
O burnout não é apenas uma fase — está se tornando a norma para grande parte da geração Z. O cansaço e a névoa mental estão se espalhando mais rápido do que nunca. Uma pesquisa da Cigna, de 2022, descobriu que 91% dos trabalhadores da geração Z relatam estresse, com 98% mostrando sinais de burnout.
Como geração Z, você entra na vida adulta em um mundo que nunca desacelera. Há uma pressão constante para performar, se adaptar e se manter à frente, o que deixa pouco ou nenhum espaço para respirar. Você pode considerar o tempo livre como improdutivo ou até a ideia de descanso pode vir com culpa. Ao mesmo tempo, as expectativas — tanto pessoais quanto profissionais — continuam a subir, tornando mais difícil sentir que está fazendo o suficiente.
Além disso, a tecnologia tornou tudo mais acessível, mas também borraram as linhas entre trabalho, escola e vida pessoal. Estar constantemente conectado significa que sempre há algo exigindo atenção — um prazo, uma notificação ou outro objetivo para perseguir.
As redes sociais amplificam essa pressão, alimentando a sensação de que você deve estar sempre alcançando algo ou acompanhando os marcos dos outros. Isso resulta em uma geração que funciona no vazio antes mesmo de ter tido a chance de se firmar.
Aqui estão três razões pelas quais a geração Z está se queimando rapidamente.
1-Baixa satisfação no trabalho e expectativas altas demais
Comparada a gerações anteriores, a geração Z está mais propensa a entrar no mercado de trabalho com um forte desejo por um trabalho significativo, crescimento pessoal e um ambiente que esteja alinhado com seus valores, em vez de apenas buscar um salário. No entanto, muitos locais de trabalho ainda operam sob estruturas desatualizadas que priorizam a produtividade em vez do bem-estar, tornando difícil se sentir realizado.
Pesquisas mostram que os trabalhadores da geração Z relatam uma menor satisfação no trabalho em comparação com gerações mais velhas. Segundo uma pesquisa com 1.234 adultos trabalhadores, a geração Z deseja progressão na carreira, desafios e um compromisso mais forte dos empregadores com a saúde mental e a diversidade.
No entanto, quando os locais de trabalho não atendem a essas expectativas, surgem frustrações e insatisfações. Essa brecha entre o que buscam e o que experimentam leva ao desligamento e, por fim, ao burnout.
Para enfrentar essa questão crescente, os pesquisadores recomendam que as empresas repensem sua cultura de trabalho para apoiar melhor os empregados da geração Z, oferecendo trajetórias de carreira mais claras, priorizando iniciativas de saúde mental, promovendo a inclusão e incentivando uma comunicação aberta para criar um ambiente de trabalho mais saudável.
Embora mudanças sistêmicas levem tempo, aqui estão algumas ações proativas que você pode adotar para proteger seu bem-estar no trabalho:
• Reestruture o crescimento da carreira. Se seu local de trabalho não oferece uma evolução clara, concentre-se em desenvolver habilidades fora do trabalho por meio de cursos online, networking ou projetos paralelos que estejam alinhados com seus objetivos de longo prazo.
• Redefina a produtividade. Questione a ideia de que o descanso é improdutivo. Veja as pausas como um investimento no sucesso a longo prazo, em vez de um tempo desperdiçado.
• Negocie o que você precisa. Se seu trabalho não oferece suporte à saúde mental ou flexibilidade, defenda-se propondo iniciativas de bem-estar ou opções de trabalho flexíveis ao seu empregador.
O burnout não precisa ser sua realidade — ao valorizar seu bem-estar e se manifestar sobre o que precisa, você pode construir uma carreira que seja satisfatória, e não exaustiva.
2-Desequilíbrio entre vida pessoal e trabalho (e funções indefinidas)
A geração Z está enfrentando um grande desequilíbrio entre trabalho e vida pessoal, o que leva ao aumento do burnout e à diminuição do bem-estar geral, especialmente em funções remotas, onde trabalho e vida pessoal muitas vezes se misturam.
A falta de limites claros no trabalho remoto frequentemente leva os empregados a trabalhar além do horário oficial, como parte de uma cultura de “sempre disponível”, onde há uma expectativa não dita de estar disponível o tempo todo.
Essa divisão embaçada entre trabalho e vida pessoal torna difícil desligar-se do estresse relacionado ao trabalho, enquanto a conectividade virtual constante aumenta a percepção de carga de trabalho e pode deixar as pessoas se sentindo sobrecarregadas e exaustas.
Pesquisas recentes indicam que o mau equilíbrio entre vida pessoal e trabalho contribui diretamente para o burnout, pois os indivíduos lutam para gerenciar suas responsabilidades profissionais e sua vida pessoal de forma eficaz.
Os pesquisadores examinaram a relação entre o equilíbrio entre vida pessoal e trabalho, a ambiguidade de função e o burnout entre os trabalhadores da geração Z e descobriram que quanto menor o equilíbrio entre vida pessoal e trabalho, maiores os níveis de burnout. Quando os indivíduos não têm clareza sobre suas funções e expectativas no trabalho, isso intensifica ainda mais o burnout, levando ao cansaço mental, emocional e físico.
Esses achados sugerem que esse desequilíbrio deixa pouco tempo para descanso, socialização ou autocuidado, impactando negativamente a motivação e a produtividade.
Para combater isso, é necessário estabelecer limites firmes, como definir claramente os horários de trabalho e desconectar-se após o expediente para recuperar o tempo pessoal. Priorizar o autocuidado, fazer pausas estruturadas e ter uma comunicação clara com os empregadores sobre as expectativas de carga de trabalho pode ajudar a prevenir o burnout.
Por fim, incentivar uma cultura que valorize o equilíbrio, em vez da disponibilidade constante, é fundamental para manter o bem-estar e a produtividade a longo prazo.
3- Comparação Social Constante
Nos dias de hoje, a geração Z enfrenta desafios únicos que contribuem para o burnout, particularmente devido ao uso predominante das redes sociais. A exposição constante a representações curadas das conquistas, estilos de vida e sucessos dos colegas cria um ambiente propenso à comparação social, levando muitos a se sentirem inadequados ou pressionados a atender padrões irreais.
Pesquisas publicadas no Frontiers in Public Health destacam que a comparação social é um elo crucial entre o vício em redes sociais e o burnout. Embora a comparação social por si só não cause diretamente o burnout, sua interação com o uso excessivo das redes sociais aumenta significativamente o risco. Isso sugere que o burnout experimentado pelos usuários de redes sociais não é causado apenas pelo tempo gasto online, mas é amplamente impulsionado pelo impacto emocional das comparações constantes.
O estudo também observa que comparações ascendentes (comparar-se com aqueles percebidos como mais bem-sucedidos) e comparações descendentes (comparar-se com aqueles percebidos como menos bem-sucedidos) desempenham um papel no burnout.
Curiosamente, aqueles que se envolvem frequentemente em comparações descendentes — buscando reafirmação ao se comparar com aqueles em situações piores — são, na verdade, mais propensos a experimentar burnout. Isso indica que, em vez de servir como um amortecedor contra o estresse, as comparações descendentes podem reforçar a insatisfação e o esgotamento emocional.
Os pesquisadores sugerem que controlar os hábitos nas redes sociais e desenvolver uma relação mais saudável com o conteúdo online pode mitigar o burnout. Estratégias para alcançar isso incluem:
• Reconhecer os gatilhos emocionais. Tornar-se consciente de como as redes sociais afetam suas emoções pode ajudar a pessoa a se desconectar das comparações negativas.
• Regular o uso das redes sociais. Estabelecer limites de tempo de tela e fazer detox digital pode reduzir a exposição excessiva ao conteúdo curado online.
• Criar um ambiente online mais saudável. Seguir contas que inspiram, em vez de provocar inseguranças, pode mudar o impacto da comparação social.
• Mudar a perspectiva sobre a comparação social. Entender que as redes sociais apresentam versões idealizadas da realidade pode ajudar a reduzir o impacto emocional da comparação.
A autoconsciência e hábitos intencionais nas redes sociais podem ajudar a reduzir o impacto emocional das comparações constantes e proteger contra o burnout. Desenvolver uma relação mais saudável com o conteúdo online é fundamental para manter o bem-estar geral.
Quebrando o Ciclo do Burnout
A crise do burnout na geração Z reflete um mundo que exige constantemente mais sem nos ensinar a pausar. A chave para quebrar esse ciclo reside não apenas em mudanças externas, mas em uma transformação interna: redefinir o sucesso além da produtividade e recuperar o tempo para descanso e conexão.
Em vez de apenas gerenciar o burnout, é necessário considerar cultivar proativamente a resiliência. Desenvolver hábitos de trabalho sustentáveis, como sessões de foco profundo com pausas estruturadas, em vez de estar em modo de “correria” interminável.
O burnout não precisa ser o padrão. Ao mudar as prioridades de conquistas incessantes para um preenchimento integral, você pode enfrentar as pressões modernas enquanto protege sua saúde mental, emocional e física.
*Mark Travers é colaborador da Forbes USA. Ele é um psicólogo americano formado pela Cornell University e pela University of Colorado em Boulder.