
Uma fivela de cinto se transforma em colar; outra, em brinco. A haste de um leque, feita de madrepérola, sustenta um pingente. A bolsinha de prata da chatelaine – acessório usado por aias e camareiras no século 19 –, assim como os delicados e diminutos perfumeiros de prata e cristal, de outras épocas, se transformam em colares. Uma minaudière, muitos camafeus e até a estrutura de um miniporta-retrato: desde que sejam antigos e belos, esses objetos únicos, garimpados em mercados e feiras ao redor do mundo, estão na mira de Isabella Blanco.
Com as peças de segunda mão, a designer cria novas joias – que nunca são feitas do zero, mas sempre voltam à ativa, ressignificadas, depois de um longo tempo vivendo como antiguidade. Isabella se apropria dos itens e os transforma com ouro e pedras preciosas, de modo que elas ganham ar contemporâneo e original, além de valor. “O futuro é vintage, mas não podemos estacionar no tempo. O design precisa ser atual, respeitando a estética do item. O resultado são joias one of a kind, ninguém tem igual”, explica.
É o tipo de trabalho sobre o qual dá vontade de saber mais, de conhecer a história por trás de cada peça – Isabella sabe contar todas elas, por isso fez questão de convidar a reportagem da coluna para conhecer seu ateliê em São Paulo, de décor maximalista, assim como as peças que produz. A seguir, uma conversa sobre os processos de criação da designer, cujo trabalho pode ser visto no perfil da marca na rede social: @isabellablancojoias.
Como é o seu processo de garimpo de peças antigas?
Viajo atrás de antiguidades desde 2009 – elas estão cada vez mais caras e mais escassas, muito diferente de dez anos atrás. Mas meu coração bate forte, até hoje, antes de entrar nesses lugares. Chego sem saber o que quero e saio com muitos desejos. Algumas vão para a minha coleção pessoal, como é o caso do choker que Débora Blocker vai usar em sua primeira cena como Odete Roitman no remake de Vale Tudo, cujo figurino é assinado por Marie Salles. O colar é art nouveau, original dos anos 1920, garimpado em Paris.
A que lugares costuma ir?
Encontro diferentes materiais em diferentes lugares. No Brasil, o Rio de Janeiro e Porto Alegre são bons mercados; São Paulo, menos. A Alemanha é ótima para procurar baquelite e a Áustria, esmaltados. Em Roma, coral e camafeus; em Londres, prata e joias vitorianas. Em Paris tem bastante art nouveau e em Nova York se encontra de tudo.
E o que você procura?
Busco qualidade artística, originalidade e, claro, autenticidade. Se fico em dúvida sobre a autenticidade, não compro. Fiz cursos, de antiquariado, de ourivesaria. Estudo sobre o assunto; sou jornalista e por alguns anos editei uma revista, a Retrô, sobre coleções e antiguidades. Meu olhar abarca os últimos 120 anos de joalheria, do estilo vitoriano ao étnico dos anos 1960. Com a prática, hoje já reconheço um colecionador sério: até o andar dele é diferente.
O que tem no seu “manual de etiqueta” para frequentar feiras e lojas de antiguidades?
A primeira coisa é pedir licença antes de tocar em qualquer coisa. E nunca oferecer um preço aviltante por uma peça, pois, por mais que a prática da barganha seja permitida, isso irá ofender o comerciante. Se quiser obter boa mercadoria, é preciso chegar bem cedo às feiras de antiguidade – no final desses eventos, até se consegue melhores preços, mas as peças de qualidade já terão ido embora. Ah, e não tentar negociar quando o comerciante está comendo (nos Estados Unidos, é muito comum vê-los almoçando nas barracas, na frente do público).
Melhor esperar ele terminar a refeição e voltar depois, quando estará com melhor humor e mais aberto à negociação. Costumo usar roupas simples e confortáveis, poucas joias e relógios. Sem ostentação. E um bom tênis ou sapato sem salto. Uso sempre bolsa pequena, cruzada. Mãos livres para garimpar! E, por último, uma coisa muito importante: nessa época de Instagram, sempre pedir antes de fotografar as barracas ou as lojas de antiguidade. Muitos não gostam ou não permitem.
Voltando ao Brasil, você começa um outro processo.
Trabalho com quatro coleções anuais, são cerca de 300 peças por ano. Pode ser uma coleção inspirada no Egito, ou feita de colheres de chá de prata. Um item que é hit, que produzo sempre, são os botões com iniciais, de latão, que transformo em pulseiras, anéis. Em 2018, fiz uma série de bolsinhas de chatelaine, sucesso até hoje. Em 2014, trouxe muitos perfumeiros; virou moda – inclusive a Chloé fez esse tipo de acessório no último desfile, do inverno 2025/26. Mas tudo pode se transformar em joia: elas nascem de objetos inusitados como um set de placement, um pente de tartaruga, um cabo de guarda-chuva. Faço um trabalho conceitual, para quem tem estilo próprio.
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Os perfumeiros garimpados ao redor do mundo ganham pedras e adornos em ouro. Transformados em colar, são um dos hits do ateliê de Isabella Blanco
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Camafeus antigos se transformam em anéis maximalistas e ganham ar contemporâneo com diamantes brown e incolores, além de safiras, esmeraldas e turmalinas – de Isabella Blanco
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A madrepérola esculpida enfeitava uma minaudière. Transformada pela designer Isabella Blanco, ganha diamantes e corrente de ouro para brilhar na versão colar
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Os colares-bolsinha fazem muito sucesso: são adaptados a partir das peças utilitárias feitas de malha de prata, que integravam as chatelaines – o material de trabalho das camareiras de muito tempo atrás – e que ganham a interferência
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Colar feito a partir de fivelas de cinto esmaltadas, dos anos 1920_30, encontrados na República Tcheca – da coleção Nouveau-Déco, de Isabella Blanco
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Brincos de rubi criados a partir de fivelas de vulcanite, dos anos 1880_1890, garimpados na Inglaterra – coleção Vitoriana, de Isabella Blanco
Os perfumeiros garimpados ao redor do mundo ganham pedras e adornos em ouro. Transformados em colar, são um dos hits do ateliê de Isabella Blanco
Com Antonia Petta e Milene Chaves
Donata Meirelles é consultora de estilo e atua há 30 anos no mundo da moda e do lifestyle.
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