Qual é o novo papel da liderança no trabalho híbrido?

O profissional à frente de equipes em ambientes virtuais terá que saber ouvir e respeitar o tempo de cada um .

Fabiana Corrêa
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Capacidade de estabelecer uma comunicação eficiente e empática com a equipe será ponto crítico

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Em abril do ano passado, Alexandre de Castro assumiu como diretor comercial em uma das divisões da indústria química Unipar, em São Paulo. Sem conhecer ninguém da nova equipe, alguns trabalhando em filiais fora do país, precisou adaptar-se não só às novas responsabilidades, como em qualquer novo cargo, mas também ao modus operandi possível na época, em que os funcionários do escritório estavam todos em regime de home office. “Meu processo de integração foi todo virtual, eram pessoas que eu nunca havia encontrado pessoalmente, então precisamos investir mais tempo em uma comunicação eficiente e gerar uma troca mais rica.”

O que a preocupação de Castro está mostrando é que há um novo papel a ser desempenhado pelas lideranças em tempos de home office e trabalho híbrido. Sem outros colegas, líderes ou pares, circulando pelo corredor ou conversando em torno de bebedouro, profissionais ficarão mais seguros espelhando-se em alguém que ajude a estabelecer as novas regras de comportamento, trabalhe para criar conexões (inclusive aquelas que perdemos com pessoas de outros departamentos ou  clientes) e dê o exemplo com seu novo papel. “As lideranças vão precisar conectar-se mais com a pessoa do que com o profissional e ouvir muito para entender como as relações e as expectativas mudaram nesse período”, diz Beatriz Sairafi, diretora executiva de Recursos Humanos da consultoria Accenture.

Mais do que nunca, o líder será um exemplo para que as pessoas saibam como se comportar, que atitudes tomar nesse novo ambiente. “Se o regime for híbrido, ele não pode ir todo dia ao escritório. Se ele liga a câmera, como ele gerencia o tempo dele e dos outros, se ele manda mensagem fora do horário. Tudo isso será uma bússola”, prevê Beatriz. Ficar atento para não ultrapassar barreiras ou derrubar, de uma vez, conquistas que as equipes ganharam com o trabalho em home office é outro cuidado. E isso vai de flexibilidade de tempo a autonomia para trabalhar.

O poder do cafezinho

Desde que chegou no Boticário, em agosto de 2020, a gerente de marketing Fernanda Perillo Faria trabalhou para reduzir as distâncias entre ela e os quatro profissionais de sua equipe, alguns deles morando fora da cidade. No final do ano, ela descobriu que sua área não voltaria a trabalhar presencialmente, ainda que a equipe possa agendar horários para usar o escritório. “Eu nunca imaginei que o cafezinho tivesse um papel integrador tão forte, então agendamos nosso café virtual, dentro do horário de expediente, para falar sobre qualquer assunto, desabafar, trocar experiências de vida”, diz. O evento não é obrigatório, mas tem ajudado o grupo a se entender melhor para além das questões profissionais, essencial em um momento que é delicado para tantas famílias. “As habilidades do futuro aparecem como uma necessidade urgente para as lideranças, que hoje precisam enxergar as vulnerabilidades das pessoas. O lado bom: essas habilidades não têm nada de inatas e podem ser desenvolvidas”, diz Mariana Achutti, fundadora da escola corporativa Sputnik.

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Em boa parte das equipes, a produtividade não decaiu com o trabalho remoto. Como bônus do home office, os profissionais reconhecem que ganharam produtividade e desenvolveram autonomia. Uma pesquisa feita pela Fundação Dom Cabral mostrou que 58% dos 1000 entrevistados sentiram que estão mais produtivos trabalhando de casa. “Não perdemos tempo com deslocamentos, as reuniões começam exatamente no horário, são mais objetivas. E há o bônus da convivência com a família, que para mim foi maravilhoso”, diz Alexandre. Como alguém que demorou mais de um ano para ter o primeiro contato físico com a equipe ou mesmo com as dependências da empresa, o executivo vê que o home office, porém, nem sempre traz vantagens. “Vamos ter que decidir o que será mantido do regime remoto e remodelar o que se perdeu. Cultura, por exemplo, depende de proximidade e convivência”, diz ele, que começou recentemente a ir ao escritório algumas vezes na semana e procura incluir conversas informais, ainda que on line, com a equipe na agenda. “É importante mostrar real interesse em conhecer as pessoas, a forma como elas trabalham e o que elas estão passando neste momento”, diz Paulo Campos, sócio da BrandOn, startup de apoio a lideranças e professor do MBA Executivo da ESPM e Insper.

Veja aqui algumas das novas necessidades do trabalho híbrido que as lideranças devem ficar atentas:

Reforço na comunicação

Com a distância ou o trabalho híbrido, coisas que pareciam óbvias quando estavam todos no mesmo ambiente não são mais. É necessário reestabelecer acordos e conexões que se enfraqueceram com conversas mais frequentes e objetivas.  

Conversa de corredor

Como não há mais os encontros fortuitos no bebedouro, pense em criar momentos de conversas descontraídas dentro do horário de expediente. Mas atenção: a participação não pode ser obrigatória ou a espontaneidade acaba. “A construção de confiança depende muito da disponibilidade para se relacionar – não só falando das metas de trabalho, mas se interessando em conhecer as pessoas”, diz Paulo Campos.

Novas rotinas

As pessoas criaram novas rotinas e alguns não querem abrir mão de buscar os filhos na escola, por exemplo. Veja o que é possível, negocie com a equipe como será a divisão de tempo e respeite os combinados. “Tem uma coisa que o líder precisa saber: não iremos voltar exatamente ao que vivíamos antes. Tudo terá que ser recombinado”, diz a Beatriz Sairafi.

O melhor dos dois mundos

A produtividade do home office e a conexão do escritório podem ser vividos no trabalho híbrido. Saber reconhecer, e aproveitar, o melhor de cada um é essencial nos novos tempos. “Ganhamos autonomia, podemos contratar talentos em qualquer lugar, perdemos um pouco da comunicação não-verbal. Mas há caminhos para o equilíbrio”, diz Fernanda Faria.

 


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