Dona de Si: Por quais motivos as mulheres continuam falindo ou desistindo de seus próprios negócios?

MoMo Productions/Getty Images
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Muitas mulheres desistem de seus empreendimentos e sonhos para se dedicar aos outros, oprimidas pela sobrecarga de ser uma boa dona de casa, mãe e esposa

Empreender é um ato de coragem. Além de sonhar, é preciso acreditar em si mesma, ter organização, metas e objetivos claros. A junção desses fatores faz com que, muitas vezes, o pensamento de ser a própria chefe seja adiado, pois o medo acaba sendo maior do que a vontade de fazer acontecer. Outras vezes, o ato de empreender ocorre por não existir outra opção, ainda mais em um país em que o número de desempregadas é cada vez maior.

Ao mesmo tempo, não podemos fechar os olhos para o fato de que nós mulheres fomos, de longe, as mais prejudicadas pela pandemia, em diversos setores. De acordo com uma pesquisa realizada pelo IPq (Instituto de Psiquiatria) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), nós fomos mais afetadas emocionalmente, respondendo por 40,5% dos sintomas de depressão, 37,3% de estresse e 34,9% de ansiedade. Um levantamento global feito pela consultoria McKinsey & Company apontou que o risco de demissão de mulheres em razão da pandemia é quase duas vezes maior que o de homens.

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Já a taxa de participação feminina na força de trabalho ficou em 45,8%, o nível mais baixo desde 1990, quando ficou em 44,2%, segundo um outro estudo, realizado em 2020, pelo Pnad Contínua, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Em contrapartida, no Brasil, nós somamos mais de 30 milhões, de acordo com a Global Entrepreneurship Monitor (GEM), o que representa 47,8% do mercado empreendedor. No entanto, seguimos sendo as que mais chegam à falência, ou desistimos do nosso próprio negócio, antes dos três anos de funcionamento. E isso acontece por diversos fatores.

Se você, caríssima, começou a empreender, seja por vontade própria ou por necessidade, e está chegando em um momento de quase desistência, sentindo-se fraca e incapaz, eu preciso primeiro te contar uma coisa: você não tem culpa. Não pense que é menos inteligente ou capaz do que qualquer outro empreendedor, que o seu negócio não vai para a frente porque você não faz nada direito. Esta não é a realidade, nem de longe. A questão é que passamos por três questões principais que nos prejudicam: sobrecarga, opressão misógina e solidão.

Pense no seguinte cenário: quando um homem resolve abrir o seu próprio negócio, ele irá focar naquilo 100% do seu tempo. Raramente terá outras preocupações que não estejam ligadas ao seu trabalho. Você, no entanto, não pode deixar nada de lado. Um estudo divulgado pelo IBGE mostrou que nós dedicamos quase o dobro do tempo que os homens aos serviços domésticos. A responsabilidade pelos filhos também acaba ficando com a gente, na maior parte do tempo.

Nós sabemos que a sociedade aceita muito melhor um homem que deixa de fazer tudo para se dedicar ao trabalho – mesmo que isso signifique que ele seja um pai e marido ausente. Normalmente, esse homem é, inclusive, elogiado. Já você, caríssima, se não for uma boa dona de casa, mãe, esposa, filha, amiga, entre outras mil funções, não será benquista e bem-vista. Essa sobrecarga faz com que você não consiga dar conta de todas as tarefas, e isso a faz desistir de seus próprios empreendimentos e sonhos para se dedicar aos outros. Cuidado: diga mais sim para você e não para a demanda dos outros. Exerça seus limites e reconstrua seu dia-a-dia não se deixando ser explorada pela carência alheia. Mostre isso também aos seus filhos e filhas para que eles entendam que “mamãe ama trabalhar” e que isso é digno.

Outro fator é consequência da sobrecarga. Normalmente, a mulher sobrecarregada vive, automaticamente, a opressão misógina. Isso acontece, caríssima, quando o seu marido fala para você que o seu trabalho está atrapalhando a família, que ele não pode ficar o sábado inteiro com o filho que vocês dois fizeram para que você se dedique à sua vida profissional, por exemplo. Tenho a impressão de que nunca ficarão satisfeitos: se você se dedica 100% a ser mãe e dona de casa, cedo ou tarde, vão te falar que você não tem independência. Se você se dedica ao trabalho, irão reclamar da sua ausência, mesmo que ela seja mínima ou pouco frequente. A opressão chega para todas nós.

Esses dois fatores levam à solidão, que é quando você se sente perdida, fracassada, sem perspectiva. Eu sei, minha amiga, parece que você é a única pessoa do mundo que não conseguiu chegar lá. Eu quero que saiba que não é. Sei que parece muito difícil, quase impossível equilibrar todas as coisas – e realmente é. Por isso sempre digo e gosto de reafirmar em todas as oportunidades: pense sempre em você, no que irá te fazer feliz e completa. Será impossível agradar a todos, mas é possível ser feliz dentro da sua verdade. E isso deve ser sempre o bastante.

Nós, mulheres, não estamos falindo ou desistindo de empreendimentos por falta de inteligência, objetivos concretos ou organização. Isso acontece porque, na realidade, muitas vezes desistimos de nós mesmas, cedemos à opressão e vivemos em dedicação à demanda dos outros. Isso não é vida. Isso é a não vida que o patriarcado quer que você tenha, para que ele tenha poder e sucesso. É hora de entender essa dinâmica perversa, acreditar em si mesma e começar a existir no mundo.

Caríssima Dona de Si, quebre esse teto de cristal e vá viver!

Sororidade sempre.
Suzana Pires.

Primeira atriz também autora de novelas do Brasil, a empresária e empreendedora social Suzana Pires é formada em filosofia pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-RJ), em showrunner na MediaXchange, em Los Angeles, e em empreendedorismo pelo Empretec Sebrae SP. Depois que começou a escrever a coluna Dona De Si, em 2017, surgiu a ideia de criar o Instituto Dona De Si, com o principal objetivo de acelerar talentos femininos. Atualmente, segue como atriz na Rede Globo de Televisão e como autora cria projetos para players nacionais e internacionais através da marca Dona De Si Conteúdos.

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