Nós e o Brexit

Reprodução Forbes

No tabuleiro do xadrez internacional – além das disputas tarifárias entre os EUA e a China, lastreadas no estrato tecnológico de busca de liderança entre as duas nações –, surge mais viva a questão do Brexit. Os europeus aproveitaram-se de uma liderança frágil e caótica do Reino Unido para semear, negociando habilmente, um clima de insegurança econômica e política na pátria de Churchill.

O destino do novo primeiro-ministro Johnson está ligado ao resultado de suas próximas decisões. A continuidade do governo conservador depende do que acontecer até o fim de outubro – prazo dado pela comunidade europeia para aceitação de um Brexit suave ou uma ruptura das negociações.

E o que representaria um Brexit sem acordo? Uma revolução econômica e política na Inglaterra, com reflexos importantes em toda a Europa e o redesenho de alianças estratégicas que atingirão desde a China até o Brasil. Pode acontecer a criação de um polo importante de comércio e do mundo das finanças, além do surgimento de oportunidades para quem, como nós, está embarcando em um acordo Mercosul-Comunidade Europeia.

A criação de mais um polo (conectado não apenas por razões históricas e com a presença predominantemente americana) nos obriga a pensar no acordo assinado e que ele não contenha cláusulas inibitórias, como bem disse o presidente Bolsonaro, transformadas em armadilhas que nos impeçam de negociar livremente acordos comerciais com os Estados Unidos, China e, acima de tudo, com o Reino Unido. Nessa janela devemos nos colocar não apenas como espectadores, mas como operadores de um sistema multinacional e transcontinental, no qual o peso específico da oitava maior economia do mundo seja sentido.

Para Trump, o momento é histórico para reavivar uma aliança anglo-saxônica com forte conteúdo político e com gigantescas possibilidades de um acordo comercial que faça relembrar a aliança Roosevelt-Churchill, em 1940. Seria a volta do famoso Lend-lease, que possibilitou à Inglaterra sobreviver à pressão nazista e resistir como última nação livre no continente, levando-a à vitória final com os aliados em 1945. Em um primeiro momento, já sentido desde a vitória do referendo Brexit, até agora, a libra derreteu-se – e a encomiada economia inglesa sofreu reveses. Mas, na minha opinião, um vigoroso Brexit, sem pagamento de multas e com a nova coligação com aliados históricos, vai resultar no ressurgimento, a médio prazo, de uma vigorosa economia inglesa, graças ao aumento da competitividade e da criatividade britânicas.

Por aqui, um tsunami argentino pode implicar a alteração do viés político do Mercosul e ampliar ainda mais a necessidade de voos independentes do nosso país. O Brasil terá de estar muito bem sintonizado para se aproveitar de uma situação histórica inusitada em benefícios econômicos, financeiros, comerciais e políticos, que serão marcantes para nós num arco de cinco a dez anos. Creio que é isso o que o mundo empresarial brasileiro almeja.

Com a Alca, perdemos uma oportunidade única de coliderar nosso continente. O Canadá, e principalmente o México, obtiveram evidentes ganhos com o Nafta, cuja origem é mais mexicana que nunca, resultado da visão do presidente Salinas ao propô-lo ao presidente George Bush.

O cavalo está, de novo, passando arreado à nossa porta. Estou certo de que, sem o viés bolivariano que sepultou a Alca, podemos cavalgá-lo com vigor e acrescentar o Reino Unido entre nossos parceiros preferenciais. Sem, óbvio, esquecermos a China e os países membros da Asean e, naturalmente, de honrar o acordo assinado com a União Europeia, sem pressões e armadilhas de parte a parte.

No caminho do saneamento financeiro, o Brasil acelera suas reformas. Imperfeitas ou não, são as possíveis e bem recebidas pela população e pelos agentes econômicos. Seus efeitos se fazem sentir pela melhoria do ânimo do consumidor e do empresariado, com a construção civil se recuperando, a indústria automobilística vendendo mais, o comércio, pouco a pouco, se reanimando. O mais importante fator, porém, é a curva do desemprego apontando para uma criação de empregos, sem contar um aumento de microempresários gerando mais ocupações. Enfim, um quadro de modesta, mas contínua reconstrução.

JK me dizia: “Mario, o desenvolvimento é um estado de espírito.” Com ousadia e coragem, construímos Brasília. Integramos o Brasil por estradas, de norte a sul e de leste a oeste. Criamos a indústria automobilística e a naval. Lançamos as bases para uma agricultura moderna e vibrante como a de hoje, que nos coloca como segundo maior produtor de alimentos mundiais. E, com esse estado de espírito desenvolvimentista, esperamos um futuro promissor.

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