Impacto positivo não exige perfeição, mas ética

Longe de ideias maniqueístas, é preciso refletir sobre a equalização dos resultados positivos e negativos de uma empresa e do legado deixado por ela

Haroldo Rodrigues
Compartilhe esta publicação:
iStock
iStock

Avaliar o impacto de um negócio na sociedade requer uma abordagem sistêmica que considere o que é bom e o que é ruim, sem incorporar uma visão maniqueísta

Acessibilidade


Um dos princípios mais importantes da economia é a ideia de diminuir os retornos marginais. É assim que funciona. A busca da perfeição pode ser irracional porque o esforço necessário para atingir a perfeição é provavelmente infinito.

Na prática, buscar a perfeição pode criar estresse desnecessário que pode resultar em um resultado pior. Se existe uma certeza na vida é que somos todos imperfeitos e sempre temos algo que podemos melhorar. Podemos sempre comer melhor, trabalhar um pouco mais, fazer um pouco mais de exercícios e assim por diante. Ignorar esses defeitos leves, mas teimosos, pode nos ajudar a desfrutar de nossas realizações, grandes ou pequenas.

“O perfeito é inimigo do bom”, aprendi ser essa expressão atribuída a Voltaire, filósofo francês do Iluminismo. Alguns Filósofos anteriores estabeleceram a ideia do “comedimento ou meio-termo”, que é o resultado desejável entre dois extremos. O ponto em comum que eles estavam tentando transmitir é este: a perfeição é impossível.

Bebendo dessas fontes, devemos ver as empresas sob a mesma luz. Nenhuma empresa é perfeita. Cada empresa pode aumentar seu valor para a sociedade e/ou reduzir seus danos. O atendimento ao cliente sempre pode ser melhor, os produtos sempre podem beneficiar mais os consumidores, a produção sempre poderá usar menos recursos ou ser menos onerosa para o planeta, e assim por diante.

Avaliar o impacto de um negócio na sociedade requer uma abordagem sistêmica que considere o que é bom e o que é ruim. Sem incorporar uma visão maniqueísta. Por exemplo, o processo de produção de uma determinada empresa farmacológica que adiciona gases de efeito estufa à atmosfera resulta num impacto ambiental negativo. No entanto, o produto resultante desse processo é um medicamento inovador contra o câncer, um remédio que salva vidas! O que fazer? A empresa pode: ou, muito bem ser capaz de melhorar seu impacto no mundo reduzindo suas emissões, mas sem que seja julgada por um padrão de perfeição; ou, ser desligada por causa de suas emissões de gases de efeito estufa, perdendo a sociedade o acesso à eficácia do tratamento terapêutico. As circunstâncias e o equilíbrio são critérios de justiça social.

Inscreva-se para receber a nossa newsletter
Ao fornecer seu e-mail, você concorda com a Política de Privacidade da Forbes Brasil.

Ainda prosseguindo com o exemplo, se determinado investidor adotar uma avaliação ética para julgar o impacto social da empresa, então é possível medir se as vidas salvas com o uso da droga inovadora contra o câncer superam as vidas perdidas devido às emissões de gases de efeito estufa, que são o subproduto de sua produção. Em caso afirmativo, o investidor deve considerar o impacto positivo que a empresa tem na sociedade e, ao mesmo tempo, discutir formas de aumentar o valor global dessa contribuição por meio da redução de seus processos negativos.

Avaliar as empresas com a lente ética dos negócios pode nos permitir maximizar o benefício total para a sociedade no presente, ao mesmo tempo em que fornece caminhos para aumentar esse benefício para a sociedade no futuro.

Identificar o impacto positivo de um negócio é de importância crucial. Existem muitas empresas que falam sobre impacto social ou ambiental, mas não conseguem definir o que é. O legado de uma empresa não é resultante de sua perfeição, mas sim de seus valores éticos.

Haroldo Rodrigues é sócio fundador da investidora in3 New B Capital S. A. Foi professor titular e diretor de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação da Universidade de Fortaleza e presidente da Fundação de Amparo a Pesquisa do Ceará.

Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.

Compartilhe esta publicação: