Por que precisamos de um respiro offline em um mundo online

Algumas emoções e memórias jamais poderão ser reproduzidas em uma tela. Por isso, é importante viver o presente e deixar os registros de lado.

Paula Drumond Setubal
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molchanovdmitry/Getty Images
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Com as lentes das câmeras, nem sempre vamos conseguir reproduzir aquela paisagem de tirar o fôlego, mas as memórias feitas offline são para sempre

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Na última semana, viajamos com amigos e vivemos momentos tão especiais que nossa última preocupação foi registrá-los. Menor ainda em dividi-los.

Me questionei sobre a necessidade de estarmos sempre conectados e compartilhando. No quanto me faz bem manter privada uma parte da minha vida, dividir momentos sem que ela se torne um reality show, e na linha tênue que as separa.

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Recebi algumas mensagens dizendo o quanto achavam cool e chique o fato de não postar o aeroporto e o voo e simplesmente aparecer em um lugar. Não postar não quer dizer que não aconteceu, muito menos que sou chique, quer dizer apenas que no momento minhas preocupações eram outras. Não mostrei o meu choro inconsolável no aeroporto antes de viajar, antecipadamente sofrendo por deixar meus filhos. A insegurança e o medo que a maternidade nos traz constantemente.

Os bastidores da vida de um influenciador digital que ninguém vê. A regra é clara: acorde todos os dias impecável com um sorriso no rosto, se necessário disfarce com um bom filtro. Se possível, não polemize. Siga o briefing de quatro páginas e envie tudo para aprovação 48 horas antes, mas “faça do seu jeitinho, bem natural, tá?”. Crie uma vida irreal e seja constante, afinal o algoritmo é cruel.

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Isso me fez pensar no quanto hoje, para existirmos, precisamos estar sempre ativos e compartilhando. Na ansiedade que isso gera, e aqui não me refiro apenas aos influenciadores digitais, mas aos profissionais de todas as categorias. “Se não estiver no Instagram hoje, você não existe. Se não foi postado, não aconteceu.”

Pensei na minha obstetra maravilhosa que trabalha incansavelmente dias e noites, sem distinguir dias úteis e finais de semana, que muitas vezes me visitava às 11 da noite no hospital, às 3 da manhã estava no telefone comigo e às 5:30 da manhã estava no meu quarto novamente pronta para um longo dia de trabalho. Como milhares de outros profissionais, ela passou a ser exigida a compartilhar a própria vida e trabalho como se tivesse tempo para isso. Como se além de serem excelentes na profissão que escolheram e desempenharem todos os seus papéis familiares, ainda precisassem compartilhar tudo nas redes sociais.

Pensei nos pequenos momentos em que tudo o que gostaríamos era que nossos olhos filmassem e guardassem cada sentimento. Que a voz, risadas, expressões e jeito dos nossos pais ficassem eternizados nas nossas memórias. Os momentos valiosos que serão eternos e nenhuma câmera no mundo seria capaz de registrar.

Daquele pedacinho dos nossos filhos que é só nosso. Suas preferências e peculiaridades, seus olhares e suas conquistas diárias, sem que o mundo note.

Das luas perfeitas que presenciamos e nunca sequer teremos um registro que se aproxime da realidade, que nos força a curtir o ali e o agora.

As paisagens de tirar o fôlego que queremos guardar pra vida. O frio na barriga das nossas conquistas que nunca poderá ser reproduzido em rede social alguma. Aqueles momentos tão incríveis em que vivemos tanto que nos esquecemos de postar.

Até mesmo dos nossos momentos difíceis. Aqueles que nos tornam mais humanos, que tiram nosso sono, que nos mostram o que realmente importa, que nos tornam quem somos. Que não serão compartilhados e nem por isso deixarão de existir.

Que saibamos usufruir de todas as maravilhas que a tecnologia nos trouxe sem nos perdermos no caminho. Por mais tempo offline e mais vida real, num mundo tão online.

Paula Drumond Setubal é advogada, mãe de gêmeos e produtora de conteúdo.

Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.

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