Censura – modo de usar

Reprodução
Daniela Mercury e Caetano Veloso, no clipe “Proibido o Carnaval”

Carnaval sem polêmica falsa não é Carnaval. Pelo menos nesta era de ouro das redes antissociais. E a grande tara do militante fantasiado de folião nos dias de hoje é fingir que estão querendo proibir a alegria dele – como se ele tivesse uma.

Depois de todas as suas coreografias nos últimos três anos para denunciar a volta do Brasil aos anos de chumbo – teve até passeata por diretas já – Caetano Veloso se juntou a Daniela Mercury para cantar que o Carnaval está proibido. O obscurantismo teima em não dar as caras no país, que vive uma liberdade absoluta onde todo mundo fala o que der na telha, mas eles não têm nada com isso. Se o fascismo não vai ao rebelde, o rebelde vai ao fascismo.

E lá vai o samba engajado no éter (não o que dá barato), pregando a rebeldia contra sua própria sombra e protestando contra a censura. Disso eles entendem. Daniela mandou Anitta calar a boca quando ela pediu que respeitassem seu direito de não fazer política na eleição. Ou melhor: Daniela mandou Anitta abrir a boca e fazer política – segundo a receita da corte que a protege, claro.

Anitta não precisa de panela corporativa para viver, mas obedeceu, que não é boba. Ela sabe que a brigada da democracia de auditório prende e arrebenta. Ninguém bate mais em ninguém, claro – só te bota na lista negra da corte, e aí o bicho pega.

Com o mesmo amor pela liberdade de expressão, Caetano Veloso criou um movimento para embargar biografias não-autorizadas. Está no Manual do Covarde: é proibido proibir, desde que não estejam atrapalhando meus negócios e minha lenda. Ele também exerceu o espírito libertário incitando black blocs a descer o cacete em todo mundo (sendo a imprensa um dos alvos prediletos dessa diplomacia sanguinária) e, naturalmente, mantendo até o fim o seu apoio ao governo que submeteu a democracia ao maior assalto da história.

Mas foi uma graça vê-lo cantando com Daniela que o rosa e o azul estão liberados no Carnaval para quem quiser vesti-los. Alegoria é tudo.

Já a atriz Maria Casadevall conseguiu a proeza de encaretar o topless – protestando num bloco carnavalesco contra o obscurantismo que insiste em não mandá-la se vestir. Depois pediu desculpas às mulheres por mostrar os seios sendo branca e famosa…

É isso aí: a censura é sua e você usa como quiser.

 

 

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