
A coluna convidou as consultoras de arte Graziela Martini e Patrícia Amorim de Souza, da Art Homage, para contarem os destaques imperdíveis da SP-Arte 2025. Em sua 21ª edição, realizada no Pavilhão da Bienal no Parque Ibirapuera, a feira reafirmou seu status como um dos eventos mais relevantes do circuito internacional. Lotada de visitantes e colecionadores VIPs, a SP-Arte manteve o fôlego mesmo em um momento de retração do mercado global, mostrando-se imune a qualquer abalo — talvez graças à proteção tarifária que isola o mercado brasileiro das oscilações internacionais e favorece um cenário mais coeso e voltado ao talento nacional.
Confira os highlights da feira de arte a seguir:
Com artistas brasileiros em crescente projeção no circuito internacional, é visível o amadurecimento do colecionismo local. Nossos colecionadores vêm reconhecendo a potência de uma produção diversa, plural, marcada por distintas etnias, gêneros e vivências. E seguem investindo com inteligência em obras que já nascem com relevância histórica e política.
Uma artista que cativou o nosso olhar na feira foi Adriana Coppio. Há algo profundamente sensível e atmosférico na maneira como ela transforma narrativas em pintura. Ver as obras que ela criou a partir de Graciliano Ramos, no estande da Galeria Sardenberg, foi como entrar num universo paralelo – um sertão íntimo, quase onírico, onde o peso do silêncio e da paisagem fala mais alto. É bonito ver como sua pintura figurativa se alinha tão organicamente às densidades dos textos de Graciliano. E o público parece ter sentido o mesmo: tudo foi vendido logo no primeiro dia da feira.
Outra artista que nos chamou atenção de imediato foi Vivian Caccuri. Seu trabalho, que atravessa som, imagem, corpo e tecnologia, tem uma potência sensorial que é difícil de descrever – é como se ela abrisse frestas em nosso sistema perceptivo. Nesta SP-Arte, já sob o novo nome Almeida & Dale, resultado da fusão recente com a antiga Galeria Millan, a artista apresentou obras que continuaram esse seu percurso de investigar o som para além do que se escuta. E o público correspondeu: todas as obras de Vivian disponíveis na feira foram vendidas logo no primeiro dia.
A grande surpresa da feira foi este mural de Di Cavalcanti. A obra, de dimensões raríssimas para o artista, estava até pouco tempo atrás no saguão de um prédio na Avenida Atlântica, no Rio de Janeiro — o tipo de tesouro escondido em plena paisagem urbana. Depois de uma longa negociação com os proprietários, a tela apareceu no estande da Galatea com uma pedida de até R$ 8 milhões — e foi vendida durante os primeiros dias da feira. É um trabalho exuberante, onde a síntese modernista de Di Cavalcanti pulsa em cada figura e cor, e onde o Brasil popular e tropical aparece com força monumental. Ver uma peça desse porte ao vivo é um privilégio.
A bola da vez na feira foi Lucas Arruda. Bastava chegar perto do estande da Mendes Wood DM para ver gente esperando a vez de contemplar, em silêncio, as duas telas fortíssimas que a galeria trouxe para a SP-Arte. Como de costume, são obras de pequeno porte, mas imensas na densidade atmosférica que provocam — parte da série Deserto-modelo, em que luz e espaço parecem se dissolver no tempo. O momento é especial: na semana seguinte à feira, Lucas se torna o primeiro artista latino-americano a ter uma individual no Musée d’Orsay, em Paris, ao lado de nomes como Monet. Não é à toa que havia fila: seu trabalho segue consolidando uma das trajetórias mais potentes da pintura contemporânea.
Uma das experiências mais marcantes da feira foi ver de perto uma obra histórica de Yayoi Kusama. A Simões de Assis trouxe para seu estande uma pintura da série Dots Obsession, datada de 2001 — um trabalho raro e emblemático dentro da produção da artista. Em meio à repetição obsessiva dos pontos, algo se move: a pulsação do infinito, da loucura, da persistência. Kusama é uma das vozes mais singulares da arte contemporânea, e há algo de comovente em estar frente a frente com uma de suas obras em São Paulo. É sempre bom lembrar o impacto de poder acessar, ao vivo, a potência de uma artista que moldou o imaginário da arte global com tanta intensidade.
Um dos trabalhos mais sofisticados da feira veio de Antonio Tarsis. A peça apresentada pela Fortes D’Aloia & Gabriel, Sem título (Escudo de Xangô), de 2025, foi rapidamente vendida — e não surpreende. Feita com caixas de fósforo reorganizadas em uma grande composição que remete à pintura abstrata, a obra carrega uma elegância estrutural rara, resultado de uma sensibilidade formal apurada e de uma pesquisa material profundamente política. Há uma cadência nas repetições, uma vibração nas cores desbotadas, um rigor na montagem que transforma o cotidiano em símbolo. Foi um dos momentos de força e refinamento da feira.
Com obras icônicas como a de Kusama chamando atenção e nomes brasileiros despontando com cada vez mais força no exterior, a SP-Arte 2025 se consolidou como mais do que uma vitrine: tornou-se um retrato da vitalidade — e da resiliência — do nosso sistema de arte.