Você é eficiente em tomar decisões?

Hinterhaus Productions/Getty Images
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Use as emoções a seu favor no momento de decidir – apenas observe se essas emoções não são baseadas em vieses inconscientes que podem atrapalhar em vez de ajudar

Não foram poucas as vezes que, ao longo desses últimos 20 anos de vida profissional, me deparei com a frequente dificuldade de empreendedores, intraempreendedores e alunos em tomar decisões. Das mais simples, corriqueiras do dia a dia, àquelas com o poder real de transformar negócios e carreiras. Embora as circunstâncias fossem diferentes para cada uma das situações, algo comum à maioria delas envolvia traços de comportamento, muito mais do que habilidades técnicas exigidas para a tomada de decisão.

Quando falo de comportamento, falo sobre algo que o livro “Inteligência Positiva” classifica como o sabotador “Esquivo”. É um traço comum a muitas pessoas que têm o hábito de fugir de tarefas, conflitos ou decisões difíceis. Como características principais também estão: diminuir a importância de problemas reais, a dificuldade em dizer não, a procrastinação… Isso tudo para evitar tomar decisões que tragam sensações desagradáveis.

Quem tem esse sabotador entre os seus mais fortes tende ainda a acreditar que precisa evitar tomar a decisão naquele momento “até estar mais preparado”, “até ter mais certeza de para onde ir”, “até a equipe estar pronta”, a lista é extensa. E aí, o refletir demais dá espaço à procrastinação. Aqui te convido a refletir sobre as suas próprias resoluções: quão forte é o seu sabotador esquivo no momento de tomar uma decisão?

Por outro lado, existe um mito de que decidir bem é decidir rápido. A linha é tênue entre você procrastinar conscientemente ou não. Isso porque de um lado pode achar que precisa de mais tempo, ou você sair correndo sem analisar as opções para resolver. Decisão rápida não necessariamente é uma decisão boa. Você consegue mapear o seu limite?

E mais, acredito ser fundamental observar no que as suas decisões se embasam. Gosto de colocar o objeto da minha decisão sempre no centro e me basear em dados. E recomendo sempre aos meus alunos, mentorados, sócios ou colaboradores a fazerem o mesmo.

Preciso decidir sobre uma nova vertente de negócios, produto ou serviço? Vou ouvir primeiro a minha persona, meu cliente em potencial e basear a minha decisão na melhor forma de sanar a sua dor. Ou então, vou escutar a minha equipe, que é quem está próxima muitas vezes das ações operacionais e aí sim tomar a decisão.

Não estou dizendo para não ouvir o tradicional “feeling” ou ignorar outros elementos que possam ajudar você a resolver determinada situação, mas acho importante que você observe sim com quais elementos está trabalhando para que sua resolução seja o mais assertiva possível.

Inclua no raciocínio também a análise sobre quais são as pessoas que você deve consultar. “Essa é uma decisão só minha, não preciso envolver os outros” já derrubou muita empresa com potencial. Não, você não é uma ilha. Necessariamente o que você resolver vai impactar de alguma forma quem está ao lado. Observe, escute, saia da sala de vidro, gaste sola de sapato para garantir que você escutou quem é relevante e que tem os insumos necessários para seguir.

Emoção ajuda ou atrapalha?

Não é de hoje também que escuto que as melhores decisões são aquelas tomadas apenas com a razão. Aqui vale um passo atrás e uma reflexão.

O renomado neurocientista Antonio Damasio apresenta um estudo de caso bastante interessante. Um de seus pacientes, executivo de destaque, passou por uma cirurgia e teve parte do seu cérebro removido. O impacto da operação fez com que ele mantivesse intactas sua memória, sua habilidade motora, de reconhecimento, mas fez com que ele não tivesse mais emoções.

Seu processamento racional de informações permaneceu inalterado, mas seu cérebro passou a ser incapaz de gerar emoções. Isso fez com que ele não conseguisse nem sequer tomar decisões básicas, o que ajudou a mostrar sua tese de que nossas decisões não são puramente baseadas em lógica.

Emoções trabalham no subconsciente para ajudar nos guiar. Ou seja, use as emoções a seu favor no momento de decidir – apenas observe se essas emoções não são baseadas em vieses inconscientes que podem atrapalhar em vez de ajudar.

Quando se está do lado de lá do balcão, à frente de um negócio ou articulando a venda de um produto ou serviço, a reflexão sobre as emoções também é muito válida. Como seu cliente compra? Por que ele escolhe – ou deveria escolher – um determinado serviço ou produto? A resposta básica, claro, pode ser a necessidade, preço, mas a emoção também conta muito.

Pessoas tendem a preferir marcas e produtos que capturam a sua emoção, que dialogam com sua realidade. O escritor Erik du Plessis coloca isso muito bem para o marketing. Ele identificou seis áreas que são importantes para anúncios e estratégias de marketing terem efeito. Os primeiros três elementos são os mais importantes em gerar emoções positivas: empatia, informações relevantes e entretenimento/diversão. Ou seja, articular o lado emocional do seu cliente com ao menos esses três elementos, pode ser extremamente valioso para que ele possa tomar a decisão.

Cabeça boa para decidir

Gosto sempre de bater na tecla sobre a importância de usar as horas mais produtivas do dia para tomar as decisões importantes e evitar a fadiga de decisão.

Esse é o conceito que indica a deterioração da qualidade das escolhas em virtude de longas horas de trabalho e decisões. Ao longo do dia, você toma várias decisões, das mais simples às mais complexas. Isso preenche sua cabeça, seu cérebro de tal maneira que as escolhas deixadas para as horas mais avançadas do dia podem, por exemplo, não serem as melhores.

Eu normalmente deixo as primeiras horas do meu dia, pela manhã, para me concentrar nas coisas mais importantes, focar e tomar as decisões mais relevantes primeiro. Jeff Bezos, criador da gigante Amazon, em uma entrevista há alguns anos detalhou ser adepto dessa prática, deixando os temas mais relevantes para serem trabalhados até as 12h. Decisões importantes nunca passam das 17h, de maneira a focar na qualidade e no rendimento.

Por fim, fica meu convite à essa reflexão sobre o seu perfil decisor. Existem traços que podem ser melhorados para que a qualidade das suas decisões seja aprimorada? Você pode escutar mais gente, procrastinar menos? Pode usar a emoção a seu favor tanto para decidir quanto para se conectar com seu cliente?

De tempos em tempos, revisitar temas como esse ajudam muito a melhorar nossos comportamentos e nosso desempenho. O que pode melhorar na sua tomada de decisão?

Camila Farani é um dos “tubarões” do “Shark Tank Brasil”. É Top Voice no LinkedIn Brasil e a única mulher bicampeã premiada como Melhor Investidora-Anjo no Startup Awards 2016 e 2018. Sócia-fundadora da G2 Capital, uma butique de investimentos em empresas de tecnologia, as startups.

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