Epidemia de solidão reduz expectativa e qualidade de vida

Pesquisas empíricas indicam que o risco de morte causado pela falta de socialização é comparável ao do tabagismo.

Jurandir Sell Macedo Jr
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Mint Images/Getty
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Sites oferecem aluguel de amigos para pessoas que se sentem sozinhas

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No estudo “Relações sociais e riscos de mortalidade”, os pesquisadores Julianne Holt-Lunstad, Timothy B. Smith e J. Bradley Layton revisaram 148 estudos que envolveram 308 mil participantes acompanhados por uma média de 7,5 anos para entender o impacto da socialização na saúde física das pessoas. Na revisão dos estudos, as pessoas com relacionamentos sociais mais fortes tiveram uma probabilidade 50% maior de sobrevivência do que aquelas com relacionamentos sociais mais fracos. 

Em 1978, um grupo de pesquisadores da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) desenvolveu um questionário quantitativo para medir sentimentos subjetivos de solidão. Desde então, fartos dados de pesquisas empíricas vêm indicando que o risco de morte causado pela falta de socialização é comparável ao do tabagismo e do consumo de álcool, além de exceder a influência de outros fatores de risco.

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Hoje, as principais organizações de saúde e o público em geral reconhecem como fator de risco à longevidade a obesidade, o alcoolismo, a hipertensão e o colesterol elevado. Por muito tempo, porém, as relações sociais foram vistas como uma variável difusa, sem o nível de precisão e controle exigido nas pesquisas biomédicas. Apesar dos estudos existentes, parece que essa herança ainda nos ronda, afinal, não temos sido habilidosos em cultivar bons hábitos sociais.

Em fevereiro de 2021, a economista inglesa Noreena Hertz lançou o livro “O século da solidão – restabelecer conexões em um mundo fragmentado”, um trabalho muito bem fundamentado que demonstra causas da epidemia de solidão que afeta o mundo e foi agravada ainda mais pelos isolamentos resultantes da Covid-19. Para a autora, este é o século da solidão desde muito antes das mudanças provocadas pelo coronavírus.

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Antes da pandemia, 60% dos americanos e 50% dos brasileiros se consideravam solitários. Surpreendentemente, mesmo entre os jovens, a epidemia de solidão é uma realidade. Não é preciso um estudo profundo para constatar: crianças, adultos e idosos estão solitários com os celulares nas mãos. Para além de qualquer discussão sobre vício em tecnologia, o que vemos é a deterioração de nossa capacidade de interagir e nos conectar pela via do afeto.

Isso não é mais um problema individual: parece que estamos perdendo a capacidade fundamental de criar vínculos sociais. E a tecnologia que pode e deve ser nossa aliada é, mais uma vez, apontada como vilã, quando somos nós os protagonistas de nossas escolhas.

Lembro que há alguns anos eu li uma reportagem sobre a solidão no Japão, onde um número surpreendentemente elevado de idosos comete delitos leves apenas para ser preso. Eles escolhem a prisão porque lá conseguem ter um sentimento de pertencimento e coletividade que não experimentam fora dela. É estranho, mas a solidão pode ser uma prisão mais terrível do que a limitação de ir e vir. 

Na mesma reportagem sobre o Japão, vi que existia uma agência especializada em “aluguel” de parentes e amigos. Tudo aquilo me parecia uma excentricidade de uma cultura estranha, porém, no livro de Noreena, não só reencontrei essas informações como também descobri que existe um site ocidental de aluguel de amigos. Entrei no site e vi que é possível alugar amigos em todas as grandes cidades brasileiras. 

Eu fiquei realmente curioso e decidi me aprofundar um pouco mais. Fiz meu cadastro e comecei a tentar entrevistar alguns amigos de aluguel, até que uma mulher de São Paulo aceitou conversar comigo via Skype. Ela é uma mulher elegante que aparenta 50 anos, bastante culta e educada. Contou que conheceu a plataforma de conexão como cliente quando morava em Nova York, cidade onde foi morar para acompanhar o marido, um executivo do setor financeiro. Como teve dificuldades de socialização, e como o marido trabalhava muito, resolveu pagar e ter uma companhia para poder conversar.

O casamento acabou e ela retornou ao Brasil, onde tem família e muitos amigos. Porém, ela teve alguma dificuldade para se recolocar no mercado como arquiteta e então resolveu trocar de lado, e ela mesma se tornou uma amiga de aluguel.

Perguntei sobre o perfil de seus clientes, e ela me disse que é bem variado, tem mulheres que lhe procuram para acompanhar nas compras, restaurantes e bares, muitas delas são estrangeiras que vieram morar em São Paulo. Também existem executivos que buscam uma companhia para recepções sociais, além de turistas em visita a São Paulo – nesses casos, o trabalho da amiga de aluguel mais se parece com o de um guia turístico sofisticado. Algumas vezes ela é contratada por empresas que lhe pagam para acompanhar seus clientes ou cônjuges de clientes. Por falar em pagamento, ela cobra R$ 200,00 a hora de trabalho.

Saí da entrevista com sentimentos confusos. Confesso que diminuiu muito meu estranhamento pela atividade de amigos de aluguel, agora o trabalho me parece muito mais normal do que quando li a reportagem sobre esse serviço no Japão. Por outro lado, já faz muito tempo que afirmo em palestras e artigos que ter amigos e ter família custa muito caro. Não caro em dinheiro, mas caro em tempo, em dedicação e interesse pelo outro.

Acredito que conexões verdadeiras precisam de dedicação mútua. Precisamos ser proativos para ter amigos de verdade, precisamos de dedicação verdadeira para estabelecer conexões com nossa família, e essa dedicação precisa ser cada vez maior à medida que a idade avança.

As redes sociais podem até ajudar, mas jamais vão substituir um abraço, uma conversa, os cuidados com o outro em um momento de fragilidade ou a parceria em um momento de alegria.

Estamos chegando perto das festas de final de ano. Não conheço nada mais desagregador do que uma reunião de família e amigos em que cada um fica em seus celulares trocando mensagens com quem está distante. Que tal estabelecer um tempo prévio para as comunicações mediadas pela tecnologia e depois mergulhar de corpo e mente nas relações presenciais?

Com este artigo, finalizo meu segundo ano aqui na Forbes. Assim, gostaria de desejar para você e seus familiares um Feliz Natal e um novo ano cheio de alegrias, saúde, realizações e muitos amigos e amigas de verdade. Nos lemos no ano que vem!

 

Jurandir Sell Macedo Jr é doutor em finanças comportamentais, professor universitário e, desde 2003, ministra na Universidade Federal de Santa Catarina a primeira disciplina de finanças pessoais do Brasil. É autor de inúmeros livros sobre educação financeira e tem pós-doutorado em psicologia cognitiva pela Université Libre de Bruxelles. Escreve sobre Finanças 50+ quinzenalmente, às quintas-feiras. Instagram: @jurandirsell. E-mail: [email protected]

Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.

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