A importância dos legados artísticos de Abraham Palatnik e Carlito Carvalhosa

Leo Aversa
Leo Aversa

Daniel Roesler, Rodolpho Parigi, Angelo Venosa, Milton Machado, Nara
Roesler, Marcos Chaves, Abraham Palatnik, Carlito Carvalhosa, Eduardo Coimbra e Vik Muniz, no Arpoador (RJ) em 2014.

Nestes dois anos que rimam perda com pandemia, nossa galeria viu o desaparecimento de dois artistas extraordinários, muito diferentes entre si, pelos quais eu nutria grande admiração, afeto e amizade. Coincidentemente, ambos se foram no mês de maio, Abraham Palatnik foi levado pela Covid-19 aos 92 anos em 2020 e, recentemente, aos 59 anos, Carlito Carvalhosa, pelo câncer.

Foi o crítico de arte Frederico de Moraes quem me apresentou a Palatnik em 1989. De imediato fiquei alucinada por seu trabalho. Sua personalidade combinava a genialidade própria dos inventores com uma postura humana. Desde o início sua obra surpreendeu. Por ocasião da 1ª Bienal de São Paulo, em 1951, nem os juízes do precursor evento sabiam como classificá-la conforme exigia o dogma plástico que regia a arte até então, afinal, não era pintura, tampouco escultura. Mas a engenhosa composição feita de movimento e luzes acabou por vencer a mentalidade tacanha, apoiada pelo vanguardista Mario Pedrosa que a batizou Aparelho Cinecromático. A ideia daquela obra inicial foi o estopim para a série de Aparelhos Cinecromáticos que entrou para a história da arte, marcando o pioneirismo do artista no campo do cinetismo luminoso.

Quando o conheci ele havia diminuído sua produção plástica, pois assumira a direção artística da fábrica de resina da família. Estava recolhido após ter participado em grandes exposições no Brasil e na Europa, como a Bienal de Veneza. Minha missão foi dar visibilidade à sua produção, a começar por uma retrospectiva na galeria em São Paulo, seguida da inserção de sua obra em importantes coleções no Brasil e no exterior. Hoje, Palatnik faz parte do seleto time de artistas latino-americanos de renome internacional com obras em museus referenciais, entre os quais, o MoMA de Nova York e o Museu de Houston (MFAH), no Texas, que abriga um dos acervos mais representativos das artes plásticas da América Latina.

O trabalho de Carlito Carvalhosa, por sua vez, também chamou atenção logo no início de sua produção em meados da década de 1980. O rapaz alto de sorriso largo, cheio de ideias e indagações intelectuais, que sonhava ser desenhista de história em quadrinhos, foi um dos fundadores, com Nuno Ramos, Paulo Monteiro, Rodrigo Andrade e Fabio Miguez (também artista da galeria), da Casa 7, o grupo de cinco rapazes que converteu uma casinha de vila de número 7 em ateliê e hoje são nomes da nossa arte contemporânea. A turma da Casa 7 rechaçou a ideia então apregoada que a pintura estava para ‘morrer’ produzindo telas de pegada expressionista com temas pop de forte apelo visual em materiais industriais baratos, como o esmalte sintético sobre papel de embrulho kraft. Depois dessa fase, a obra de Carlito germinou desdobramentos inesperados. Sua irreverência criativa fincou uma pequena floresta dentro de um museu, em outra oportunidade, atravessou a sala da galeria com enormes troncos e postes de madeira. Montou uma instalação sensorial em 2016 no espaço Octógono da Pinacoteca de São Paulo no qual um concerto de piano aconteceu em meio a véus brancos tocado por um pianista invisível – o pianista era ninguém menos que Philip Glass. Em 1991/92, produziu relevos feitos em cera sobre madeira e, a partir de 2002, pinturas sobre superfícies espelhadas, integrando a imagem do observador à obra. O que buscava nos materiais era o fato de serem comuns, banais, ‘invisíveis’, como os definia: cera, gesso, tecidos, copos, luzes, postes, espelhos etc.. Sua intenção final era esvaziá-los da função primeira e forma tradicional para nessa transformação posicioná-los em outro patamar e assim impregná-los com ideias conceituais, elevando a narrativa ao sublime. Entre as várias individuais que fez a mais importante aconteceu em 2011 no MoMA, em Nova York. Certa vez, perguntei a Carlito sobre seus planos, a resposta veio em inglês. Parafraseando a conhecida máxima musical do jazz, disse pensativo: “So little time (so much to do)” (“Tão pouco tempo (tanto a fazer)” em tradução livre).

Em homenagem a esses artistas estelares nossa galeria publicará dois livros fartamente ilustrados sobre suas trajetórias. Até o final do ano teremos o lançamento do livro dedicado a Abraham Palatnik e, em 2022, o livro sobre a obra de Carlito Carvalhosa. Tão pouco tempo, tanto a fazer…

Com colaboração de Cynthia Garcia, historiadora de arte.

Nara Roesler fundou a Galeria Nara Roesler em 1989. Com a sociedade de seus filhos Alexandre e Daniel, a galeria em São Paulo, uma das mais expressivas do mercado, ampliou a atuação inaugurando no Rio de Janeiro, em 2014, e no ano seguinte em Nova York.

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