“Nós sentimos medo, mas temos que ajudar as pessoas”, dizem médicos brasileiros

Reprodução/Forbes
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Acima, um hospital de campanha em construção no centro de convenções Riocentro, na cidade do Rio de Janeiro, que está sendo montado com 500 camas e será usado exclusivamente para o atendimento de pacientes com coronavírus

“Sou médico intensivista há muitos anos e sofro muito estresse”, diz o Dr. Ciro Leite Mendes, “mas nada como eu passei nos últimos 20 dias”. Mendes, ex-presidente da Associação Brasileira de Medicina Intensiva, é um dos muitos profissionais que trabalham arduamente na linha de frente dos esforços para combater os efeitos da Covid-19. Ele fala abertamente sobre o quão difícil tem sido até agora, mas não se ilude. Ele sabe que o pior ainda está por vir.

À medida que a pandemia de coronavírus se espalha pelo Brasil, as unidades de terapia intensiva em todo o país estão se preparando para um pico de casos – e, portanto, de mortes – que em muitas áreas ainda está longe.

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Ontem (9), o Brasil havia confirmado 18.176 casos de coronavírus e 958 mortes, com a maior concentração em São Paulo e Rio de Janeiro, no sudeste. Até agora, 23 estados emitiram ordens de isolamento social, embora o presidente Jair Bolsonaro tenha incentivado as pessoas a desconsiderar a medida para continuar trabalhando, o que lhe direcionou muitas críticas.

Com conselhos de profissionais de todo o mundo que já viram o vírus da forma mais destrutiva, os médicos do Brasil têm pelo menos uma pista a seguir ao lidar com os casos mais graves. No entanto, a preocupação de que o sistema de saúde do país possa ser sobrecarregado permanece extremamente presente.

Dr. Mendes trabalha como médico-chefe na unidade de terapia intensiva do Hospital Universitário Federal da Paraíba, e explica que: “Como o Brasil é muito heterogêneo, a situação [em relação ao vírus] ainda é muito díspar. As capitais de alguns estados, como São Paulo, Distrito Federal, Amazonas e Ceará, foram gravemente atingidas. Outras cidades não foram afetadas tão intensamente.”

Enquanto São Paulo, ontem tinha 7.480 casos confirmados de coronavírus e 496 mortes, na Paraíba houve 79 casos e 11 mortes, tornando-o um dos estados menos atingidos entre as 27 unidades federativas do Brasil. “Todavia, estamos esperando que a pandemia se espalhe, e acreditamos que talvez não haja recursos suficientes, especialmente humanos, devido ao contágio entre os profissionais médicos. Uma grande proporção vai acabar ficando doente e tendo que se autoisolar”, diz Mendes.

No Maranhão, a situação é semelhante, como o Dr. Rodrigo Palácio, especialista em terapia intensiva que trabalha na capital São Luís, explica: “Estamos com três a quatro semanas de atraso em relação a São Paulo [no número de casos ], mas começando a ver um aumento preocupante.”

Dr. Palácio acredita que o número real de casos de coronavírus no Maranhão, o estado mais pobre do Brasil em termos de renda per capita, é consideravelmente maior do que o relatado oficialmente. Ontem, as autoridades confirmaram 293 casos e 16 mortes, mas devido à falta de kits, apenas pacientes inseridos em grupos de risco e com sintomas mais graves estão sendo testados. “Podemos ver a partir do número de internamentos que a quantidade de casos [no Maranhão] deve ser maior”, diz Palácio.

O Maranhão declarou “estado de calamidade pública”, o que obrigará hospitais particulares como aquele em que Palácio trabalha a receber pacientes de hospitais públicos quando esses estabelecimentos atingirem a capacidade máxima. Além disso, todas as instituições, públicas ou privadas, estão colocando camas extras para lidar com o crescimento do número de pacientes.

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Mesmo assim, o profissional está preocupado com a capacidade de todo o sistema de lidar com a situação. “Por enquanto, temos recursos suficientes, mas nosso medo é que a estrutura comece a entrar em colapso. Não são apenas as camas, também são necessários equipamentos e profissionais, os quais serão infectados. Precisamos de materiais de proteção, remédios, ventiladores e estamos preocupados com a possibilidade de eles não chegarem ao Brasil”, afirma.

“Esta semana, cargas de ventiladores mecânicos foram levadas pelos Estados Unidos”, acrescenta, referindo-se a uma reportagem publicada na “Folha de S. Paulo” na semana passada. O artigo sugeria que um carregamento de 600 ventiladores destinados ao Brasil havia sido detido em Miami depois que o governo norte-americano ofereceu mais dinheiro aos fornecedores chineses. Desde então, o embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Todd Chapman, negou a acusação.

O que quer que tenha acontecido com essa remessa em particular, a realidade no território brasileiro é que os equipamentos de proteção e ventiladores podem se tornar escassos em breve. “Estamos tendo que reesterilizar e reutilizar a máscara, o que é um absurdo, mas é a única opção que temos”, diz Mendes.

O estresse que vem com esse novo desafio também é difícil de suportar. Dr. Filipe Amado, colega de trabalho de Palácio no Maranhão, atua o dia todo em uma ala específica para a Covid-19, que o hospital instalou em um prédio recém-concluído. À noite, ele volta para um apartamento em que se mudou temporariamente junto com outro colega. “Três semanas atrás, saí de casa”, diz. “Não vejo mais meus parentes ou minha noiva. Meu pai tem um sério problema de saúde [então eu fico longe para protegê-lo].”

Para Mendes, na Paraíba a tensão é semelhante. “Eu e minha esposa, que é infectologista, não vemos nossos netos há quase um mês. É doloroso, mas necessário.”

“Trabalhar com pacientes de Covid-19 em terapia intensiva é uma das piores experiências que alguém que trabalha na área da saúde poderia ter”, continua Mendes. “O estresse é inerente ao que fazemos, que demanda tomar decisões rápidas e se preocupar com outras pessoas. Agora, há o estresse adicional de estar desumanamente sobrecarregado de trabalho e ter medo de sua própria integridade física.”

Todos os três médicos também falam da carga física adicional que acompanha o tratamento de casos tão graves, uma vez que utilizam um equipamento de proteção extremamente desconfortável.

“Os sintomas que os pacientes apresentam são extremamente graves e geram intensas demandas técnicas e físicas dos médicos”, explica Palácio. Aqueles mais doentes precisam ser colocados de bruços na cama e movimentados sem deslocar os tubos do ventilador ou cateter. Isso é difícil para toda a equipe de enfermeiros e médicos, de modo a exigir um alto nível de concentração, cuidado e esforço físico.

Para Amado, no entanto, é possível encontrar conforto no contato com outros profissionais médicos online. “O Twitter é fantástico”, diz ele, “é uma maneira de compartilhar experiências e nossas angústias”. E não é apenas consolo que colegas em terras distantes podem oferecer. Conhecidos na Itália, Bélgica e Tailândia também têm transmitido conselhos. “Eles nos contaram suas experiências para evitarmos seus erros e reproduzirmos o que fizeram bem. Isso nos dá uma segurança e tranquilidade. Você pensa: ‘Estou fazendo algo que já funcionou do outro lado do mundo’.”

Por mais difícil que seja a tarefa, todos os três profissionais concluem a discussão reiterando seu compromisso neste momento de crise. “É meu dever. É para isso que fomos preparados”, diz Amado.

Mendes concorda. “Chegou a hora de mostrar por que nos formamos em medicina, enfermagem ou fisioterapia.”

“Sentimos medo”, conclui Palácio, “mas pensamos que podemos ajudar as pessoas trabalhando na linha de frente. É a nossa missão”.

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