. O foco continua sendo o ensino presencial, mas a executiva aposta em novas modalidades e formatos, especialmente no mercado B2B, na educação executiva e em soluções customizadas. Sob sua gestão, a companhia vai lançar a primeira universidade do país com foco na creator economy, mercado avaliado em US$ 250 bilhões e que pode chegar a US$ 480 bilhões em 2027, segundo o Goldman Sachs. “Estamos trazendo uma proposta educacional para um setor desestruturado”, afirma, citando o investimento de R$ 40 milhões no projeto, que terá campus em São Paulo. Mais até do que pelos números, Paula, que foi goleira de hóquei sobre grama por 10 anos, é motivada pelo impacto que pode gerar nessa posição. “Não é o cargo que me move, e sim o poder transformador da educação na vida das pessoas.” -
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12 / 15 Victor AffaroRenata Gomide, vice-presidente de marketing do Grupo Boticário
VP de marketing do Grupo Boticário e atleta, em especial apaixonada por maratonas, Renata Gomide gosta de ressignificar o termo alta performance. “Ao longo do tempo, entendo que a beleza de um time de alto desempenho está em saber extrair o máximo de cada um respeitando a diversidade de perfil. No passado, procurava pessoas muito parecidas comigo”, analisa a executiva. “Hoje tenho um time composto por pessoas muito diferentes entre elas. E é, sem dúvida, o mais potente que já montei”, completa, enaltecendo a força do conjunto sob sua liderança. Atualmente, a executiva lidera o marketing de uma empresa que se tornou um colosso brasileiro. Os números comprovam a dimensão da operação. Em 2023, as vendas totais da companhia ultrapassaram R$ 30 bilhões – resultado que significa crescimento de 30,5%. “Eu tenho uma cadeira muito estratégica que tem a responsabilidade de gerar um valor significativo para a organização na entrega do curto prazo”, revela Renata. “Mas isso não quer dizer que o longo prazo esteja fora do radar. [Também atuo] na construção de futuro da organização. Tenho muitas frentes a serem exploradas na cadeira de marketing, porém, como sempre fiz na minha carreira, me preparo para o futuro de uma maneira que esteja pronta para toda as oportunidades que surgirem”, afirma. Formada em administração pela Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), em marketing pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e com MBA em gestão estratégica de negócios pela Fundação Getulio Vargas (FGV), Renata celebra este ano a efeméride de 10 anos na companhia: ingressou no Grupo Boticário em 2015. Desde então, ela assumiu diversos cargos de destaque, incluindo a liderança na construção da marca Eudora e a unidade de negócios de Quem Disse, Berenice. Em 2021, foi nomeada diretora-executiva de Branding e Comunicação de todas as marcas de consumo do Grupo Boticário. Em novembro de 2022, ela foi promovida a vice-presidente de Consumer, com a missão de continuar a construção do maior ecossistema de beleza do grupo. Para outras mulheres líderes, Renata afirma que inspiração vai além de admiração. “Sejam corajosas, busquem conhecimento em áreas que ultrapassem o que se espera de suas cadeiras – estejam preparadas para os próximos passos e oportunidades. Não terceirize a sua carreira: cada uma de nós é responsável pelo crescimento individual. E se cerquem de pessoas capazes de te ensinarem algo. Enfim, aproveitem a jornada – ela precisa ser divertida. Apaixonem-se pelo que fazem.” -
13 / 15 Victor AffaroSonia Guimarães, doutora em Física e professora do ITA
Filha de pai tapeceiro e mãe comerciante, Sonia sempre se destacou em escolas públicas. A matéria favorita não demorou a aparecer: matemática. Desde cedo, demonstrou paixão por aprender e uma habilidade natural para cálculos. Na adolescência, seguiu um caminho natural e não pensou duas vezes ao se decidir pelo vestibular para engenharia civil. No entanto, foi necessário se empenhar em diversos turnos, uma vez que precisava trabalhar para conseguir bancar os custos de um cursinho. E foi nesse ambiente que um professor sugeriu algo para ela que não estava nos planos iniciais: buscar cursos menos concorridos. O conselho a levou para a física. Sonia ingressou na Universidade Federal de São Carlos (interior de São Paulo). Graduou-se em ciências em 1979 e logo depois iniciou um mestrado em física aplicada na mesma universidade. Em 1986, fez as malas e atravessou o Atlântico para começar uma nova etapa de vida na Inglaterra. Ali, cursou doutorado em materiais eletrônicos na University of Manchester Institute of Science and Technology. Em 1989, Sonia se tornou a primeira mulher negra doutora em física do Brasil e, em 1993, ingressou como professora no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), sendo a primeira mulher negra a lecionar na instituição. Ao longo de sua carreira, Sonia se destacou em pesquisas sobre semicondutores e desenvolvimento de sensores de calor. Em 2023, ela recebeu a Medalha Santos Dumont de Honra ao Mérito. “O maior aprendizado da minha carreira é jamais desistir. Alcancei vários objetivos como pesquisadora e professora e, apesar disso, nunca chegarei ao posto mais alto no instituto em que estou, o de professora titular. Isso reflete os desafios que enfrento por ser quem sou no ambiente em que estou inserida. No entanto, isso não me fez desistir nem deixar de acreditar – muito pelo contrário.” Sonia explica que suas habilidades extrapolaram o ambiente do ensino. “Hoje, minha carreira ultrapassou o espaço de sala de aula. Venho direcionando para isso há alguns anos. Entendi que não era uma voz solitária, mas pioneira. Tenho percorrido o país e o exterior para falar sobre diversidade e inclusão, além de somar esforços para abrir mais espaços para mulheres e pessoas negras. Tenho participado ativamente de discussões e decisões em espaços de poder, como nos debates que antecederam o G20, além de eventos em Harvard, MIT, Columbia University, Illinois University e no Centro Lemann, onde dei palestras e me reuni com professores e estudantes do Brasil e dos EUA para debater esses assuntos”, lembra a acadêmica. -
14 / 15 Marcus SteinmeyerTarciana Medeiros, CEO do Banco do Brasil
Há 25 anos, no seu primeiro dia no Banco do Brasil, Taciana Medeiros ouviu a pergunta: “O que você quer ser dentro do banco?”. “Diretora”, respondeu sem hesitar a paraibana de Campina Grande. Na época, era uma entre quase 100 mil funcionários, mas queria estar entre os 20 principais líderes. “Olhei a próxima função: gerente de relacionamento, uma entre 5 mil. E assim eu fui.” Um degrau de cada vez até se tornar, em 2023, a primeira mulher a presidir o Banco do Brasil em 214 anos. “Passou um filme na cabeça”, lembra a presidenta, como prefere se referir ao cargo. Tarciana foi feirante e professora antes de ser aprovada no concurso do BB, onde construiu sua trajetória até o topo. “Foi natural me destacar pela experiência e pelas habilidades que desenvolvo desde os oito anos. Na feira, se você não conversa com as pessoas, não vende. No banco é a mesma coisa.” Come - çou em uma agência na Bahia e passou por diferentes estados, do Pará a São Paulo. “Rodar o país me trouxe a bagagem necessária para gerir a empresa hoje.” À frente de uma organização com mais de 86 mil funcioná - rios, Tarciana, 46 anos, mulher negra, nordestina e lésbica, representa a diversidade que quer ver dentro do banco. “Não é moda, é economia.” O Banco do Brasil registrou lucro líquido ajustado recorde de R$ 37,9 bilhões em 2024, crescimento de 6,6% frente a 2023. “Nosso resultado é consequência da forma como trabalhamos nossos valores.” Quando assumiu a presidência, 22% dos cargos de gestão eram ocupados por mulheres e 24% por pessoas negras. Com programas de aceleração de carreiras, esses números subiram para 27,4% e 29,1%, respectivamente, até o fim de 2024. Tarciana foi reconhecida pela ONU em Nova York como CEO de destaque nas iniciativas Elas Lideram e Raça é Prioridade, que buscam a paridade de gênero e raça na liderança até 2030. Além da diversidade, o foco é entregar resultados sustentáveis, apoiar empreendedores e ampliar a educação e inclusão financeira. “Minha missão é que o Banco do Brasil seja reconhecido mundialmente pelo papel transformador na economia e na sociedade.” A agenda da CEO inclui viagens pelo Brasil e pelo mundo, mas nos finais de semana ela busca estar com a família em Brasília. “Se tiver evento, eu levo todo mundo.” Tarciana encontra tempo para ler e estudar temas fora da economia. Acaba de reler A Hora da Estrela, de Clarice Lispector, e está estudando neuropsiquiatria e TDAH. “Minha curiosidade me traz uma ampla bagagem, para o trabalho e para a vida”, diz, e lembra que, quando criança, desmontava rádios e televisões da família para entender como funcionavam. Ser presidente do Banco do Brasil, segundo ela, é diferente de liderar qualquer outro banco brasileiro. “Algumas situações testam nossa capacidade de resistir, mas as minhas características me ajudam. Não é só resiliência, é teimosia mesmo e a necessidade de mudar o status quo.” -
15 / 15 DivulgaçãoVanusia Nogueira, diretora-executiva da Organização Internacional do Café
Vanusia foi a primeira mulher a assumir a cadeira de diretora-executiva da Organização Internacional do Café (OIC), cargo máximo. Ela tomou posse em 2022, mudou-se para Londres – onde fica a sede da entidade, que nasceu em 1963 e que hoje reúne 77 países membros – e vem promovendo mudanças na entidade e nos seus embates globais. O café é uma das principais commodities do mundo, com produção estimada de 176,2 milhões de sacas de 60 quilos na safra 2024/25, aumento de 4,2% em relação ao ciclo anterior. Os responsáveis foram o Brasil (pelo aumento da produção), e a Indonésia (pela recuperação das lavouras). Ao assumir a presidência da OIC, a pandemia ainda deixava sua marca no mundo dos negócios. A organização, que já havia enfrentado um período de crise de preços no setor, teve que lidar com uma nova realidade, na qual as visitas aos países produtores foram interrompidas. Vanusia logo entendeu que a dinâmica precisava mudar para restaurar a presença física e o diálogo direto com os produtores e membros da indústria. “Quando cheguei, a OIC estava retomando as atividades presenciais, e passei a viajar bastante. Isso foi fundamental porque eu já tinha uma boa rede de contatos, fruto da minha experiência anterior. Quando fui aos países produtores, encontrei muitas pessoas que já conheciam meu trabalho e, ao mesmo tempo, havia uma demanda muito forte por diálogos. Os produtores, especialmente as mulheres e os jovens, queriam falar sobre os desafios que estavam enfrentando. Foram viagens intensas, de muita demanda por soluções e apoio.” Vanusia foi por 13 anos líder da Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA), em um período de mudanças profundas no setor, com projetos de internacionalização do café brasileiro e fortalecimento das marcas da bebida no exterior. “Minha experiência na BSCA foi fundamental para chegar à OIC, mas o ambiente internacional é bem distinto. A OIC tem um modelo de atuação baseado em diplomacia, em que precisamos entender as particularidades de cada país produtor e consumidor. O papel da OIC é estratégico na articulação e precisamos ser um ponto de convergência que prioriza a sustentabilidade, a equidade social e o desenvolvimento econômico.” Hoje, as agendas de Vanusia dão conta de um amplo leque, que vai de novas legislações ambientais a questões climáticas. Entre elas, a lei de desmatamento da União Europeia, que trouxe questões urgentes sobre como a produção cafeeira poderia se alinhar às exigências internacionais, sem comprometer os países produtores. “A questão do desmatamento tornou-se central e a mudança climática não é mais uma ameaça futura.”
A edição 127 da Forbes Brasil, que traz a lista de Mulheres Mais Poderosas do Brasil, já está disponível no aplicativo da Forbes, que pode ser baixado na App Store e na Play Store.
*Textos: Fernanda Almeida, Luiz Gustavo Pacete, Mariana Krunfli e Vera Ondei (Colaboração de Paola Carvalho)
Edição: Décio Galina e José Vicente Bernardo
Produção executiva: Lucas Mano
Fotos: Marcus Steinmeyer e Victor Affaro
Beleza: Marisa Rocha e Renan Tavarez