
Após 355 anos de operação, a The Bay, uma grande loja de departamentos conhecida como a empresa mais antiga do Canadá, entrou com um pedido de proteção contra credores. Um dos fatores para o encerramento foi a incapacidade de se adaptar à queda no tráfego de consumidores no período pós-pandemia.
Em uma era marcada pela volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade (sigla para Vuca), a resiliência é vital para a sustentabilidade a longo prazo e a sobrevivência das empresas. A Agricultura Conservadora e Inteligente (CSA, na sigla em inglês) é um movimento global com o objetivo de construir resiliência contra o impacto das mudanças climáticas, a fim de garantir a sustentabilidade a longo prazo.
Muitos países e regiões estão reconhecendo a importância de integrar princípios de conservação em suas práticas agrícolas, particularmente em áreas que enfrentam desafios significativos na agricultura por causa das mudanças climáticas, degradação do solo e escassez de recursos.
Hoje está colocado uma pergunta: à medida que a resiliência continua sendo apontada como uma habilidade de alta demanda no futuro do trabalho, o que a CSA poderia ensinar às organizações sobre como elas podem ser mais estratégicas ao ajudar suas empresas (e os colaboradores dentro delas) a prosperar enquanto as condições de trabalho, competências, tecnologia e relações geopolíticas estão em constante mudança?
Agricultura Conservadora e Inteligente
Recentemente, os doutores Naveen, Datta e Behera revisaram sistematicamente a literatura sobre a adoção de práticas de CSA e produziram uma lista das práticas mais amplamente adotadas no sul da Ásia. Após analisar 78 estudos extraídos de três bases de dados acadêmicas, os pesquisadores apresentaram diversas práticas agrícolas e recomendações que podem ser implementadas em ambientes de gestão para cultivar a adaptabilidade e a resiliência. Assim como os produtores rurais adaptam suas estratégias agrícolas com base nas condições ambientais, abaixo estão três percepções que líderes empresariais podem aplicar ao seu trabalho para navegar melhor pelas mudanças.
3 Maneiras pelas Quais a Agricultura Ilumina a Resiliência Estratégica
1. Diversificação de Culturas: A prática de cultivar uma variedade de culturas em uma determinada área para aumentar a biodiversidade, o que pode melhorar a resiliência contra pragas, doenças e mudanças nos padrões climáticos.
O setor agrícola está em constante evolução, com produtores adotando práticas inovadoras baseadas em pesquisa e tecnologia. Gestores também devem fomentar uma cultura que celebre a inovação contínua e a abertura ao fracasso. No artigo The Quest for Resilience, da Harvard Business Review, Gary Hamel e Liisa Välikangas defendem a importância da resiliência estratégica: “O sucesso contínuo não depende mais do impulso. Em vez disso, ele depende da resiliência – da capacidade de reinventar dinamicamente modelos de negócios e estratégias conforme as circunstâncias mudam. Resiliência estratégica não é responder a uma crise pontual ou se recuperar de um revés. Trata-se de antecipar e se ajustar continuamente a tendências profundas e seculares que podem prejudicar permanentemente o poder de ganho de um negócio principal. Trata-se de ter a capacidade de mudar antes mesmo de que a necessidade de mudança se torne evidente.”
Uma metodologia ágil que eles recomendam para as organizações é institucionalizar um processo de experimentação que busque e acompanhe a geração de ideias novas por toda a empresa, testando e medindo sua viabilidade financeira. Em vez de perseguir novas “grandes e imperiais estratégias”, explore experimentos de baixo risco de forma ampla e frequente.
2. Sementes resilientes ao clima: Essas sementes são especialmente desenvolvidas ou modificadas para resistir a condições climáticas extremas, como secas, enchentes ou temperaturas extremas, para garantir a segurança alimentar apesar das adversidades climáticas.
Organizações que desejam melhorar sua capacidade de prosperar em ambientes voláteis devem considerar que tipo de cultura estão criando e se ela está incentivando comportamentos dos colaboradores que os permitam sobreviver a mudanças rápidas.
Em 1999, a doutora Amy Edmondson cunhou o termo segurança psicológica, que se refere à crença compartilhada de que as pessoas se sentem seguras em relação aos riscos interpessoais que surgem no contexto de trabalho em equipe. “Projeto Aristóteles”, o estudo interno do Google sobre quais variáveis em nível de equipe são mais comuns em seus times de maior sucesso, examinou mais de 250 variáveis e descobriu que a segurança psicológica era o fator mais importante, seguido de confiabilidade, estrutura e clareza, significado e impacto do trabalho.
Infelizmente, apesar da importância da segurança psicológica para a liderança, o desempenho e a cultura, apenas 42% dos gestores relatam sentir segurança psicológica no trabalho — apenas 40% se sentiam assim. Implementar treinamentos de liderança que ensinem como os líderes podem regular suas emoções e se sintonizar com seus colaboradores pode ajudar a cultivar um clima de equipe de maior qualidade que incentive feedback honesto, divergência e discussão de erros, promovendo a inovação.
Os pesquisadores da CSA defenderam a criação de centros de treinamento especializados para mulheres e agricultores idosos — a população que eles identificaram como detentora do maior potencial para implementar práticas da CSA. Considerando que empresas que priorizam o aprendizado tendem a demonstrar níveis mais altos de resiliência, líderes podem considerar quais competências dos colaboradores são mais essenciais, ou estão mais em risco de se tornarem obsoletas, e começar a estabelecer estrategicamente um processo para apoiar o redesenho de funções e treinamentos internos.
3. Cadeias de valor: Para avançar na integração das práticas da CSA, pequenas e médias empresas e agentes agrícolas foram incentivados a gerar mais valor por meio de uma colaboração mais intencional. Em um contexto de gestão, à medida que a demanda por habilidades deve mudar rapidamente nos próximos cinco anos, os líderes podem considerar onde posicionar conjuntos específicos de competências, funções ou pessoas para apoiar a colaboração.
Duas medidas de como redes estão interligadas na academia são a centralidade de autovalor (eigencentrality), que caracteriza o grau em que um colaborador é uma pessoa central nas estruturas de colaboração, e a centralidade de intermediação (betweenness centrality), que se refere a se um colaborador está no caminho de conexão entre outros colaboradores que não estão diretamente conectados.
Posicionar estrategicamente colaboradores com competências críticas e de alta demanda em posições centrais pode ajudar as organizações a permanecerem resilientes diante das mudanças. Na agricultura, o compartilhamento de conhecimento comunitário desempenha um papel vital em estratégias de cultivo bem-sucedidas.
Da mesma forma, fomentar a colaboração entre projetos departamentais pode construir um senso de comunidade e resolução coletiva de problemas. A agrofloresta se refere a uma tática onde árvores e arbustos são integrados aos sistemas de cultivo e criação de animais para melhorar a biodiversidade, fertilidade do solo, sequestro de carbono e regulação do microclima. Posicionar estrategicamente um colaborador com expertise em cultivar segurança psicológica como um arbusto em uma plantação repleta de competências em IA pode ajudar o desempenho geral da equipe a se tornar mais fértil.
Resiliência Estratégica
Emular as estratégias de resiliência da agricultura pode oferecer insights valiosos para líderes empresariais que buscam aumentar a adaptabilidade organizacional. Ao adotar a experimentação, promover uma cultura de segurança psicológica e buscar ativamente formas de incentivar a colaboração, gestores podem ser estrategicamente resilientes e preparar suas equipes para navegar pelas complexidades do ambiente de negócios atual.
* Ellen Choi é colaboradora da Forbes EUA, professora assistente em GRH/OB na Ted Rogers School of Management, Toronto Metropolitan University. Ela é psicóloga organizacional com formação nas áreas de Psicologia Social e Comportamento Organizacional e doutora pela Ivey School of Business.