Envelhecer sem azedar

Quando mais de um terço da população for idosa, poucos terão paciência para aguentar tantos velhos mal-humorados, implicantes ou irritadiços.

Jurandir Sell Macedo Jr
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Daly e Newton/GettyImages
Daly e Newton/GettyImages

Quanto antes uma pessoa começa a se preparar para viver mais tempo, maior será a chance de transformar esse tempo em bônus, e não ônus

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Em outubro de 2020, recebi um convite da Forbes para escrever uma coluna direcionada ao público 50+. Aceitei o convite cheio de orgulho porque além de reconhecer o grande prestígio da revista, sou um apaixonado pelas questões de longevidade.

Falando em longevidade, esta é última coluna que escrevo antes de me tornar oficialmente um idoso. Dia 17 de novembro vou completar 60 anos e passar a ter o direito de estacionar nas vagas reservadas para 60+, onde uma pessoa de bengala vai me representar. Recentemente, fiz uma reserva em um hotel e, depois de coletar meus dados ao telefone, a jovem atendente um tanto constrangida me disse que infelizmente o único quarto ainda disponível tinha um lance de escada para ser superado. Mas, se a escada fosse um grande problema, ela poderia tentar trocar o quarto com outro hóspede.

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Não consigo me ver como alguém que anda curvado e usa uma bengala para manter o equilíbrio. Muito menos tenho dificuldade para subir um lance de escadas. Continuo bastante ativo, mantenho uma rotina puxada de exercícios e tenho um preparo físico melhor que muitos jovens.

Índice de massa corporal, pressão, índice de gordura corporal e exames médicos: estão ótimos. Continuo cheio de vontade de trabalhar e não me falta trabalho. Tenho um casamento feliz, bons amigos e grande curiosidade intelectual. Felizmente, não sou nenhuma exceção, muitos dos meus contemporâneos estão muito longe do estereótipo de velho que ainda está impregnado na nossa sociedade.

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Minha geração, a dos baby boomers, ganhou no mínimo mais 20 anos de expectativa de vida produtiva. As gerações subsequentes devem viver ainda mais. Mesmo assim, a percepção de grande parcela da população sobre a velhice não mudou.

Na disciplina de finanças pessoais que ministro na UFSC, recebo 210 alunos em cada semestre. Logo no início, eles precisam fazer um planejamento de vida que consiste em escrever um texto projetando cenários futuros da situação que gostariam de estar em 5, 10, 20 e 35 anos.

A idade média dos meus alunos é de 20 anos. Portanto, na projeção mais longa vão estar na casa dos 55. É impressionante observar como existe quase uma unanimidade em se enxergarem como velhos e aposentados. É comum que o cenário de 35 anos comece com a frase: “Aí, quando eu já estiver velho…”. Portanto, imaginam que aos 55 serão velhos aposentados. Isso, quando não projetam parar de trabalhar aos 40.

Da mesma forma que meus alunos, quando eu estava na universidade, sonhava em ganhar muito dinheiro e me aposentar aos 40 anos. Quando cheguei nessa idade, descobri que não tinha nem vontade nem condições financeiras para parar de trabalhar. Aos 50, já tinha uma situação econômica que me permitiria parar, porém me faltava vontade. Pensei, então, em seguir até os 60. Agora, quase sexagenário, não consigo sequer imaginar deixar de trabalhar. E, neste momento, desisto de estabelecer um limite.

Como observou o professor James W. Vaupel, uma das maiores autoridades mundiais em longevidade, a expectativa de vida está aumentando não com um aumento do tempo de velhice, mas, sim, com o prolongamento da vida adulta. Ou, com o atraso na entrada da velhice, pois o processo de envelhecimento está sendo adiado.

Hoje é comum pessoas na casa dos 60, 70 e 80 anos estarem com capacidade funcional, autonomia e independência semelhantes às de quem tem 40 ou 50 anos. Porém, nem tudo são flores; o copo que está meio cheio também está meio vazio. A longevidade é um bônus, mas também pode ser um ônus. O copo meio vazio é representado por pessoas que chegam à terceira idade com a saúde debilitada, dependendo da renda do sistema público de Previdência, cheias de preconceitos e com uma visão atrasada de mundo. Geralmente, são as pessoas que olham a vida pelo espelho retrovisor e enchem o peito para dizer: “no meu tempo que era bom!”.

Ora, a frase “no meu tempo” não faz nenhum sentido. Quem está vivo está vivendo o seu tempo. Quando eu era criança, meu pai sempre me dizia que eu tinha que ser tolerante com alguns velhos de relacionamento difícil com quem tínhamos que conviver. Naquele tempo, quando a sociedade era composta de 3% ou 4% de velhos, era fácil ser tolerante com alguns de temperamento difícil. Se eles se tornassem ranzinzas e impertinentes, não chegavam a ser um peso social. Eram como o vinagre na salada da vida.

Porém, em uma sociedade em que mais de um terço da população será composta de velhos, precisamos tomar muito cuidado para não azedar, uma vez que poucos terão paciência para aguentar tantos velhos mal-humorados, implicantes ou irritadiços.

A revolução da longevidade nos presenteou com 20 ou 30 anos de expectativa de vida boa. E o que faz a diferença para chegarmos nela sendo a metade do copo meio cheio? Essa metade é representada por pessoas que chegam à terceira idade com saúde, energia, vontade de viver, sem problemas financeiros e atualizadas.

Muito provavelmente, a diferença entre as pessoas representadas pelo copo meio cheio e pelo meio vazio surge na juventude. Pessoas de boa convivência, sem preconceitos e que cuidavam de suas finanças e sua saúde têm mais chances de manter e aprofundar esses comportamentos na terceira idade.

Portanto, os jovens devem se preparar desde muito cedo para viver bem a terceira e quarta idade. Quando um jovem se alimenta mal, dorme mal, é sedentário, abusa de álcool e drogas, não prejudica muito a sua juventude, mas acumula um passivo elevado para seu eu futuro. Quando um jovem não cuida das suas finanças, paga um preço não muito elevado no presente, porém a conta vai chegar muito pesada no futuro.

Quanto antes uma pessoa começa a se preparar para viver mais tempo, maior será a chance de transformar esse tempo em bônus. Porém, a pior coisa que alguém pode fazer é se lamentar de não ter começado a se preparar para a longevidade no passado. Nada podemos fazer para mudar o passado, mas podemos fazer muito para mudar o nosso futuro.

Minha sugestão é que você faça um balanço da sua vida e veja o que você pode fazer hoje a fim de se preparar para um futuro melhor. Pense como você pode melhorar sua saúde, suas finanças e sua visão de mundo para poder ser um velho com um espírito jovem. Para ser alguém com autonomia física, financeira e intelectual, com desejo de viver o tempo presente, o seu tempo.

Como disse o filósofo romano Marco Túlio Cícero: “Os homens são como os vinhos: a idade azeda os maus e apura os bons”. E aí, está se cuidando para não azedar?

 

Jurandir Sell Macedo Jr é doutor em finanças comportamentais, professor universitário e, desde 2003, ministra na Universidade Federal de Santa Catarina a primeira disciplina de finanças pessoais do Brasil. É autor de inúmeros livros sobre educação financeira e tem pós-doutorado em psicologia cognitiva pela Université Libre de Bruxelles. Escreve sobre Finanças 50+ quinzenalmente, às quintas-feiras. Instagram: @jurandirsell. E-mail: [email protected]

Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.

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