2018 foi o ano das mulheres na ciência?

Elas são apenas 2,8% do total de vencedores do Prêmio Nobel de Física.

Melanie Fine
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Donna Strickland recebeu o Prêmio Nobel de Física de 2018 por seu trabalho em amplificação de pulso com chilro (CPA)

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Ao tentar dissuadir o jovem Max Planck de dedicar-se à física, Philipp von Jolly disparou: “Quase tudo já foi descoberto, e o que resta é preencher alguns buracos sem importância”. Felizmente, o alemão, que mais tarde tornou-se o pai da física quântica, ignorou o conselho.

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A tentativa de enquadrar qualquer ano como o das mulheres na ciência parece incorporar a mesma arrogância e é, com alguma esperança, igualmente prematura. Afinal, parece que 1918 foi um ano realmente importante para elas nesse quesito, ou, pelo menos, para uma personalidade em específico. Foi quando a física Lise Meitner e seu parceiro de pesquisa Otto Hahn descobriram um novo elemento, o protactínio (Pa). Originalmente chamado de proto-actínio porque se decompõe em actínio, é encontrado em pequenas quantidades (três partes por milhão) em minério de urânio.

Mas, analisando bem, talvez 1898 também possa receber a classificação de “o” ano das mulheres na ciência, quando Marie Curie descobriu não apenas um, mas dois elementos: o polônio (Po) e o rádio (Ra).

Tanto Lise Meitner quanto Marie Curie tiveram elementos batizados em referência aos seus nomes, meitnerium e curium respectivamente – embora nenhum deles tenha sido descoberto por elas. Na verdade, elas são as únicas mulheres entre os 14 cientistas que receberam essa honra.

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Marie Curie recebeu dois prêmios Nobel, um em química e outro em física. Na verdade, a cientista permanece até hoje a única pessoa a receber um prêmio Nobel em ambas as categorias. Lise Meitner recebeu notáveis ​​48 indicações, mas nunca foi premiada.

Desde a sua criação em 1901, o Prêmio Nobel de Química foi concedido a 180 pessoas, sendo que cinco delas – ou 2,8% – são mulheres. O Prêmio Nobel de Física foi concedido a 210 pessoas, três – ou 1,4% – do gênero feminino. Essas porcentagens aumentaram drasticamente este ano quando o comitê do Prêmio Nobel anunciou que duas mulheres foram contempladas com a premiação, uma em química e física. Então, talvez, afinal, 2018 tenha sido realmente o ano das mulheres na ciência.

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Donna Strickland recebeu o Prêmio Nobel de Física de 2018 por seu trabalho em amplificação de pulso com chilro (CPA), método que ela e seu orientador de doutorado, Gerard Mourou, desenvolveram para fornecer pulsos curtos a laser de alta intensidade. O projeto de Donna e Mourou abriu a porta para o uso de lasers em procedimentos médicos, como cirurgia ocular e terapias de prótons para tratar tumores de tecidos profundos. Além disso, o CPA é usado em vários processos de fabricação, como o corte da tampa de vidro para smartphones. E, em pesquisa, a amplificação do pulso é usada para “gerar grandes quantidades de partículas carregadas e luz para aquecer a matéria para as condições interiores estelares”, segundo o professor Gilbert (Rip) Collins, do programa de física de densidade de alta energia da Universidade de Rochester. Donna é a terceira mulher na história a receber o Prêmio Nobel de Física e a primeira em 55 anos. A segunda, Maria Goeppert-Mayer, foi condecorada em 1963.

Frances Arnold, professora de engenharia química da Caltech, recebeu o Prêmio Nobel de química de 2018 por seu trabalho em engenharia genética de enzimas usadas para produzir biocombustíveis, medicamentos e até mesmo detergentes para roupa. Inicialmente incapaz de fabricar novas enzimas do zero a partir de seus blocos de aminoácidos, Frances então se apoiou nas capacidades reprodutivas da própria natureza e injetou em bactérias os genes que codificam as enzimas que ela queria. Ao repetir o processo com códigos aleatoriamente modificados, ela foi capaz de produzir a melhor versão da enzima, direcionando e acelerando o processo lento da evolução. Frances muitas vezes foi alvo de piadas e acusada de não fazer ciência real. Mas, com o Prêmio Nobel de 2018 para adicionar à sua vasta lista de premiações e honrarias, Frances certamente riu por último.

A Academia Real das Ciências da Suécia, órgão de votação dos prêmios Nobel de Fisiologia e Medicina, Química e Física, concedeu apenas 3% de seus prêmios Nobel de ciência às mulheres, historicamente negligenciando grandes merecedores.

Na verdade, é mais provável que uma mulher tenha um elemento com o nome dela do que ganhe um prêmio Nobel. Como já citado, dos 14 elementos nomeados em referência a cientistas, dois – ou 14% – são são relativos a mulheres.

Mas a quantidade de representantes do gênero feminino em campos científicos vem crescendo a cada ano – há mais mulheres do que homens matriculadas nos EUA em bacharelados relacionados à ciência e programas de pós-graduação. E podemos esperar que esses números aumentem em um futuro próximo.

Ao discursar em uma coletiva de imprensa no Caltech, a Dr. France previu que, “desde que encorajemos todos aqueles que querem fazer ciência, não importando a cor e o gênero, veremos Prêmios Nobel vindos dos mais diferentes grupos e as mulheres serão muito bem-sucedidas”.

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