Somos todas mulheres

Roberta Alimonda relembra em sua coluna grandes mulheres para nos inspirarmos nelas, na suas lutas e coragem.

Roberta Alimonda
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Compassionate Eye Foundation/Getty Images
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Por anos acreditei que o Dia Internacional da Mulher era um dia para a mulher ser homenageada, valorizada e presenteada, pelo homem. Eu esperava mensagens, elogios ou pequenas ações de afeto que enfatizavam as minhas qualidades enquanto mulher, pelo viés e opinião masculinos. Eu aguardava receber essas demonstrações, assim como um cachorrinho aguarda o biscoito como recompensa por ser um bom garoto, ou no meu caso, uma boa garota. Esse foi o significado que a televisão, o comércio e a sociedade me passaram da data de hoje. À época, mal eu sabia, que na verdade, este dia é de extrema relevância. Um dia criado por mulheres, para mulheres.

Por volta de 1910, no contexto das lutas das mulheres contra a opressão e pela igualdade de direitos, a ativista alemã Clara Zetkin propôs, durante a Segunda Conferência Internacional das Mulheres Socialistas em Copenhague, a criação de um dia para reivindicar demandas e celebrar conquistas. No ano seguinte, como proposto, o Dia Internacional da Mulher passou a ser anualmente celebrado, na Áustria, Dinamarca, Alemanha e Suiça, no dia 19 de março. Neste dia, mais de um milhão de mulheres saíram pelas ruas reivindicando seus direitos civis, direito a voto, ao trabalho, aos estudos e treinamentos e a necessidade de representação feminina em cargos públicos e políticos. Menos de uma semana depois, no dia 25 de março, ocorreu o incêndio da fábrica Triangle Shirtwaist em Nova York, onde 140 mulheres imigrantes, na sua maioria judias e italianas, morreram consumidas pelo fogo ou se atirando janela abaixo. Esse terrível desastre trouxe ainda mais atenção às leis de trabalho dos Estados Unidos e manifestações se multiplicaram contra as condições insalubres que as mulheres eram submetidas. Alguns anos depois, na Rússia, ocorreram protestos por parte de trabalhadoras por melhores condições de vida e de trabalho e contra a entrada da Rússia na Primeira Guerra Mundial, os quais foram brutalmente reprimidos, dando origem ao início da grande Revolução de 1917. O protesto de maior importância se deu em 8 de março de 1917, pelo calendário gregoriano, data então instituída como o Dia Internacional da Mulher pelo partido das trabalhadoras da Russia. Em seguida vários países passaram a adotar a mesma data. Somente na década de 70, o ano de 1975 foi designado pela ONU como o Ano Internacional da Mulher e o dia 8 de março foi adotado igualmente pelas Nações Unidas, visando celebrar as conquistas sociais, políticas e econômicas das mulheres, independente de divisões nacionais, étnicas, linguísticas, culturais, econômicas ou políticas. Ainda se debate qual evento de fato iniciou o Dia Internacional da Mulher, diante das múltiplas manifestações e protestos da luta das mulheres por todo o mundo no decorrer da história.

Hoje, o que importa, mais do que nunca, é relembrar essas e outras grandes mulheres, e nos inspirarmos nelas, na suas lutas e coragem. Sem elas, não haveria liberdade e muitos de nossos direitos fundamentais não teriam sido conquistados. Nós os recebemos de presente, sem esforço algum, elas abriram os caminhos e hoje é nosso dever mantê-los abertos para as próximas gerações.

Nos tempos atuais, com a globalização e tecnologia, temos amplo alcance quando falamos do conhecimento da violação dos direitos das mulheres e da luta pela igualdade de gêneros. Não há como ignorar a existência das crises e causas complexas que milhões de mulheres enfrentam diariamente pelo mundo, fazendo todas nós responsáveis umas pelas outras. Muitas vitórias foram alcançadas no ano de 2020, mesmo em meio a pandemia. Entre muitas, celebro profundamente países que baniram a mutilação genital feminina, como o Sudão, que em média 86% das suas mulheres e meninas já passaram por esse procedimento terrível. Celebro também a iniciativa e vitória de Monica Lennon do Parlamento da Escócia, o país se tornou o primeiro a oferecer produtos de higiene pessoal gratuitos para meninas e mulheres. Em muitos países, milhares de mulheres enfrentam a escassez de produtos de higiene e preconceito em relação à menstruação, trazendo consequências seríssimas como interrupção e abandono dos estudos e abusos. A Nova Zelândia merece todo o reconhecimento, tendo aprovado o projeto lei de pagamento de salários sem distinção em razão de gênero, quando relacionados ao mesmo cargo e função. Em seguida a Espanha seguiu o exemplo, requerendo o mesmo de empresas e em caso de violação, altas multas serão cobradas.

Existem inúmeros motivos para celebrar o Dia Internacional da Mulher, todos os dias, nós mulheres, criamos grandes vitórias. Para o equilíbrio e bom funcionamento da sociedade precisamos estar ativas, precisamos estar na mesa onde grandes decisões são tomadas, precisamos continuar a desenvolver, pesquisar, educar, investir, gerir e comandar. Precisamos ser fortes sim e quebrar estereótipos. Não vamos permitir que tentem calar nossas vozes, para não incomodar, muito pelo contrário, não há mais espaço para tentar nos silenciar.

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Somos todas,

Mulheres.

Roberta Alimonda é advogada, ativista dos direitos humanos, mestre em Resolução de Disputas Internacionais (MIDS L.L.M) pela Universidade e Instituto de Pós-Graduação de Estudos Internacionais e de Desenvolvimento de Genebra (IHEID)

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