
A lista de grandes fracassos da indústria automotiva é longa e cheia de histórias, encabeçada por desastres como o Edsel da Ford e o crossover SUV Pontiac Aztek da General Motors. Até mesmo o elegante DMC-12 de aço inoxidável de John DeLorean, icônico por seu papel nos filmes “De Volta para o Futuro”, foi um fracasso de vendas que levou a empresa à falência. Agora, o projeto pessoal de Elon Musk, a Tesla Cybertruck, um verdadeiro desastre sobre rodas, lidera essa lista.
Depois de pouco mais de um ano no mercado, as vendas do veículo de 3 mil kg, cujo preço parte de US$ 82 mil (R$ 460.020), estão muito abaixo das previsões de Musk. Sua péssima reputação em termos de qualidade, com oito recalls nos últimos 13 meses, sendo o mais recente devido a painéis da carroceria que se soltam, e seu design polêmico o transformaram em piada para quem gosta de carros. Diferente de outros fracassos da indústria automotiva, que apenas tinham um visual estranho ou vendiam mal, a caminhonete de Musk também se tornou um símbolo dos protestos globais contra a Tesla, impulsionados pelo papel do bilionário na polêmica em torno da DOGE e sua política alinhada ao Make America Great Again.
“Está no mesmo nível do Edsel”, disse Eric Noble, presidente da consultoria CARLAB e professor do ArtCenter College of Design em Pasadena, Califórnia – o chefe de design da Tesla, Franz von Holzhausen, responsável pelo estilo da Cybertruck para Musk, é um ex-aluno do famoso programa de design automotivo da instituição. “Foi uma tentativa grandiosa e um fracasso igualmente grande”, afirma Noble.
Vendas despencam
Se analisada apenas pelas vendas, a Cybertruck de Musk está em uma situação ainda pior que o Edsel, cujo nome se tornou sinônimo de um erro catastrófico de produto. A Ford esperava vender 200 mil Edsels por ano quando o modelo foi lançado em 1958, mas conseguiu vender apenas 63 mil. As vendas despencaram em 1959, e a marca foi descontinuada em 1960. Musk previu que a Cybertruck poderia atingir 250 mil vendas anuais. No entanto, a Tesla vendeu pouco menos de 40 mil unidades em 2024, seu primeiro ano completo no mercado. Não há sinais de que o volume esteja aumentando este ano, com as vendas em queda nos meses de janeiro e fevereiro, segundo a Cox Automotive.
Além disso, as vendas gerais da montadora estão despencando em 2025, com as entregas caindo 13% no primeiro trimestre, totalizando 337 mil unidades, bem abaixo da expectativa do mercado, que era de 408 mil. A empresa não divulgou os números específicos da Cybertruck, incluindo-a na mesma categoria do Model S e do Model X, seus modelos mais caros. No entanto, está claro que as vendas da Cybertruck foram prejudicadas neste trimestre pela necessidade de realizar ajustes relacionados aos recalls, afirmou Ben Kallo, analista de ações da Baird, em um relatório. A Tesla não respondeu imediatamente a um pedido de comentário.
A desaceleração trimestral destaca o fato de que, no caso da Cybertruck, os resultados estão muito distantes das promessas exageradas de Musk. “A demanda está fora dos padrões”, ele declarou durante uma chamada de resultados em novembro de 2023, pouco antes das primeiras unidades serem enviadas aos clientes. “Temos mais de 1 milhão de pessoas que reservaram o carro.”
Na expectativa de vendas elevadas, a Tesla chegou a modificar sua Gigafactory em Austin para produzir até 250 mil Cybertrucks por ano, investimentos em capacidade que provavelmente não serão recuperados. “Eles não apenas disseram que queriam vender muito. Eles se prepararam para vender muito”, disse Glenn Mercer, pesquisador da indústria e líder da consultoria GM Automotive, sediada em Cleveland.
Visual controverso
No entanto, a suposição de uma demanda massiva se mostrou um grande erro. E não levou em conta os problemas autoimpostos que atrapalharam ainda mais as vendas. Descobriu-se que a enorme Cybertruck é grande demais ou não está em conformidade com as regras de segurança para pedestres em alguns países, o que limita as chances de impulsionar as vendas por meio da exportação. “Eles não venderam muito e é improvável que, neste caso, os mercados estrangeiros possam salvá-los, nem mesmo a China, que tem sido um grande mercado para os carros da Tesla”, disse Mercer. “Este carro foi feito para o mercado interno.”
Mais de uma década antes de a Cybertruck entrar em produção, Musk insinuou que a Tesla eventualmente faria algum tipo de picape elétrica. Quando revelou seu design ao mundo pela primeira vez, Musk deixou claro que não queria uma estética convencional ou algo que apenas brincasse com o visual das picapes, mas que ainda fosse familiar, abordagem adotada pela Rivian com sua picape R1T.
“As picapes têm sido as mesmas há 100 anos”, e a Cybertruck “não se parece com nada”, disse Musk, que, no início daquele mês, orgulhosamente declarou a uma plateia em uma conferência para empreendedores espaciais: “Eu não faço nenhuma pesquisa de mercado.”
O visual distinto da Cybertruck resultou de dois fatores principais, segundo uma pessoa familiarizada com o processo de desenvolvimento. Um deles foi a paixão de Musk por designs de ficção científica. O outro foi a decisão inicial de criar um veículo que não precisasse ser pintado. Se a Tesla optasse por não pintar as picapes, não precisaria instalar uma nova linha de pintura de US$ 200 milhões (R$ 1,122 bilhões), uma grande economia potencial. Além disso, não teria que se preocupar com a fiscalização da EPA em relação às emissões prejudiciais e ao desperdício que essas instalações frequentemente geram.
No fim, Musk escolheu um exterior de aço inoxidável, a mesma decisão que DeLorean tomou para seu problemático carro esportivo quatro décadas antes. Mas, como Musk não é um engenheiro de produção, pode não ter compreendido completamente os desafios que esse material apresenta em relação ao alumínio ou a materiais compostos. Além do fato de que o aço inoxidável deixa marcas de mão visíveis – uma reclamação comum em eletrodomésticos –, ele é difícil de dobrar e tende a voltar à sua forma original, um dos motivos pelos quais há problemas nos painéis da carroceria da Cybertruck.
“Eles ficaram entusiasmados por não gastar US$ 200 milhões em uma linha de pintura, mas provavelmente gastaram isso tentando fazer o aço inoxidável funcionar”, comenta Glenn Mercer.
O desenvolvimento da Cybertruck, incluindo os custos de ferramentaria para produzi-la em Austin, provavelmente custou à Tesla cerca de US$ 900 milhões (R$ 5, 049 bilhões), estimou Mercer. E, ao contrário dos outros veículos da empresa, como o sedã Model 3 e o crossover Model Y, não parece que a Cybertruck compartilha custos de desenvolvimento e produção com outros produtos da Tesla.
“Ela tem alguma tecnologia comprovada que pode ser usada em outros modelos da empresa? Não é o caso”, disse Mercer. “A fábrica pode produzir outros veículos com base nos investimentos feitos para a Cybertruck? Não, não pode. Um veículo de aço inoxidável sem pintura simplesmente não tem uma aplicação ampla.”
Erros desde o início
Os maus presságios estavam presentes desde o início. Na apresentação do veículo em novembro de 2019, diante de fãs entusiasmados da Tesla em Los Angeles, uma demonstração do supostamente inquebrável vidro “blindado” da Cybertruck por Musk e von Holzhausen saiu hilariamente errada quando uma bola de aço lançada contra o veículo estilhaçou a janela do lado do motorista duas vezes. “Oh, meu Deus do céu”, disse um constrangido Musk. “Vamos consertar isso na edição.”
Depois veio o preço. Musk havia prometido que a versão básica do veículo, com autonomia de 250 milhas, começaria em US$ 39.900 (R$ 223.839). Ele errou por quase a metade. Atualmente, a versão básica da picape, teoricamente com preço inicial de US$ 72.490 (R$ 406.659), custa US$ 82.235 (R$ 461.337) antes de um crédito fiscal federal de US$ 7.500 (R$ 42.075), que o ex-presidente Trump prometeu eliminar. Ela promete até 325 milhas de autonomia, desde que você não esteja rebocando nada ou dirigindo rápido demais. A versão topo de linha “Cyberbeast” custa US$ 105.735 (R$ 593.139) e é cara demais para se qualificar para o crédito.
Segundo o site de notícias automotivas Jalopnik, embora a Tesla não esteja fabricando a versão de entrada que Musk prometeu em 2019, a queda no valor de revenda tornou as Cybertrucks usadas consideravelmente mais acessíveis. É possível encontrar uma usada por menos de US$ 70 mil (R$ 392.700), supondo que você esteja confortável com o risco implícito de vandalismo.
No fim, Musk condenou a Cybertruck ao fracasso ao ignorar os motivos pelos quais as pessoas compram picapes, para transportar cargas e ter um bom desempenho em condições off-road. O veículo não é competente em nenhuma dessas funções, como foi amplamente documentado em críticas devastadoras, um fluxo constante de vídeos de “falhas da Cybertruck.” Para piorar o constrangimento, está surgindo um subgênero de vídeos mostrando Cybertrucks encalhadas sendo rebocadas por Ford F-150s ou GM Silverados.
“Se há algo que as Três Grandes de Detroit sabem fazer, é fabricar picapes de grande porte para compradores extremamente fiéis”, disse Mercer. “Musk lançou a Cybertruck no segmento mais difícil de conquistar.”