O que está no caminho dos aeroportos no pós-pandemia

Smartphones e tecnologia blockchain podem ser aliados para viagens seguras e sem contato físico.

Jennifer Leigh Parker
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Reprodução Forbes
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Máquina de limpeza autônoma no aeroporto de Changi, Singapura

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Na corrida para reabrir, os aeroportos estão recorrendo a tecnologia de reconhecimento facial, inteligência artificial, automação e scanners biométricos projetados para oferecer uma experiência “touchless”, ou seja, sem contato físico para nós e nossas bagagens. Mas a execução é outra história.

Imagine entrar no aeroporto, compartilhar seus sinais vitais, passar pela segurança e embarcar em um avião, tudo sem tocar em nenhuma tela, bilhete ou pessoa. Segundo as autoridades, é para onde estamos a caminho. Ao considerar o claro e presente perigo de infecção, a questão é com que rapidez podemos (e devemos) chegar lá?

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A resposta depende muito de onde você está no mundo. No aeroporto de Changi, em Singapura, as máquinas térmicas avaliam a temperatura de todos os funcionários e visitantes que entram nas áreas de trânsito. O Aeroporto Internacional de Hong Kong tem trabalhado com três robôs autônomos de “esterilização inteligente” para limpar áreas públicas e banheiros. Os robôs não estão a caminho –eles estão aqui.

E, em Abu Dhabi, a Etihad Airways anunciou o teste beta de quiosques de autoatendimento desenvolvidos pela Elenium Automation. Os quiosques podem monitorar temperatura, frequência cardíaca e respiratória de um passageiro e sinalizar aqueles que precisam de atenção médica. Embora essa tecnologia não tenha sido projetada para diagnosticar qualquer condição, ela pode processar grandes quantidades de dados biométricos.

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“Estamos testando essa tecnologia porque acreditamos que ela não apenas ajudará no atual surto de Covid-19, mas também no futuro, ao avaliar a adequação de um passageiro para viajar e, assim, minimizar interrupções”, disse Jorg Oppermann, vice-presidente de operações e meio de campo na Etihad Airways.

Comparativamente, os EUA têm demorado para fazer parte do movimento. Desde 2015, a Transportation Security Administration (TSA) –a agência com autoridade sobre a segurança dos viajantes norte-americanos– usa testes biométricos para verificação de identidade, não para exames de saúde. Atualmente, a organização não executa nenhum programa voltado especificamente para combater o coronavírus. Na ausência de uma grande revisão operacional, fazer voos domésticos ainda significa se submeter a tapinhas, aglomeração em terminais lotados e tocar em telas compartilhadas para etiquetar a bagagem.

As empresas do setor privado estão na corrida para preencher a lacuna. “O resto do mundo está muito mais à frente do que os aeroportos dos EUA em termos de tecnologia. Temos mantido conversas com aeroportos e companhias aéreas, enquanto eles tentam descobrir o que é o novo normal”, diz Derek Peterson, CEO da Soter Technologies, citando interesse da United Airlines e do aeroporto de Abu Dhabi. Sua empresa, com sede em Ronkonkoma, NY, desenvolveu um novo dispositivo chamado “Sensor de Sintomas” que rastreia os níveis de oxigênio no sangue, temperatura, freqüência cardíaca e taxa de respiração sem fazer contato físico. Cada aparelho custa US$ 35 mil e deve chegar ao mercado em junho.

Quanta informação é suficiente?

Para reabrir sem provocar novos surtos do vírus, os aeroportos devem se preparar para explorar uma ampla variedade de estatísticas de saúde. Segundo as autoridades médicas, apenas medir a temperatura não é suficiente para rastrear um vírus com um período de incubação assintomático. O “Journal of the American Medical Association” acaba de publicar um estudo que mostra que menos de um terço dos 5.700 pacientes hospitalizados com Covid-19 nas instalações da Northwell Health tiveram febre após a triagem –embora o sintoma seja visto como um indicador-chave da doença.

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Isso significa que os viajantes devem se preparar para uma grande transição da mera avaliação de imagem para o rastreamento biométrico. Ainda não se sabe se essa mudança será permanente e como os dados eletrônicos de saúde serão compartilhados. Mas está em curso.

“Como vimos em surtos anteriores (Sars e Mers), o padrão e a velocidade com que uma doença se movimenta pelo mundo está ligado ao padrão e à velocidade com que os passageiros se deslocam”, diz Barbara Dalibard, CEO da Sita (Société Internationale de Télécommunications Aéronautiques).

Vivemos em um mundo em que a tecnologia possibilita monitorar todos o tempo todo. Por que não estamos preparados para impedir a propagação de doenças? Tudo se resume ao controle. Nem todos os países se submeteram à vigilância em massa, devido a problemas complexos de privacidade e segurança cibernética. O consentimento do compartilhamento de dados ainda é considerado uma liberdade civil em grande parte do mundo moderno.

Por esses motivos, um aeroporto verdadeiramente “sem contato” ainda pode estar longe no futuro.

Grandes obstáculos

A privacidade é um problema simples, sem uma solução simples. Ninguém deseja que os governos rastreiem seus dados de saúde por qualquer outro motivo, exceto usá-los com o objetivo imediato de trânsito seguro em viagens. Suas informações médicas não devem ficar em um banco de dados aberto para serem vendidas a anunciantes, empregadores ou comitês de ação política, por exemplo.

“Acreditamos no aumento do acesso aos dados, para impulsionar a inovação. Mas existem grandes questões sobre o consentimento coletivo em condições de pandemia. Podemos dizer, sim, como sociedade que consentimos. Mas nossas informações precisam ser gerenciadas de maneira confiável e bem administradas”, diz Jeni Tennison, vice-presidente e consultora de estratégia do Open Data Institute.

Se “bem administrado” e “confiável” parecerem sonhos distantes, junte-se ao clube. No entanto, Jeni vê um futuro no qual as companhias aéreas e os aeroportos compartilharão estatísticas médicas com segurança e exclusivamente com autoridades de saúde pública, como a Organização Mundial de Saúde e o Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido. Essas estatísticas podem ajudar a ilustrar os fluxos de passageiros em todo o mundo, em vez de monetizar perfis pessoais. Se todos os dados médicos coletados nos aeroportos fossem anonimizados, viagens seguras se seriam possíveis possíveis.

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A cooperação é a segunda maior questão. Os países precisam cooperar para permitir que os viajantes cruzem as fronteiras. Um acordo global sobre como pré-selecionar passageiros ajudaria. Se apenas forem permitidos viajantes cuidadosamente selecionados, você estaria mais disposto a aceitá-los em seu país. Por enquanto, no entanto, parece que o isolamento nacionalista está conquistando a solidariedade global, à medida que o mundo sofre contrações econômicas e sociais.

Rumo ao contato zero

Sem um único órgão responsável, o setor de aviação global se recuperará lentamente, companhia aérea por companhia aérea, aeroporto por aeroporto. O progresso deve acontecer aos trancos e barrancos.

A Organização Internacional da Aviação Civil da ONU (Oaci), com sede em Montreal, está tentando mudar isso. Em 29 de abril, a instituição anunciou o estabelecimento de uma nova Força-Tarefa de Recuperação da Aviação Covid-19, criada por representantes de 36 países em seu conselho de governamental. O objetivo é aproveitar “todos os dados disponíveis do governo e do setor” para criar soluções em todo o segmento.

As soluções prováveis ​​dessa força-tarefa serão influenciadas pelos parceiros da Oaci, incluindo o World Council International Airport (ACI) de Montreal, apelidado de “a voz dos aeroportos do mundo” e a já mencionada Sita, uma empresa multinacional de TI que presta serviços a mais de mil aeroportos e a maioria das companhias aéreas do mundo. Ambas as organizações acreditam que uma experiência sem contato ou com pouco contato é o melhor caminho a seguir.

“Tecnologias como biometria, portas eletrônicas automatizadas, robótica e inteligência artificial devem desempenhar um papel importante, agora e no futuro”, disse Nina Brooks, diretora de segurança, facilitação e TI da ACI.

O valor da IA ​​nos aeroportos está relacionado à sua capacidade de “transformar dados em inteligência comercial”, acrescenta Antoine Rostworowski, vice-diretor geral da ACI. Por exemplo, quanto mais quiosques de dados de saúde lerem, os aeroportos mais capazes serão de identificar quais passageiros precisam de mais atenção. A visão computacional assistida por IA também poderia melhorar a eficiência dos pontos de escaneamento computadorizado, reduzindo assim as multidões.

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Os funcionários da Sita também dizem que a IA pode combinar biometricamente os passageiros com suas malas. “A IA será capaz de reconhecer marcas únicas de arranhões, vincos e características do material para distinguir entre malas aparentemente idênticas e combiná-las com o passageiro correto”. Isso permitiria que os clientes fizessem despacho automatizado de bagagem usando seus próprios dispositivos móveis, sem a necessidade de tocar em telas sujas dentro de um aeroporto.

“A automação é de suma importância. As tecnologias de autoatendimento e sem contato facilitarão o fluxo de passageiros, reduzindo filas e, ao mesmo tempo, assegurando uma experiência social favorável ao distanciamento, por meio do uso da biometria segura e dos dispositivos móveis dos próprios passageiros”, afirma Barbara, CEO da Sita.

Barbara considera que considera o blockchain é o futuro do compartilhamento de dados nos aeroportos. “Acreditamos que o blockchain é altamente adequado para o setor de transporte aéreo. Ele tem o potencial de compartilhar informações com segurança –como dados de identidade e operações de voo– entre as várias partes interessadas, sem abrir mão do controle ou comprometer a segurança dos dados”.

A questão, mais uma vez, volta ao controle. O blockchain é um livro de informações, que tem sido mais aceito nos setores financeiro e de saúde e permanece com cautela na aviação, porque exige que os governos aceitem os registros, sem a capacidade de controlá-los. O ponto principal do blockchain é que ele não pode ser controlado pelos governos.

Abordagem unificada

Se algo positivo vem dessa pandemia, é que as próprias viagens provaram ser o motor econômico do mundo. Pontes, não fronteiras, são a única maneira de a aviação global garantir viagens seguras. Precisamos de uma abordagem unificada para implementar as tecnologias que possibilitam o futuro sem contato –e rápido.

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