Sociologia de playground

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Estão perguntando por aí se o nazismo é de direita ou de esquerda. A resposta é simples: o nazismo é do Hitler e a dicotomia direita x esquerda é dos lunáticos.

Ou não só dos lunáticos. Boa parte dos adeptos tem os pés até bem fincados na Terra. Ou seria na terra? (Mais uma polêmica edificante para vocês). Os não-lunáticos que cultivam essa dicotomia estão divididos em dois grupos: os pastéis de vento, que precisam de um invólucro para a sua falta de recheio, e os pastéis de carne (fraca), que precisam disso para viver – ou não precisam, mas vivem disso.

O Plano Real era a apoteose do neoliberalismo – palavrão inventado para designar, nos anos 90, a nova encarnação do elitismo de direita. Aí o Plano gerou a maior distribuição de renda da história contemporânea do país (com o fim da correção monetária que ferrava os mais pobres) e reduziu a chamada injustiça social – que, segundo os manuais, é uma preocupação da esquerda.

Entendeu? Quem vive pendurado na dicotomia burra, tentando enfiar o mundo numa briga de comadres entre “direitistas” e “esquerdistas”, acaba tendo de explicar como o elitismo faz bem ao povão. Contando ninguém acredita.

A privatização também era um palavrão de direita. Na quebra do monopólio estatal da telefonia correu sangue (sem licença poética), a partir da reação furiosa de sindicalistas – que representavam a esquerda em defesa do povo. O sistema foi privatizado e, de novo, beneficiou a massa dos menos favorecidos. Vai lá num orelhão dos anos 80 ver se já caiu a ficha na cabeça dos binários.

O comunismo prometeu igualar a humanidade e o nazismo prometeu purificá-la – mensagens diferentes para chegar a totalitarismos igualmente boçais. Perguntem às vítimas se o tapa foi na orelha esquerda ou na direita.

Casamento é de direita, gay é de esquerda e casamento gay é o quê? De centro? Os hippies achavam a direita e a esquerda caretas, enquanto o politicamente correto usou a defesa das liberdades para instaurar o moralismo mais atroz. Existe progressista reacionário? Não precisa responder – basta olhar para o lado (direito ou esquerdo, tanto faz).

Os dois hemisférios imaginários da fanfarra ideológica podem ter de tudo (faça você mesmo a simulação): economia aberta, economia fechada, liberdade, censura, democracia, ditadura, discriminação, tolerância, regime pacífico, regime beligerante etc. Enquanto o playground se distraía com a pantomima direita x esquerda, Delfim Netto e Lula curtiam sua lua de mel. Sem preconceito.

 

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