Dona de Si: Corte o machismo do seu ambiente de trabalho

É preciso compreender que nem sempre as atitudes machistas no ambiente profissional acontecem de maneira escancarada, como em um caso de assédio moral ou sexual.

Suzana Pires
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Malte Mueller/Getty Images
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O machismo no trabalho pode começar com uma mão no ombro, um abraço mais forte, mensagens em horas impróprias e sem motivo

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O machismo ainda é algo que está, infelizmente, intrínseco em nossa sociedade. Desde muito cedo, meninos e meninas aprendem o que é correto fazer, o que devem vestir, como devem falar e se comportar, separando tudo isso pelo gênero. Apesar de sermos – ainda bem – pessoas capazes de se desconstruir e evoluir, ainda há um longo caminho a ser percorrido. Uma pesquisa divulgada neste ano pelo PoderData mostrou que 83% dos brasileiros dizem haver machismo no Brasil, mas apenas 11% se consideram machistas. Curioso, né? Talvez seja o grande fenômeno brasileiro da falta de autoconhecimento.

Ainda que as pessoas estejam em desconstrução, muitos comportamentos machistas são tão repetidos que parecem “normais” e isso não significa, nem de longe, que devem ser tolerados, que podemos “deixar para lá”. Você, mulher, não precisa mais, nem por um momento, abaixar a cabeça e sorrir quando se sentir desconfortável.

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Hoje vamos falar como você, caríssima, pode se empoderar ainda mais de si própria, lidar com um chefe e/ou líder machista, do gênero masculino ou feminino, colocando-o em seu lugar, e ainda saindo por cima, poderosa, sem a necessidade de guardar todos os seus sentimentos apenas para si. Você não só pode, como deve começar a agir! É válido salientar que há uma diferença entre agir e reagir. Reagir é emocional e agir é pensado, racional e estratégico.

O primeiro passo é estar ciente de quem você é, do seu valor como pessoa e como profissional, dos limites que você pode quebrar; e, então, identificar o que é ou não um comportamento machista. Nós, mulheres, também estamos em evolução e desconstrução e, por isso, muitas vezes, podemos não perceber quando algo está errado, já que há muitos anos fazemos parte e reproduzimos essa cultura machista. É preciso compreender que nem sempre o machismo no ambiente de trabalho acontece de maneira escancarada, como em um caso de assédio moral ou sexual. Muitas vezes é algo sutil, reproduzido em diversas situações do cotidiano. Por exemplo: você não alcançar posições de liderança, não ser dado a você a confiança de gestar milhões ou não ser digna de ser ouvida. Isso é sutil e é imperioso que você passe a assumir que acontece com você, porque está acontecendo, sim!

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O machismo acontece, por exemplo, quando uma mulher é interrompida ao falar. De acordo com um estudo publicado pela pesquisadora Adrienne Hancock, da Universidade George Washington, as mulheres tendem a ser mais vezes interrompidas desnecessariamente. Neste caso, apenas continue falando, com o mesmo tom de voz, como se não tivesse percebido o “espertão” que está tentando te cortar! Ou diga frases como “por favor, deixe eu terminar a minha fala”, ou “espere que eu conclua o meu raciocínio”. Apenas não deixe que ele passe por cima de você.

Outra situação bastante comum em ambientes de trabalho é o homem pressupor que a mulher não sabe fazer algo ou não entende de determinado assunto e começar a tentar “ensiná-la”. Muitas vezes ocorre de um homem leigo querer explicar um assunto no qual a mulher é especialista. Parece piada, né? Mas acontece e está na hora de cortarmos isso de uma vez por todas.

Nem mesmo as “piadas bobas” sobre TPM ou comentários “elogiosos” sobre a sua roupa, corpo ou aparência devem ser levados como algo normal. Simplesmente porque não são. Sabemos que há casos que ultrapassam apenas comentários e começam a se tornar realmente constrangedores, dificultando, inclusive, o seu rendimento e vontade de trabalhar. Já conheci mulheres que desistiram de empregos importantes por não saberem como lidar com situações machistas e abusivas.

Tudo começa com uma mão no ombro, um abraço mais forte, mensagens em horas impróprias e sem motivo. Esses são alguns dos primeiros sinais de que algo está muito errado. A minha dica para você é: corte esse tipo de comportamento pela raiz, desde o início e dê uma lida na coluna sobre como denunciar um assédio aqui.

Por mais difícil que seja, já que muitas vezes esses abusos vêm de pessoas superiores, você pode sim se posicionar e dizer que não se sente confortável. Por exemplo, se começar a receber mensagens inoportunas, fora do seu horário de trabalho, diga que gostaria que as conversas se mantivessem apenas no ambiente profissional. No caso de uma mão no ombro ou abraços mais “calorosos”, afaste-se, mostrando o quanto aquilo lhe deixa desconfortável. Você não é obrigada a aceitar esses comportamentos.

Entenda que se nós, mulheres, não começarmos a nos posicionar e cortarmos o machismo pela raiz, esse tipo de atitude continuará na sociedade e, talvez, ficará até mais forte. Nos posicionarmos não é algo que devemos fazer apenas por nós, para tornarmos o nosso ambiente de trabalho mais agradável; reprimir esses comportamentos é algo que deve ser feito por todas as mulheres, pelas meninas que ainda estão na escola, pelas adolescentes que estão começando a perceber algumas situações e, até mesmo, pelas mulheres que ainda nem nasceram.

Tenha isso em mente: quando você muda a sua realidade e consegue mostrar para o homem o quanto ele está sendo machista, estará ao mesmo tempo mudando a realidade de outras milhares de mulheres. Leve essa certeza contigo. E que nossa liberdade de existir e de escolher seja sempre defendida.

Sororidade sempre.
Suzana Pires.

Primeira atriz também autora de novelas do Brasil, a empresária e empreendedora social Suzana Pires é formada em filosofia pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-RJ), em showrunner na MediaXchange, em Los Angeles, e em empreendedorismo pelo Empretec Sebrae SP. Depois que começou a escrever a coluna Dona De Si, em 2017, surgiu a ideia de criar o Instituto Dona De Si, com o principal objetivo de acelerar talentos femininos. Atualmente, segue como atriz na Rede Globo de Televisão e como autora cria projetos para players nacionais e internacionais através da marca Dona De Si Conteúdos.

Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.

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