O tabu de Tiffany

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Tiffany desceu o braço e tirou Bernardinho do caminho. O maior campeão do vôlei nacional, lenda do esporte e praticamente sinônimo dele, é conhecido por sua garra à beira da quadra – na qual parece que vai entrar a qualquer momento quando seu time está perdendo. Um viciado em vitórias. Dessa vez, porém, Bernardinho apanhou calado.

Ou quase. Na partida da Superliga feminina que desclassificou precocemente o time treinado por ele – após uma hegemonia de mais de década –, as câmeras pegaram o lendário técnico lamentando os recursos masculinos da jogadora Tiffany, a transexual que é o destaque do campeonato e foi a maior pontuadora na eliminação da sua equipe.

Aí o mundo desabou na cabeça de Bernardinho: transfóbico, preconceituoso, fascista etc. O que fez ele então? Rompeu o silêncio, veio a público e… pediu desculpas.

Impressionante. E onde foram parar a bravura e o empenho do proverbial prestígio deste ícone do vôlei mundial em favor daquilo que considera justo, como os brasileiros se acostumaram a ver nas batalhas mais duras? Sumiram. Ou, mais precisamente: foram engolidos por um tabu.

Aproveitando que, no mundo de hoje, virtude e demagogia são exatamente a mesma coisa, o esporte resolveu surfar também nesse toque de Midas. Com recomendações internacionais frouxas e retóricas, permitiu-se que cada federação aceite ou não transexuais competindo com mulheres biológicas. Algumas barraram, outras passaram a aceitar dependendo do nível momentâneo de testosterona da atleta.

Evidentemente, ninguém conseguiu provar que alguma terapia hormonal seja capaz de desfazer por completo as vantagens da estrutura corporal masculina – em alavancas que vão da ossatura e tendões à capacidade pulmonar e cardíaca. Não interessa. Você não precisa ser contra a entrada de transexuais na categoria feminina para se tornar um monstro. Basta perguntar se é justo.

Portanto, faça como o Bernardinho: cale a boca. Há uma patrulha poderosa – vamos repetir: poderosa – pronta para fulminar a reputação de quem se meter a engraçadinho e atrapalhar o conto de fadas da Tiffany.

Mais do que um sintoma, esse caso é um emblema dos tempos atuais. A verdade dançou. Perdeu, playboy. O inegável sucesso dos hipócritas, somado ao instituto da glória instantânea proporcionado pela futilidade das redes sociais – que também oferecem, em igual medida, a condenação sumária – consagrou o irresistível convite: não pense, decrete.

Veja o salto cultural: ninguém precisa mais ser propriamente um cínico, nem um picareta intelectual juramentado, para pregar falsas virtudes. Basta não pensar.

Não é maravilhoso? Você pode sair por aí dizendo que reformar a Previdência é maltratar o povo e depois dormir um sonho angelical. Sem pensamento não há drama de consciência. Ou, como diria Raul Seixas: “Preferia ser burro, pelo menos não sofria”.

Cadê as provas? Não interessa. Elas podem estar debaixo do seu nariz, que você continuará perguntando por elas com grande repercussão. O que importa é o tom de indignação, que, se bem impostado, naquele timbre entre Ciro Gomes e Odorico Paraguaçu, transforma na hora um mitômano em justiceiro.

Uma das poucas vozes a questionar a autorização para Tiffany jogar no vôlei feminino foi a da medalhista olímpica Ana Paula. Ela apontou a falta de fundamento científico para a premissa de que a transexual não leva vantagem física sobre as mulheres. Após o episódio com Bernardinho, a própria Tiffany gravou um depoimento com ataques violentos à ex-jogadora.

E o que fez o Brasil diante disso, depois de tudo que Ana Paula fez pelo país? Como reagiram os brasileiros ao ver uma atleta que fez história na quadra e na praia – modalidade que praticamente ajudou a fundar – sendo aviltada como oportunista, transfóbica e desertora por alguém que domina a categoria feminina com sua estrutura masculina?

Acertou, seu danado: o Brasil fez um silêncio ensurdecedor. E dormiu tranquilo, convicto das evidências científicas sobre as vantagens de se viver afundado no oportunismo e na covardia.

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