Moda X Pandemia: quatro marcas independentes contam como resolver a equação

Luciana Prezia
Luciana Prezia

Donata Meirelles

A partir do que me disse Costanza Pascolato, na coluna passada – que os efeitos da crise seriam mais sentidos pelas pequenas marcas de varejo e pelos pequenos estilistas – conversei com quatro estilistas independentes, não ligados à nenhuma empresa multibrand, sobre como estão lidando com os desafios de um cenário delicado e preocupante.

Thiago Bruno
Thiago Bruno

Lilly e Renata Sarti, da Lilly Sarti

Lilly Sarti, marca que eu apoio desde que foi criada nos anos 2000 pelas irmãs Lilly e Renata Sarti, encara o atual momento com otimismo e planejamento. Para a estilista Lilly, as palavras de ordem hoje são “conexão” e “pacto”. “Estamos conectadas com outras marcas e também com grandes grupos através de grupos de discussão, falando de ideias e possibilidades sobre o que mudar e o que melhorar. Algumas decisões são coletivas, outras não”, contou. O pacto foi estabelecido com fornecedores e clientes do atacado, através de um novo desenho do calendário de lançamentos e entregas. O objetivo é não sobrecarregar o estoque do cliente e sem pressioná-lo para fazer pedidos para meses mais incertos. Além de promover a liquidação – ou SALE – apenas um ano depois da coleção sair da loja e somente em vendas online no site da marca.

Cassia Tabatini
Cassia Tabatini

André Boffano, da Modem Studio

Também conectado com outros estilistas e grandes marcas para definir planejamento e estratégias está André Boffano, da marca Modem Studio, de roupas e acessório com forte ligação com as artes plásticas. Além da discussão sobre o calendário de lançamentos – ele é adepto do clássico “vender inverno no inverno e verão no verão”, por razões comerciais – André decidiu investir em uma forma diferente de comunicação com seus clientes multimarcas – vende apenas por atacado. Convidou amigos artistas que criaram conteúdo em imagens ligados aos produtos da marca, porém sem apelo comercial, divulgadas na plataforma @modemstudio no Instagram.

Ele acredita que a responsabilidade social é vital não só agora, mas daqui em diante e para empresas de todos os segmentos. “Não há como não impactar a sociedade de forma positiva através do nosso trabalho”, está convencido. Por isso, apesar de a princípio ter sido contra a produção de máscaras de proteção por considerar que se tratava de um modismo de ocasião, decidiu confeccioná-las como alternativa de trabalho para as costureiras terceirizadas que estavam paradas e sem receber. Uma parte da produção foi doada e a outra vendida online a preço de custo . “Como o material utilizado é de estoque, é uma maneira de utilizar um capital que estava parado como capital de giro e, mesmo não sendo lucro, me possibilita pagar salários e manter a empresa funcionando”, explica.

Divulgação
Divulgação

Fernanda De Goeye, da De Goeye

“Como todo mundo, fomos pegos de surpresa e, do dia para noite, tivemos que fechar loja, ateliê e mandar os funcionários para casa. Isso foi há dois meses…”, lembra Fernanda de Goeye, estilista da marca De Goeye.
Além do estilo atemporal, com ênfase na qualidade dos materiais e do acabamento, a De Goeye, desde o princípio não segue o calendário de lançamentos, sem coleções definidas segundo as estações do ano e sem entrar em liquidações sazonais. Portanto, suas peças contam com maior tempo de venda. “Temos essa vantagem perante o mercado”, diz Fernanda.

A De Goeye também investe nas mídias sociais e no primeiro sinal de crise, em março, começou a preparar a coleção “Stay Home” (Fique em Casa) pra ser lançada em um mês. Apresentada e promovida via Instagram e WhatsApp, os produtos se esgotaram em uma semana. Fernanda comemora: “Não cancelamos nenhum pedido aos fornecedores”.

Miro
Miro

Thomaz Azulay e Patrick Doering, da The Paradise

A carioca The Paradise é marca assumidamente exclusiva. As peças criadas por Thomaz Azulay e Patrick Doering são numeradas a mão, estampadas com pinceladas digitais e apresentam texturas e brilhos. Thomaz conta que a primeira ação da dupla foi cuidar da equipe assim, quando “o bicho pegou”, fecharam loja, fábrica e mandaram todo mundo trabalhar à distância. Ele garante que a marca foi a primeira a produzir máscaras de proteção: “O produto ainda não estava no mercado e assim continuamos pagando os funcionários integralmente”. E pergunta maroto: “É papel da moda estar à frente do seu tempo, não?”.

Em seguida dirigiram o foco para o online, ampliando a gama de produtos no site, inclusive a primeira venda especial de produtos: “Inclusive colocamos lá a primeira venda especial da marca que havíamos feito em fevereiro”, conta Thomaz. A dupla considera que a marca já estava no caminho “certo” antes da pandemia. Segundo Thomaz, esse “certo” é executar projetos e lançamentos respeitando o tempo de criação e duração da marca: “Esperamos que isso seja mais valorizado por quem consome moda no mundo pós-Covid”. A ideia dos estilistas é ser cada vez mais fiel ao DNA da Paradise: “Levar maximalismo, tropicalidade e sonho para além da roupa”, avisa Thomaz.

Donata Meirelles é consultora de estilo e atua há 30 anos no mundo da moda e do lifestyle

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