Flávio Rocha: A lição da Ilha de Páscoa para a época de confinamentos

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Inicialmente agricultores tenazes, os rapanui se tornaram escultores e, de repente, deixaram de produzir para a própria subsistência

O fim da civilização da Ilha de Páscoa, séculos atrás, pode oferecer uma valiosa chave de leitura para os métodos de combate à pandemia do novo coronavírus, que hoje enfrentamos.

Depois de alcançar complexidade e sofisticação notáveis, o povo rapanui – conhecido por seu legado de esculturas gigantes, cuja produção é cercada de mistérios – foi varrido do mapa e hoje está reduzido a poucas centenas de pessoas que ainda habitam a remota ilha chilena no Pacífico.

O que aconteceu com eles?

Embora não haja consenso entre especialistas, uma teoria predominante é que morreram de fome provocada pela falta de alimentos decorrente de desenfreado desmatamento. Sob o domínio de um pensamento em grupo, os nativos passaram a cortar árvores a fim de construir enormes canoas para transportar seus moais, como se chamam as estátuas, algumas com mais de 20 metros e 12 toneladas.

Os ídolos de pedra não os protegeram. Ao contrário. Sugando toda a energia disponível dos cidadãos, as centenas de moais representaram uma armadilha fatal para a sociedade. Inicialmente agricultores tenazes, os rapanui se tornaram escultores e, de repente, deixaram de produzir para a própria subsistência.

A triste história da Ilha de Páscoa me vem à mente quando observo as reações desproporcionais no combate ao vírus. A orientação de isolamento horizontal, de responsabilidade de algumas instâncias governamentais, ameaça a vida mais do que a doença que pretende debelar. Confinar a população em casa por tempo indeterminado é tão irracional – e potencialmente fatal – quanto se dedicar quase que exclusivamente à produção de estátuas colossais.

Não se trata de minimizar a gravidade da pandemia. Os milhares de mortos no mundo, vítimas da Covid-19, são prova eloquente de que estamos diante de uma doença que não dá trégua. A questão não é se ela deve ser mais ou menos combatida, claro, mas sim como isso deve ser feito.

“Não se trata de minimizar a gravidade da pandemia. Os milhares de mortos no mundo, vítimas da Covid-19, são prova eloquente de que estamos diante de uma doença que não dá trégua.”

Meu argumento é baseado na única moeda que realmente interessa: a vida humana. Noto que a defesa de estratégias alternativas ao confinamento tem sido mal interpretada. O mundo não está dividido entre pessoas boas, que defendem a vida, e pessoas más, que defendem a economia. Essa é uma falsa dicotomia.

A situação exige uma visão holística do que está em jogo. Temos que olhar para o conjunto da sociedade e definir se queremos defender apenas a vida dos infectados ou se queremos defender todas as vidas – a dos doentes e a dos sãos. Quero crer que ninguém advogaria uma política restritiva de defesa à vida.

É isso, no entanto, o que acontece quando tiramos a economia da tomada. Suspender o comércio, interromper a produção, desarticular os agentes, tudo isso tem um custo que não é medido em dinheiro, mas em vidas.

A recessão inédita e brutal que resultaria da insistência nessa política certamente jogaria no desemprego milhões de pessoas. Calcula-se que, no mundo, meio bilhão voltaria à miséria da qual muitos não sairiam com vida. Haveria ainda aumento em espiral da violência urbana, que sempre deixa um trágico saldo de mortos.

Será que essas vidas valem menos do que a dos contagiados pelo vírus? Quem responder “não” a essa pergunta deve agir coerentemente e se colocar contra quarentenas radicais que, se estendidas, vão destruir a economia.

Alguns políticos estão se atribuindo superpoderes, agem como se fossem deuses que pudessem determinar o destino das pessoas. A eles, recomendo humildade. Devemos aceitar nossa condição humana.

Ídolos de pedra não são uma solução – eles são uma metáfora daquilo que temos o dever de evitar.

Flávio Rocha é Presidente do Conselho de Administração da Riachuelo

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