
Aos 17 anos, Luisa Strina estava em um leilão quando um marchand se rastejou pelo corredor e sussurrou em seu ouvido: “Você fez um péssimo negócio. Venha ao meu estúdio amanhã e te vendo outras gravuras muito mais bonitas e mais baratas”. A transação em questão era a aquisição de sua primeira obra de arte, uma gravura de Lívio Abramo que, dias depois, foi acidentalmente rasgada e rasurada por um moldureiro incauto.
“Era para eu nunca mais trabalhar com arte porque deu tudo errado!”, relembra a octogenária dama das artes em conversa por videochamada de Miami, onde esteve para a última edição da Art Basel local. Há mais de 30 anos, aliás, ela fazia história sendo a primeira galerista latino-americana a ser convidada para participar da feira de arte suíça (hoje sediada também em Miami, Hong Kong e Paris), considerada a mais prestigiada do mundo.
A participação pioneira abriu caminho para que outras galerias e artistas do Brasil se internacionalizassem e acabou moldando definitivamente o desenho da arte brasileira. Strina, porém, rejeita qualquer protagonismo. “Eu, fazendo história? Não, não, não, imagina. Uma andorinha só não faz verão. Foi um processo, fiz isso com muita gente, o país estava em um bom momento, havia artistas interessantes. Foi toda uma conjuntura”, diz, esparramada no sofá, com uma humildade que quase destoa da personalidade vibrante e assertiva pela qual é conhecida.
A autoconfiança a acompanha desde que pendurou uma placa com o seu nome na fachada de um ateliê em um bairro nobre de São Paulo, em 1974. Strina estava decidida a se dedicar exclusivamente à promoção da arte contemporânea, e a galeria logo se mostrou rentável mesmo em um cenário de ditadura militar, no qual era desafiador expor (e vender) esse tipo de trabalho. “Todos os meus artistas tinham um fundo político: Cildo Meireles, Tunga, Nelson Leirner, Dora Longo Bahia”, relembra ela, que se autodenomina “de centro – mesmo que não exista centro hoje e eu esteja sozinha [risos]”.
Desde aquele 17 de setembro, já se vão 50 anos de sucesso da Galeria Luisa Strina, cuja fundadora figurou diversas vezes entre as 100 pessoas mais influentes da arte mundial na lista da revista Art Review e, em 2014, foi fotografada por Annie Leibovitz para um artigo da Vanity Fair sobre as 14 galeristas mais importantes do mundo.
Strina também recebeu em sua galeria personagens notáveis – como o cantor Bono Vox, da banda U2, com quem viria a cultivar uma amizade –, mas nem sempre ciente disso. “O Pierce Brosnan [ator conhecido por interpretar James Bond] entrou na galeria e eu não sabia quem era. As meninas ficaram todas assanhadas, disseram que ele era artista. Fui lá e perguntei se ele era escultor [risos]. Mas, se eu vendo para o Bono ou para o Zé da Silva, eu gosto do mesmo jeito. Para mim, tanto faz.”
A mesma indistinção ela faz com os artistas por trás das obras que tão minuciosamente escolhe há meio século: “Trabalho com excelência, e excelência não tem cor ou gênero. Esses não são pontos de atenção para mim. Olho primeiro para a obra”. Além disso, ela afirma que a comercialização das peças não é a alma de seu negócio: “Nem sempre a proposta primeira é vender. A boa obra é a que fica no tempo”.
Aos 3 anos de idade, a galerista já dava indícios de ter um olhar atento e sensível para as artes: sua primeira memória é a de uma escultura de peixe em concreto na casa da avó. Décadas depois, apostaria na arte extremamente conceitual e então pouco conhecida de Cildo Meireles, que viria a quebrar recordes de vendas em leilões na Christie’s e na Sotheby’s, e Tunga, que, entre outros feitos, se tornaria o primeiro artista contemporâneo e primeiro brasileiro a expor no Louvre.
À Forbes, ela revela sua próxima aposta: Bruno Baptistelli, artista paulista multimídia que explora conceitos da psicanálise e as idiossincrasias do espaço urbano. Com um talento para previsões certeiras, Strina confessa que já tomou decisões equivocadas, mas, para ela, mau negócio mesmo é “vender obras maravilhosas que não queria ter vendido”, como quando fez uma mostra de Basquiat no início da carreira e se desfez de todas as peças.
Para quem tinha a curiosidade de conhecer um pouco de seu acervo pessoal, a galeria inaugurou no final do ano passado uma exposição com um recorte de sua coleção privada, com obras de Cildo Meireles, Leonilson, Mira Schendel, Carl Andre, Jimmie Durham e Francis Alÿs, entre outros. Dentre os trabalhos expostos, Strina destaca os retratos que fizeram dela e a obra A Penteadeira, de Meireles, em madeira pintada e espelho. “Toda a obra dele está colocada nesse quadro. É o meu favorito da exposição.”
As comemorações do cinquentenário também incluem o lançamento do livro Luisa Strina 50 (Act. Editora), que reúne ensaios de curadores e jornalistas e destaca 100 exposições memoráveis ocorridas no espaço, como as de Anna Maria Maiolino, Olafur Eliasson, Alfredo Jaar e Renata Lucas. “A da Renata, que aconteceu quando a galeria completou 40 anos, foi icônica. Ela mudou as paredes, as portas e as janelas de lugar. Aquilo foi marcante”, lembra Strina.
Em um tempo em que uma banana é vendida a mais de US$ 6 milhões – algo que Strina, diga-se, acha “ótimo, uma boa crítica ao mercado da espetacularização” –, celebrar a curadoria crítica e a arte que transcende o imediatismo midiático é um exercício valioso para todos, um convite para refletir sobre o que realmente queremos que perdure. Questionada sobre o futuro da galeria, Luisa Strina responde: “A Deus dará [risos]. Não, eu vou viver mais 50 anos. Ainda tenho tempo para escolher muito bem o que vou fazer”.
Reportagem publicada na edição 126 da revista, disponível nos aplicativos na App Store e na Play Store e também no site da Forbes.