A catedral e o banho de loja

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Os franceses ainda não sabem as causas do incêndio que destruiu a Catedral de Notre-Dame, mas já há pistas de que a tragédia vai continuar – na fogueira das imposturas contemporâneas. O governo Macron lançou um concurso para arquitetos redesenharem um dos maiores símbolos góticos do mundo – ficará “ainda mais bonita!”, disse o presidente – e anunciou que o plano de reconstrução refletirá a moderna e diversificada nação francesa da atualidade.

A França e boa parte da Europa estão queimando nas chamas da demagogia politicamente correta e do populismo migratório – que está ferrando democraticamente nativos e imigrantes. A moda é fingir que o mundo inteiro pode morar em Paris, qual é o problema? Quem discorda disso não tem coração, é xenófobo e sócio da muralha do Trump.

Paris está pegando fogo nessa contemporaneidade arcaica que opõe velhos sindicalistas pendurados no Estado ao contingente de imigrantes não absorvidos devidamente pelo mercado e pela cultura – numa batalha obscura entre o passado morto-vivo e o futuro fantasioso, que as autoridades fingem poder conciliar para manter sua cosmética humanitária.

Paris ficará ainda mais humana, Notre-Dame ficará ainda mais bonita, quem sabe não aproveitamos para dar um upgrade na Monalisa, que está entediada ali no Louvre e também merece refletir a diversidade. E como ninguém segura essa onda criativa, por que não pensar globalmente e dar logo uma quebrada naqueles faraós autoritários e caretas, fazendo um concurso de design para modernizar as pirâmides do Egito? Pra começar, são silenciosas demais, o que simboliza evidentemente as minorias caladas e oprimidas da antiguidade. Um DJ resolve em um segundo esse anacronismo.

O mundo é dos espertos e algum vendedor muito malandro teve a ideia matadora de dizer que qualquer canoa à deriva no Mar Mediterrâneo é culpa do imperialismo europeu. Daí para a conexão com os parasitas de Nova York que vivem da resistência subsidiada ao Grande Satã foi um pulo. E assim vai se dando a transfusão antropológica do planeta, com a riqueza cultural sendo substituída por essa feira de bijuterias salvacionistas, ostentadas pelos emergentes da impostura em meio às chamas da civilização.

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