O capitalismo não morreu

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recuperação da economia pós-Obama veio da redução de impostos e desregulamentação de 2017

É raro passar um dia sem que alguma figura ilustre dos negócios ou das finanças declare, com a testa franzida e aparente tristeza, que o capitalismo está em crise e deve ser reformulado se quiser sobreviver e não ser substituído por alguma variante do socialismo. A desigualdade, a mudança climática, os níveis obscenos de lucros corporativos, os salários estagnados, os crescentes custos da saúde, os níveis esmagadores de dívida estudantil, a ganância desenfreada de Wall Street, os monstros da alta tecnologia: tudo isso e muito mais é atribuído a um sistema capitalista supostamente insensível e indiferente.

Não é bem assim. Ao contrário do que dizem todas essas lamúrias intelectuais, o problema são as más políticas governamentais e, pior, um equívoco fundamental a respeito dos livres mercados. Está na hora de fazermos um teste de realidade com relação a esse sistema tão difamado.

O capitalismo, a livre iniciativa, o livre mercado – seja qual for o nome que você dê ao nosso sistema – é moral porque uma pessoa obtém sucesso satisfazendo às necessidades e desejos de outras pessoas. Um empreendedor tenta discernir as necessidades que as pessoas não sabem que têm até um produto ou serviço ser lançado no mercado. Basta se lembrar de Steve Jobs, do iPhone e do iPad. As pessoas de negócios tentam persuadir você a comprar o que elas oferecem. A menos que o governo se envolva, não há coerção. Muitíssimas pessoas estão tentando encontrar maneiras de melhorar a vida de todos. Caso consigam, elas podem (ops!) ficar ricas, mas todos nós ficaremos melhor.

Cadeias de suprimentos cada vez mais sofisticadas vão surgindo, e elas funcionam exatamente porque não há nenhum czar ou planejador central no comando.

Erros governamentais – e não falhas inerentes ao livre mercado – são a raiz de todas as crises econômicas. A Grande Depressão foi causada pelo draconiano Ato Tarifário Smoot-Hawley, que impôs tarifas mais altas para milhares de itens importados, desencadeando uma guerra comercial mundial que devastou as economias. Esse despautério se agravou quando os países – Alemanha, Grã-Bretanha e EUA foram os maiores vilões – aumentaram substancialmente os impostos, a despeito da forte recessão.

A terrível inflação da década de 1970 resultou do fato de o Fed e outros bancos centrais imprimirem, repetidas vezes, dinheiro em demasia. A crise de 2008-2009 derivou da desvalorização deliberada do dólar pelos EUA, o que deflagrou uma fuga para ativos tangíveis, como moradias.

Impostos altos matam o crescimento. Os impostos são um fardo. Países que mantêm esse fardo leve se saem melhor do que aqueles que não fazem isso. Depois de recuperada da 2ª Guerra Mundial, a Europa teve taxas de crescimento comparáveis ou até maiores que as dos EUA. Porém, nos anos 1970, o peso da tributação foi ficando cada vez maior com a instituição de impostos sobre valor agregado e de alíquotas de imposto de renda mais altas. Resultado: expansão a passos de tartaruga.

Todas as vezes que os EUA promulgaram grandes cortes de impostos, sua economia floresceu. A recuperação da economia pós-Obama veio da redução de impostos e desregulamentação de 2017.

Regulamentos excessivos atrapalham. O especialista em regulamentação Philip Howard cita um exemplo típico: um pomar de maçãs no interior do estado de Nova York está sujeito a 5 mil regras de 17 programas diferentes. Os regulamentos custam aos EUA cerca de US$ 2 trilhões por ano. Em média, um fabricante paga de US$ 2 mil a US$ 4 mil em impostos anuais por trabalhador; sua carga regulamentar é de US$ 20 mil a US$ 35 mil. Não é de admirar que o setor de manufatura tenha padecido até recentemente…

O atendimento de saúde caro não é uma falha do capitalismo. Aqui, também, a solução são os livres mercados, e não mais controle governamental. Nosso sistema de saúde é de terceiros – o governo (principalmente Medicare e Medicaid), as seguradoras e os grandes empregadores –, e não dos consumidores. As receitas dos hospitais dependem de sua capacidade de negociar com terceiros, e não do grau de satisfação de seus pacientes. O valor que uma empresa farmacêutica cobra por um medicamento é muito inferior ao que aparece na conta do hospital. Grande parte do preço cobrado é usada para pagar os gestores de benefícios farmacêuticos. Descobrir de antemão quanto um procedimento poderá custar é um esforço hercúleo.

Em mercados normais, quando você tem um avanço na produtividade, é provável que os concorrentes sigam seu exemplo. Não é assim na saúde nos EUA.

O Centro de Cirurgia de Oklahoma publica todos os seus preços online. Ele dispõe de cirurgiões de altíssimo nível, suas despesas gerais são baixas pelos padrões do setor, e o custo de uma operação é uma fração do valor cobrado por hospitais e clínicas tradicionais porque os pacientes pagam adiantado em dinheiro. (Os preços sobem quando o paciente deseja que o centro entre com pedido de seguro.) Mesmo assim, ele ainda tem poucos imitadores. Por quê? Porque não há mercado consumidor. Como os terceiros pagam a maior parte da conta, a maioria dos pacientes não tem incentivo para comparar qualidade e preços, e seria difícil fazê-lo, mesmo que quisessem.

Os livres mercados reduzem a pobreza. A renda real por pessoa aumentou mais de 50 vezes desde a independência dos EUA. Antes da Revolução Industrial, a renda individual no mundo apresentava um crescimento imperceptível. Nos últimos 20 anos, 1 bilhão de pessoas saiu da pobreza extrema.

Os livres mercados transformam escassez em abundância e os produtos de luxo de hoje nos produtos comuns de amanhã. Um dos inúmeros exemplos é o telefone portátil. Lançado no início dos anos 1980, o primeiro celular – que só fazia chamadas – era do tamanho de uma caixa de sapatos, pesado como um tijolo, tinha uma bateria que durava apenas uma hora e custava US$ 3.995. Hoje existem bilhões de celulares, e a maioria tem mesma a capacidade que um supercomputador tinha algumas décadas atrás.

O mesmo fenômeno benigno de obter mais por menos aconteceria na área da saúde se certas reformas de livre mercado fossem promulgadas, como aquisição de seguro de saúde no país inteiro.

Desigualdade? Até recentemente, os salários estavam estagnados desde a crise financeira de 2008 e não tinham aumentado muito nos dez anos anteriores. Mais uma vez, o problema foram as ações equivocadas do governo.

Os investimentos são uma condição sine qua non para o progresso, e mais investimentos são realizados quando o dinheiro tem um valor estável. Até a década de 1970, o dólar havia sido vinculado ao ouro, e a economia dos EUA tinha crescido como a de nenhuma outra nação. No entanto, de lá para cá, nosso crescimento médio caiu 25% ou mais. E adivinhe só: o crescimento da renda também não foi tão robusto quanto na época do padrão-ouro.

Outro fator: o aumento implacável dos custos médicos. O seguro fornecido pelo empregador conta como parte da remuneração de um funcionário. Embora a remuneração tenha aumentado, a parte em dinheiro ficou defasada. Algo que também não ajuda é o aumento dos impostos federais sobre a folha de pagamento, indicados como “FICA” nos contracheques. Com um regime de impostos baixos, um dólar confiável e um sistema de saúde voltado ao paciente, os salários líquidos teriam um bom aumento.

Os lucros são essenciais. Eles são morais. Sem eles, a economia estagna e regride. O economista Joseph Schumpeter cunhou a memorável expressão “destruição criativa”. Economias vibrantes precisam de quantidades enormes de capital novo para avançar. As mudanças destroem constantemente o capital antigo – veja o que a internet fez com o valor das antigas editoras de jornais e revistas –, o qual precisa ser substituído. O capital é necessário para financiar as startups (a maioria fracassa) e as expansões, bem como o aumento de produtividade das empresas existentes. O capital vem dos lucros e da poupança. Nesse sentido, o lucro é um custo de fazer negócios.

Nos negócios, há pessoas que fazem coisas ruins, amorais ou antiéticas. É verdade, mas isso não é exclusividade do capitalismo. As pessoas já se comportavam mal muito antes de Adam Smith escrever seu clássico capitalista, A riqueza das nações, em 1776. Em um sistema aberto, democrático e de livre mercado, os maus geralmente são eliminados, ao contrário do que ocorre em regimes autoritários ou socialistas.

O socialismo nunca funciona. Ele sempre leva a sangue, tirania e lágrimas, como se vê hoje na Venezuela, em Cuba e na Coreia do Norte e se viu no passado recente na União Soviética, na China maoísta e no Camboja comunista (onde, em menos de quatro anos, o regime massacrou mais de um quarto da população). E quanto ao “socialismo” da Escandinávia e da Europa? Elas não são socialistas no sentido de que o governo é dono da economia e a dirige. Muitos desses países têm programas de bem-estar social complexos, leis trabalhistas restritivas e sobrecarga de impostos. Mas tudo isso está começando a mudar. Países como a Suécia estão reduzindo o tamanho do Estado e cortando impostos. Quanto ao restante da União Europeia, a taxa média de crescimento desde a crise de 2008 foi minúscula, menos da metade da dos EUA.

Indo direto ao ponto, o capitalismo cria a riqueza que permite a existência de um Estado de bem-estar social. É por isso que cada vez mais países europeus estão estudando reformas pró-capitalistas, como impostos baixos, para estimular sua economia.

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