Empreender ideias novas faz bagunça. E exige paciência

Meu prazer está em ver acontecer. Em ajudar a transformar o que é só uma ideia em algo concreto.

Ariane Abdallah
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É difícil, para empreendedores, entender e respeitar que as coisas nem sempre (quase nunca) acontecem em seu tempo

No ginásio eu tinha um professor de matemática que, diante da ansiedade para entender algo tão distante da minha compreensão natural, me dizia: “Ariane, a paciência é uma virtude”. E eu respondia: “Uma virtude que eu não tenho”, em voz alta ou em pensamento, achando graça. 

É difícil para uma empreendedora ou empreendedor entender e respeitar que as coisas nem sempre (quase nunca) acontecem em seu tempo. Nos acostumamos a fazer, resolver, experimentar. Sem paciência, esses verbos podem se tornar sinônimo de atropelar o desejo ou ritmo dos outros e causar problemas. Ainda mais quando se trata do mundo corporativo, que tem seu código de relacionamento próprio e muitas vezes valoriza mais planejamentos e alinhamentos do que a realização, a conclusão de um projeto.

PPTs e cálculos à parte, meu prazer está em ver acontecer. Em ajudar a transformar o que é só uma ideia em algo concreto. Claro que prever cenários e fazer contas antecipadamente é fundamental. Mas é tênue o limite entre manter os pés no chão e se perder em conjecturas que só afastam sonhos da realidade. Sou a favor dos projetos pilotos no estilo Waze – calcule o mínimo necessário e teste na prática, ajustando a rota enquanto a percorre.

Os inúmeros problemas que aparecem todo dia, aprendo, cada vez mais, a encarar como parte do processo, e não empecilhos. A vida não acontece apesar deles – eles são a vida. E quanto mais rápido a gente entende isso, menos os problemas incomodam. Imprevistos são previstos. Afine a expectativa (ou, se conseguir, elimine-a) e vá em frente. Sem sofrer demais quando tudo parecer dar errado, mas também sem euforia quando, estranha ou finalmente, tudo der certo.

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Até hoje não compreendi completamente a dinâmica corporativa – e não pretendo. Tenho aprendido a ler cenários e relações, a transitar por esse ambiente e a respeitar as diferenças. Mas com muito cuidado para que minha equipe e eu não adotemos exatamente os mesmos padrões que vejo do outro lado. O motivo é simples: não é da minha natureza (portanto, também não da empresa que criei) e dissolveria o valor que hoje podemos agregar às empresas com as quais trabalhamos. Nosso olhar é externo, isento, independente. Contar com esse olhar como aliado quando se está no meio do furacão é valioso.

O nosso lugar, porém, não é exatamente confortável em um mundo que ensina, desde cedo, que acertar é bom e errar é ruim, que devemos buscar o reconhecimento constantemente e que problemas são obstáculos a serem superados para, no fim (fim do que?), tudo dar certo. Desde que era repórter em redação, tenho me dedicado a desconstruir esse modelo mental – e aqui vão os principais aspectos com os quais me deparei nessa jornada.

  1. Quanto menos se paralisar pelo medo de errar, antes vai acertar. 

Quando cheguei para trabalhar em uma revista de negócios, depois de quase uma década cobrindo comportamento, tive de ter paciência. Para aprender o assunto, para entender o que era pauta e para não me deixar levar por cada conversa só porque ainda não conhecia a notícia velha que alguém me contava como se fosse nova.

Depois da primeira reunião de pauta, alguns colegas de redação vieram me consolar – de tão longe que minhas ideias passaram do crivo do editor. Tinha um tom de “não desista”, mas eu estava em paz. Levei todas as possíveis pautas que, na minha consciente ignorância, fui capaz de pensar. Arrisquei rápido e, por mais desconfortável que fosse levar tantos feedbacks negativos de uma vez, o objetivo havia sido alcançado: estava mais perto de entender o que não cabia ali. Se ficasse preocupada em acertar, se preferisse silenciar a falar alguma besteira, eu sairia talvez melhor naquela primeira foto, mas demoraria mais para pegar o jeito e fazer um bom trabalho.

  1. Faça o seu melhor e não espere o resultado.

Alguns dos possíveis efeitos colaterais da criatividade são um monte de ideias ruins (antes de chegar a uma boa) e a geração de confusão ao redor. Afinal, uma ideia nova é uma ideia nova. Logo, não existe protocolo para implementá-la. Ideias novas precisam ser empreendidas. E empreender é confuso, bagunçado, aprende-se enquanto se faz. Por isso, muita gente torce o nariz diante de invenções. Se você já fez uma obra em casa ou no trabalho, sabe do que estou falando. Nenhuma construção acontece sem quebradeira, sujeira e muitos imprevistos pelo caminho. Mas, quando concluída, parece milagre operado por humanos.

Como repórter de revista e hoje, à frente do Atelier de Conteúdo, costumo ser chamada para empreender ideias novas, então me acostumei a esse lugar ligeiramente desencaixado, com a missão de colocar novidades de pé e ajudar a amarrar as pontas para que elas ganhem estrutura e vida longa.

  1. Pessoas criativas e fazedoras trabalham, mas também dão trabalho. Quantas vezes vi as pessoas ao redor incomodadas porque minhas ideias criavam mais trabalho para todos os envolvidos. O fato é que, quando você não parte do próprio conforto para decidir o que fazer, muitas vezes gera tumulto nas agendas, exige senso de urgência, convida os que discordam a se posicionarem claramente. O foco está no que é o certo a se fazer – e não no que vai dar menos trabalho ou bagunçar menos o que já estava encaminhado. Se for o caso, desencaminha – por que não? 

O mais irônico é que, para fazer acontecer o mais rápido possível, é preciso ter calma. Começar pequeno para não matar o sonho grande de saída. Aceitar as derrotas e frustrações que fazem parte do processo. 

Vira e mexe, lembro da frase do meu professor do ginásio. Agora, eu a repito para mim mesma, determinada a desenvolver a virtude, que, finalmente entendi, torna a vida adulta muito mais leve e divertida.

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