Luana Génot, empresária, autora e fundadora do ID_BR: “Ações afirmativas precisam de planejamento, metas, prazos e investimento”

Pablo Bispo/Divulgação
Pablo Bispo/Divulgação

Luana Génot criou o Instituto Identidades do Brasil (ID_BR) com o propósito de acelerar a igualdade social no país

Luana Génot é carioca da Penha, 31 anos, formada em publicidade – com especialização em raça, etnia e mídia pela Universidade de Wisconsin-Madison – e autora do livro “Sim à Igualdade Racial”. Em 2016, ela criou o Instituto Identidades do Brasil (ID_BR), entidade que tem o propósito de acelerar a igualdade social no Brasil. Com voz calma e muito conhecimento de causa, Luana discorre sobre os vários aspectos da questão, sobretudo no mercado de trabalho.

O início profissional aconteceu aos 18 anos, como modelo, em um período de dois anos vivido entre França, Inglaterra e África do Sul. “Sem dúvida, fiz vários trabalhos belíssimos, porém bastante restritos no sentido financeiro e conceitual”, lembra. Decidiu então voltar ao Brasil e retomou os estudos, como bolsista na PUC-Rio, graduando-se em publicidade.

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Por meio do programa Ciência Sem Fronteiras, Luana teve acesso à formação acadêmica nos Estados Unidos e por lá trabalhou como voluntária na segunda campanha presidencial de Barack Obama. Em
Chicago, teve a oportunidade de trabalhar na agência Burrell Communications – focada no público afro-americano – sob a liderança de Maggie Williams, ex-chefe do staff da primeira-dama Hillary Clinton, na Casa Branca. Ou seja, ela acumulou experiência de vida, acadêmica e profissional sobre a pauta em que está engajada.

“Estamos em permanente movimento”, comenta Luana hoje sobre as atividades do ID_BR, que se intensificaram a partir do segundo semestre do ano passado depois do episódio George Floyd – o cidadão negro norte-americano morto durante uma batida policial – gerando protestos em todo o mundo, espalhando a #blacklivesmatter nas mídias sociais.

“Acredito que aqui no Brasil o ID_BR girou essa roda, em consonância com outras instituições, fazendo com que mais pessoas e mais empresas se engajassem na pauta antirracista da forma como ela merece”, afirma. Segundo Luana, o posicionamento do mercado foi além de simplesmente marcar o momento com a postagem de um quadradinho preto em sinal de luto. “Várias empresas nos procuraram querendo saber que ações tomar e como proceder para não ficarem só na intenção sem sair do lugar”, conta.

Com bom humor, Luana define o papel do instituto junto a empresas e marcas: “Basicamente, somos personal trainers da igualdade racial”. E é pragmática sobre a construção de um caminho concreto nesse sentido: “Como em qualquer outro projeto que se quer tirar do papel, são necessários planejamento, metas, prazos e investimento”, explica.

Ela também conta que se no início o ID_BR atendia cinco empresas, hoje são cerca de 50. Todas recebem o selo Igualdade Racial, fundamental para as que desejam ser listadas nas bolsas de valores, que exigem algum tipo de ação social nesse sentido. Além do prêmio anual Sim à Igualdade Racial, criado pelo instituto e com cerimônia de entrega transmitida pelo canal Multishow.

No mês passado, uma parceria importante foi estabelecida com a Hering, que se tornou a marca oficial das camisetas – e moletons, calças e bermudas – da campanha Sim à Igualdade Racial. As peças com a estampa do coração geométrico – em tons de marrom e bege – são vendidas através do e-commerce, com parte da renda revertida para a entidade. “A inspiração veio da campanha O Câncer de Mama no Alvo da Moda”, aponta Luana. “Nossa campanha chama atenção para um câncer social, o racismo. Um problema que o Brasil não pode mais negligenciar”.

A seguir, os principais momentos da conversa com Luana Génot, que falou à coluna diretamente da França, onde estava para uma série de encontros e palestras.

Virando a chave

“Em 2007, quando fui para a França como modelo, procurei uma agência para estabelecer uma carreira e ficar por lá mais tempo. O agente que me recebeu foi direto: ‘Você é linda, mas tem um problema. É negra’. Ele me explicou que das 300 mulheres do casting da agência, apenas três eram não brancas. Disse que eu teria menos oportunidades e ganharia menos. Porém, eu podia desistir ou resistir e fazer parte do começo da solução do problema. Foi um momento importante e revelador. A partir de então, baseei minha vida em ser uma parte, ainda que pequena, de uma solução. Durante esse tempo no exterior, mantive uma postura muito crítica com o que acontecia comigo. Era comum eu chegar para um trabalho e encontrar o estereótipo: negra tem de vestir animal print. Ou: ‘Ah, brasileira… vamos fazer alguma coisa relacionada com favela’. Mesmo tendo a oportunidade de viajar e conhecer o mundo, a meu ver não era uma carreira sustentável. Voltei ao Brasil e fui estudar publicidade. Assim, deixei de ser um objeto fashion e passei a pensar a moda e a publicidade, começando a subverter a questão do racismo no trabalho. Um verdadeiro despertar de consciência.”

História não contada

“Além da questão negra, no ID_BR também atuamos na pauta da aceleração da igualdade social em relação aos indígenas. Infelizmente o conhecimento e o mapeamento das várias populações indígenas brasileiras não chegam ao cidadão comum e não temos a menor familiaridade com os vários idiomas ou os costumes dessas pessoas. Com isso, parte do conhecimento sobre nosso próprio país e nossa identidade fica prejudicado, é apagado.”

Capital humano

“Empresas que se educam na pauta antirracista se prestam um grande favor. Ao absorverem, reterem e treinarem talentos negros e indígenas, elas estão acessando uma série de ideias, conexões, soluções, produtos e serviços que não acessariam normalmente sem a presença deles em suas lideranças. Trata-se de uma relação mercadológica bastante pragmática, além de uma virada de chave social e cultural.”

Direto ao ponto

“Sim, existe uma grande resistência às cotas. Sobretudo pela falta de uma campanha nacional de conscientização. O assunto costuma ser apresentado de forma descontextualizada, como se as cotas fossem algo caído do céu para privilegiar certo grupo de pessoas. Esquece-se que possuímos um passivo de 300 anos de escravidão, que largou a população negra ao léu. Hoje a maior parte dessa população exerce cargos operacionais não por falta de capacidade ou liderança mas, sobretudo, por falta de oportunidade. Quando explicamos isso nas empresas, vemos muitas pessoas surpresas: ‘Ah, mas eu não sabia disso’. É preciso que tanto pessoas brancas quanto pessoas negras entendam que ações afirmativas não são um privilégio, mas um direito.”

Role model

“Nos Estados Unidos, trabalhei com uma chefe sensacional, Maggie Williams (primeira afro-americana a trabalhar como chefe do staff da primeira-dama, na Casa Branca, para Hillary Clinton) e ela comandava mais de 200 pessoas. Com ela aprendi o que é ser uma liderança negra e ouvi suas histórias de como, muitas vezes, foi subestimada no mercado norte-americano. Ela me fez ver que um dia eu também poderia estar num posto de liderança.”

A união faz a força

“Nos EUA há mais de 400 historical colleges negros, de onde inclusive saiu Kamala Harris. Existem espaços para lideranças não brancas de negros, indígenas, asiáticos – para se fortalecerem e serem capazes de romper uma hegemonia. Isso faz toda a diferença. É no aquilombamento que as pessoas se fortalecem. Aqui temos de realizar tudo a duras penas exatamente pela falta de investimento e por conta de uma abolição tardia da escravidão.”

A próxima geração

“Tenho uma filha de três anos, Alice, e espero que no futuro ela tenha problemas bem diferentes para resolver. Queria poder conversar com ela daqui a 30 anos e ouvir: ‘Mas mãe, como assim, desigualdade racial? Hoje vemos negros e indígenas em todos os lugares e todos os cargos’.”

Donata Meirelles é consultora de estilo e atua há 30 anos no mundo da moda e do lifestyle.

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