Por que a carne bovina está cara para o consumidor?

Diferente de inflação, valores são impulsionados por aumento dos custos produtivos .

Lygia Pimentel
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Giselleflissak_Gettyimages
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Alta da carne não é reflexo de inflação, mas sim do aumento dos custos produtivos da pecuária

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A alta da carne não para, apesar do preço do boi gordo ter caído nesse meio tempo, principalmente em outubro, e as pessoas estão querendo entender por quê? De onde vem essa pressão positiva? Algumas pessoas até vêm chamando, erroneamente, de inflação da carne. Esse termo é extremamente errado, até porque inflação é uma alta  generalizada de preços não concentrada em um produto só.

O que acontece é que a carne é o produto de uma matéria-prima que é o boi gordo. E o boi gordo subiu muito de preço, principalmente a partir do final de 2019, em resposta a alta dos custos de produção. Então, houve um ajuste de preços em decorrência de uma alta passada de custos produtivos que prejudicaram as margens e fizeram com que os produtores investissem menos na atividade. Investindo menos na atividade, a gente diminuiu a capacidade produtiva no segundo momento, a partir de 2019. E aí vimos o boi gordo subir muito e, consequentemente, a carne. A gente tem esse efeito inflacionário generalizado, porém, falando da carne bovina, temos uma resposta dos preços da carne à alta dos preços pecuários, que por sua vez estão respondendo aos custos de produção.

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Os custos produtivos da pecuária vêm em um processo de alta até mesmo antes da pandemia. Existe o chamado  ciclo pecuário. O ciclo pecuário é o seguinte: em anos de preços em alta, o pecuarista investe na atividade, aumenta a capacidade produtiva; depois, no segundo momento, os preços param de subir. E o contrário também é verdadeiro: quando os preços param de subir e variam abaixo da inflação, ou abaixo dos custos de produção, o pecuarista para de investir e reduz a capacidade produtiva. Isso é cíclico, deve ser respeitado e acontecer para que o pecuarista seja remunerado em um determinado ponto, volte a investir e aumente a disponibilidade do produto. Evitando que ele suba indefinidamente.

 

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O que nós estamos vivendo agora é justamente a fase de alta do ciclo pecuário, a fase em que os preços precisam variar acima dos custos, para que haja investimentos para que, no segundo momento, a carne pare de variar acima da inflação.

Você pode perguntar “mas os preços do boi gordo caíram em outubro, porque o Brasil parou de exportar para a China, o principal mercado, por qual motivo a carne no varejo não acompanhou essa queda?” O principal motivo é que os custos subiram mais do que o boi nesse período todo de 2019 para cá, o boi subiu mais que a carne no atacado e esta subiu mais que a carne no varejo. Ou seja, o varejo acabou ficando defasado. É difícil para o consumidor entender isso, até porque ele está sofrendo com os preços nas gôndolas. É difícil imaginar que a carne pudesse ter ido mais do que já foi, mas, de fato, os custos e o boi gordo subiram acima da carne.

Então, o varejo, nesse produto específico (não falando do mix), perdeu margem nesse produto e agora é a hora dele recompor essa margem. Uma outra questão importante é que agora, em novembro, o boi gordo recuperou essa queda de preços. Mesmo sem a China, os preços voltaram a patamares pré-suspensão. Ou seja, teria sido um esforço desnecessário para o varejo: imprimir uma queda e depois tentar imprimir uma alta no consumidor, que já está combalido pelo desemprego e pelo cenário inflacionário.

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