Como a neurociência está trazendo inovação ao mundo corporativo

As tecnologias utilizadas pela neurociência ajudam a criar ambientes seguros e melhoram as relações entre lideranças e equipes.

Martina Colafemina
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Leandro Mattos é cofundador da CogniSigns, health tech de neurociência, e professor da SingularityU

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A tecnologia neurocientífica começa a ser usada no mercado de trabalho para aumentar o engajamento e alimentar o propósito entre as equipes. Essa é uma das frentes de atuação  da health tech de neurociência CogniSigns, sediada nos Emirados Árabes e liderada pelo brasileiro Leandro Mattos, cofundador da startup. “Nós usamos a tecnologia para gerar impacto social. Quando você entende o porquê do que você faz, você respeita e compra essa ideia”, diz Mattos, que é um dos professores do curso Leading the Future, uma parceria entre a Forbes e SingularityU, que começa no próximo dia 7 de março (inscrições aqui). 

Além do impacto no mundo corporativo, Mattos aborda a importância do tema na educação e na sociedade, que podem ganhar com as descobertas neurocientífcas. Nessa entrevista, ele conta um pouco mais sobre a interação entre laboratórios de pesquisa, novas tecnologias e lideranças nas empresas.

Forbes: Quais as principais tecnologias que a neurociência dispõe que se aplicam ao mercado de trabalho?

Leandro Mattos: O avanço do conhecimento sobre o sistema nervoso, aliado às convergências tecnológicas e às novas demandas humanas estão gerando soluções que estão mudando a forma como interagimos com as máquinas e conosco. Aplicações práticas em neurociências atualmente rompem limitações humanas e alimentam a esperança de pessoas com patologias, deficiências e condições neuroatípicas, mas também abrem possibilidades para ampliar capacidades motoras e cognitivas em pessoas saudáveis. Mas nem só de desenvolvimento de tecnologia e inovação vivem as neurociências. Elas também avançam em investigações sobre como motivações coletivas em torno de uma causa em comum funcionam, podem alimentar propósitos e fazer com que transpor o impossível possa ser uma questão de conhecimento, gestão e união. As tecnologias de neuroimagem como a ressonância magnética funcional, aliadas à eletroencefalografia, ao rastreamento ocular, à análise de atividade cardíaca e à atividade eletrodérmica, além de eletromiografia facial e reconhecimento facial para expressões relacionadas às emoções, estão apoiando não só pesquisas na área de comportamento humano, mas também servindo como base para a geração de insights, metodologias e aprimoramento da gestão de pessoas, marketing e vendas, possibilitando que gestores tomem melhores decisões, baseadas em dados. Na CogniSigns, criamos ferramentas baseadas em chatbots, inteligência artificial e ciência de dados para transformar computadores comuns, tablets ou smartphones em dispositivos capazes de realizar triagem digital automatizada para superdotação, transtornos do espectro autista e depressão. Estamos ampliando a capacidade da tecnologia para também identificar indicadores comportamentais de doença de Parkinson e doenças do coração.

F: Vocês lidam com pessoas consideradas neuroatípicas. Como é possível criar um ambiente seguro nas empresas para pessoas que estão fora da curva no que diz respeito ao funcionamento do cérebro?

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LM: Temos ótimos colaboradores dentro do espectro. Se não soubéssemos o que é autismo, talvez nós teríamos encontrado dificuldades em nossos relacionamentos, mas os entendemos e temos consciência sobre como devemos conduzir nossos diálogos para que cada um possa desenvolver seu potencial, dentro de suas próprias características. Isso é inclusão. No caso de superdotados, que possuem predisposições para apresentarem talento, criatividade e foco acima da média, pode haver dificuldade com lideranças que não os compreendem. Um líder superdotado também pode ter dificuldade em lidar com seus liderados ao exigir alta performance e não perceber que é ele o ponto fora da curva. Várias ferramentas de gestão podem ser aprimoradas por conhecimentos vindos das neurociências, como códigos de ética e de conduta, comunicação clara das metas e resultados, avaliação transparente dos colaboradores, comunicação não violenta, sensibilização e inclusão da pluralidade neurodiversa e étnico-racial, práticas de liderança, entre outras, para proporcionar que talentos sejam empoderados em ambientes seguros e produtivos para todos.

F: O projeto que motivou o início da CogniSigns tem a ver com o autismo. Como foi esse começo?

LM: Existem protocolos e ferramentas como rastreamento ocular, que os norte-americanos utilizam em universidades para identificar o autismo e que nós queríamos levar para o Brasil para ajudar a causa, porém ela é cara e inacessível para a maioria da população. Nós dominávamos essa tecnologia, mas a utilizávamos para a aplicação em áreas mercadológicas como vendas, marketing e gestão. Foi aí que eu e a Andressa [Roveda, cofundadora da CogniSigns] decidimos adaptar o protocolo e as ferramentas e aplicar uma metodologia da SingularityU conhecida por 6Ds, em que, em resumo, tecnologias são digitalizadas para serem democratizadas. Dessa forma nasceu a CogniSigns.

F: Como funcionam os produtos que criaram para quem está fora da curva de aprendizagem?

LM: Criamos um chatbot inteligente chamado Eugênio que ajuda a identificar sinais indicadores de superdotação. Com ele e com a V.E.R.A, chatbot voltado para identificar sinais indicadores de TEA e saúde mental, fomos acelerados pelos principais programas de startup do Brasil como o MIDITEC, o Artemísia Lab Saúde, o Accelerate 2030 Brazil, o Samsung Creative Startups, o Inovativa de Impacto, o StartOut Brasil, além de internacionais como TIE Dubai e Mohammed Bin Rashid Fund (MBRIF). Em 2020 vencemos o programa Technology Innovation Pioneers (TIP) nos Emirados Árabes e fomos apontados como uma das cinco startups de saúde mais promissoras do mundo. Também vencemos o Open Finance Awards, prêmio do Banco Central para startups, como melhor solução ESG. O Eugênio é um chatbot que ajuda a identificar possíveis indicadores comportamentais de superdotação com base nas múltiplas inteligências: lógico-matemática, linguística, musical, espacial, naturalista, interpessoal, intrapessoal e cinestésica-corporal. Quando crianças são identificadas de maneira precoce e devidamente aprimoradas em suas habilidades, evoluímos todo o coletivo que os cercam. Ao identificarmos adolescentes, poderemos direcionar melhor a escolha vocacional, apoiando, por exemplo, programas como o Jovem Aprendiz ou de trainees. Quando a identificação é direcionada a adultos, essa poderá ser a chave que apoie a gestão que líderes e empresas tanto almejam, alocando as pessoas em suas áreas de maior interesse e sinergia em busca de melhores resultados. O que fazemos é identificar as predisposições e, em seguida, trabalhar a inclusão dessas pessoas. A CogniSigns comercializa o licenciamos dos softwares V.E.R.A e Eugênio a profissionais de saúde e educação, que capacitamos em nossa metodologia e no uso da ferramenta.

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