Peste Suína Africana nas Américas reacende preocupação com pandemia

Há 40 anos a doença havia sido erradicada da região, mas novos casos foram notificados na República Dominicana e no Haiti recentemente.

Lygia Pimentel
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Stringer/Reuters
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Doença viral de alta patogenicidade, a Peste Suína Africana é altamente contagiosa. Apesar de não acometer o homem, ela causa grandes perdas comerciais aos rebanhos de suínos infectados

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Em 1º de julho foram identificados problemas sanitários em suínos de duas propriedades localizadas na República Dominicana. A identificação da suspeita de Peste Suína Africana (PSA) foi notificada e a confirmação laboratorial veio apenas no dia 28 do mesmo mês.

Antes de darmos sequência, é importante destacar que a PSA é uma doença viral de alta patogenicidade, ou seja, alta capacidade de produzir doença no indivíduo infectado. Além disso, é altamente contagiosa. Também, a PSA não é uma zoonose, ou seja, a doença não acomete o homem e se manifesta apenas em suínos, o que significa que causa grandes perdas comerciais aos rebanhos infectados, sejam eles domésticos ou silvestres (javalis).

SAIBA MAIS: Brasil estrutura rede de diagnóstico de peste suína africana e avança na prevenção

As informações iniciais dos primeiros casos registrados na República Dominicana pontuaram o seguinte:

Fazenda 1: De 842 suínos, 800 vieram a óbito e 42 sacrificados após confirmação de infecção por PSA;
Fazenda 2: De 15 suínos, todos vieram a óbito antes de serem testados;

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As propriedades se localizam a 209 quilômetros de distância uma da outra, o que automaticamente sugeria altíssima probabilidade de o vírus já ter se espalhado até a data da confirmação laboratorial.

Há 40 anos a PSA havia sido erradicada das Américas, o que levanta a pergunta: como a doença chegou à República Dominicana?

O país restringiu a saída de carne suína e mobilizou a força militar para conter a doença. Os Estados Unidos e o México aumentaram a rigidez das inspeções em seus respectivos aeroportos para impedir que viajantes propaguem o vírus através de roupas e produtos de suínos.

Os países vizinhos, como Porto Rico, aumentaram o controle em suas respectivas defesas sanitárias, mas dada a capacidade de contágio e a sobrevida do vírus longe do hospedeiro (até 10 dias), o espaço de tempo entre a contaminação, a correta identificação da doença e a aplicação das medidas de contenção trazem um grande risco. Assim, em 1º de agosto, foram notificadas mortes de suínos em diferentes propriedades rurais na fronteira com o Haiti.

A PSA foi responsável por liquidar 43% do rebanho suíno da China entre 2018 e 2020, chegou a países europeus como Hungria, Letônia, Moldávia, Polônia, Romênia, Rússia, Sérvia e Ucrânia, além do mais importante fornecedor de carne suína da União Europeia, a Alemanha. Por sinal, em julho o vírus foi identificado em uma granja comercial daquele país, que até aquele momento só havia registrado a doença em suídeos selvagens (javalis).

Com uma população farta e esparsa de javalis, com uma vasta fronteira, sendo o terceiro maior produtor de carne suína do mundo e dada a dificuldade de conter o vírus mesmo em países desenvolvidos, é gritante que o Brasil enfrenta um enorme desafio para manter a enfermidade longe do plantel nacional.

Caso a doença voltasse a assombrar o produtor brasileiro, a ordem de efeitos projetados seria a seguinte: fechamento de mercados internacionais para a carne suína (i); queda de preços domésticos (ii); abate de animais sãos para evitar contaminação futura e perda de plantel sem qualquer aproveitamento de valor (iii); queda de investimentos na atividade pelo alto risco implícito (iiii); queda produtiva (v); alta vertiginosa de preços (vi).

Há quem acredite que a preocupação com a chegada da doença é um exagero ou até mesmo especulação do mercado. A esses, vale destacar que a Gol Linhas Aéreas já divulgou seu primeiro novo destino direto pós-pandemia: Punta Cana, na República Dominicana. Os voos devem começar a operar em novembro.

Portanto, o risco é latente.

Lygia Pimentel, CEO da AgriFatto, é médica veterinária, economista e consultora para o mercado de commodities. Desde 2007 atua no setor do agronegócio ocupando cargos como analista de mercado na Scot Consultoria, gerente de operação de commodities na XP Investimentos e chefe de análise de mercado de gado de corte na INTL FCStone.

Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.

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