Dona de Si: Entenda como é possível hackear o sistema misógino e mudar o mercado de trabalho

Muitas mulheres passam por situações desagradáveis no ambiente profissional e sentem medo de se posicionar por temer represálias.

Suzana Pires
Compartilhe esta publicação:
vgajic/Getty Images
vgajic/Getty Images

Não é mais aceitável o pensamento de que, se alguma mulher está em algum cargo de liderança, é por outros mil motivos, menos por causa de seu talento e determinação

Acessibilidade


Caríssima Dona De Si, sei que muitas vezes nos sentimos cansadas de repetir o mesmo discurso, pois parece que estamos, literalmente, chovendo no molhado. Mas a questão é que a misoginia ainda é extremamente frequente no dia a dia de todas as mulheres, e isso não seria diferente no mercado de trabalho. Muitas vezes podemos nos sentir repetitivas em ter que levantar esse assunto, porém, enquanto a realidade não for diferente, é importante não deixarmos essa pauta de lado.

Aí você se pergunta: o que é misoginia? E eu te respondo: são agressões verbais, muitas vezes disfarçadas de simpatia e algumas vezes sem disfarce mesmo. Um exemplinho: o seu chefe só fala com você te chamando de “meu amorzinho.” Ele te diminui, te retira do lugar profissional e ainda estabelece para todos a maneira desrespeitosa de te tratar. Entendeu? Lembrou?

LEIA TAMBÉM: “Meu papel é incentivar mais meninas a andarem de skate”, diz Leticia Bufoni

Uma pesquisa do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (UNDP) divulgada no ano passado mostrou um dado muito importante: quase 90% das pessoas são preconceituosas em relação às mulheres e à equidade de gênero. O levantamento mostrou que 91% dos homens e 86% das mulheres têm restrições contra a mulher em relação à política, economia, educação, violência e direitos reprodutivos. Além disso, quase 50% dos homens e mulheres consideram o homem superior como líder político e 40% julgam que ele é um executivo melhor. Já cerca de 30% de ambos os sexos acham aceitável o homem bater na esposa ou companheira.

Sim, eu sei, esses números são assustadores! Muitas vezes estamos tão fechadas na nossa “bolha social” que não percebemos a realidade. Ainda há muito para evoluir – disso eu não tenho dúvidas. Mas, para não te deixar com pensamentos negativos, acredito, fielmente, que é possível aprendermos juntas e nos tornarmos cada dia melhores enquanto sociedade. Por isso, hoje, a minha ideia é contribuir para essa conscientização e te mostrar como é possível hackear esse sistema misógino.

Inscreva-se para receber a nossa newsletter
Ao fornecer seu e-mail, você concorda com a Política de Privacidade da Forbes Brasil.

Se pensarmos no significado da palavra hackear, chegaremos a algo parecido com “burlar a segurança de um sistema”, e é isso que eu acredito que nós, mulheres, podemos e devemos fazer nas mais diversas áreas da nossa vida e, inclusive, no mercado de trabalho.

A primeira coisa que é importante entendermos é que, de nenhuma maneira, precisamos ter medo de ser quem somos. Além disso, não podemos aceitar tudo com um sorriso no rosto. Não, caríssima, você não precisa engolir todos os sapos do mundo sorrindo; você pode ser educada e, ao mesmo tempo, mostrar a sua força. Colocar-se e estabelecer limites de maneira suave e educada.

Esses dias estava conversando com uma mulher e ela contou que, em meio à uma reunião de trabalho, quando chegou o seu momento de falar, o seu colega disse: “agora pode falar, para embelezar a nossa reunião”. Ela deu um sorriso sem graça e engoliu seco, mesmo se sentindo extremamente desconfortável. Entendo que somos pegas de surpresa, que nos sentimos mal, ficamos retraídas e não sabemos como reagir. Mas precisamos aprender a lidar com isso. Apenas sabendo o que fazer é que, aos poucos, conseguiremos mostrar o quanto esse tipo de atitude é, sim, misógina.

Não dá mais para sorrirmos para tudo. Precisamos falar, nos impor e mostrar que não iremos aceitar mais esse tipo de situação. No exemplo que dei anteriormente, bastava dizer “obrigada, mas não estou aqui para embelezar, tenho minhas considerações para realmente contribuir com o debate” ou algo nesse sentido. Aos poucos, conseguiremos mostrar o que não é mais aceitável.

Não é mais aceitável brincadeiras com a nossa aparência, abraços desrespeitosos, convites indesejados. Não é mais aceitável que deslegitimem o nosso sucesso simplesmente por sermos mulheres. Não é mais aceitável o pensamento de que, se alguma mulher está em algum cargo de liderança, é por outros mil motivos, menos por causa de seu talento e determinação.

Sim, caríssima, você não só pode como deve se posicionar. Mostre para que veio ao mundo! Acredite em você, na sua força, capacidade e talento. Não tenha medo ou dúvidas de como chegou onde está, não deixe que a “impostora” te domine. Você merece o que tem, merece ir além, merece se desenvolver.

Quando começar a não ter mais dúvidas sobre si própria, será mais fácil se impor e mostrar a sua força. Acredite em mim, só você pode mudar a sua realidade.

Sororidade sempre.
Suzana Pires.

Primeira atriz também autora de novelas do Brasil, a empresária e empreendedora social Suzana Pires é formada em filosofia pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-RJ), em showrunner na MediaXchange, em Los Angeles, e em empreendedorismo pelo Empretec Sebrae SP. Depois que começou a escrever a coluna Dona De Si, em 2017, surgiu a ideia de criar o Instituto Dona De Si, com o principal objetivo de acelerar talentos femininos. Atualmente, segue como atriz na Rede Globo de Televisão e como autora cria projetos para players nacionais e internacionais através da marca Dona De Si Conteúdos.

Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.

Siga FORBES Brasil nas redes sociais:

Facebook
Twitter
Instagram
YouTube
LinkedIn

Siga Forbes Money no Telegram e tenha acesso a notícias do mercado financeiro em primeira mão

Baixe o app da Forbes Brasil na Play Store e na App Store.

Tenha também a Forbes no Google Notícias.

Compartilhe esta publicação: