Reflexões sobre a busca pela perfeição na era digital

Tenho retornado com frequência ao tema da simplicidade e procurado me distanciar das noções tradicionais de perfeição..

Marvio Portela
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Market Analyze with Digital Monitor focus on tip of finger.

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Pensando em questões relativas à como organizações precisam se organizar para responder às demandas amplificadas de transformação digital e mudanças de modelos de negócio, tenho retornado com frequência ao tema da simplicidade e procurado me distanciar das noções tradicionais de perfeição.

À medida em que as necessidades da sociedade em geral ficam mais sofisticadas com o avanço digital, observo que há um afã por parte das organizações de tornar a resposta a estes temas cada vez mais complexa. Apresentam-se decks de uma centena de slides que analisam mercados prontos para receber a disrupção de tecnologias emergentes, com gráficos incríveis detalhando a estratégia para aproveitar o tal filão.

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Apesar de terem se tornado cada vez mais frequentes, estas apresentações mágicas não são algo novo. Em tantas reuniões ao longo da minha carreira, fui tomado por um sentimento ambivalente: ao mesmo tempo em que era óbvio que não faltava conhecimento ou paixão pelo trabalho em questão, eu notava a ausência de um ingrediente essencial. Faltava o foco na execução, em detrimento da busca pela estratégia perfeita. Era como ter um grande avião, sem uma pista para pousar, quando se precisava da leveza de um parapente. Esse é um dos maiores riscos que uma empresa pode correr: a estratégia é inútil sem execução.

A busca pela perfeição sem uma visão de como planos se tornarão realidade faz com que ideias caduquem, com lindos slides cheios de conceitos sem aderência, tornando-se apenas material de consulta futuro. Pior ainda, esta atitude abre espaço para a ultrapassagem da competição, e escancara a falta de uma percepção atualizada dos negócios na era digital. No setor de tecnologia, por exemplo, a briga no passado era entre as grandes empresas do ramo, que se comportavam da mesma forma e tinham longos e burocráticos ciclos de desenvolvimento de produtos, além de todas as benesses de uma certa previsibilidade em relação à concorrência. Esse cenário já foi superado há um bom tempo.

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Em 2021, startups de sucesso estão colhendo os frutos da subversão desta lógica do passado. Estas são as formigas que surgem de repente, e devoram o piquenique das organizações incumbentes. Um dos grandes motivos para isso é a agilidade na execução: por operarem em um contexto de escassez, o foco dos fundadores é trabalhar para obter resultados o mais rápido possível. Para atingir estas metas, empreendedores raramente traçam estratégias floreadas, e preferem executar ideias simples. A frase do meu amigo Bob Messier resume bem a mentalidade das empresas vencedoras: “It’s all about progression, not perfection”, que, em uma tradução livre que não soa tão bem quanto o original, quer dizer: o que interessa é o avanço, e não a perfeição.

Outra característica positiva dessa ênfase em ação que proponho aqui é a criação do espaço para erros. Combinada a conceitos como a autonomia de times, a execução de ideias simples torna a experimentação e inovação possíveis em uma organização, que passa a ter uma maior tolerância a erros com responsabilidade. A simplicidade também traz mais pragmatismo, já que planos extremamente complexos têm maiores chances de fracasso.

Para quem sofre com grandes planos sem foco em execução, sugiro que a atenção se volte para o desenvolvimento de uma rota simples, com resultados que podem ser obtidos de forma relativamente fácil. Depois de executar, comunique os resultados: na maioria das vezes, uma apresentação extensa pode ser resumida em três slides: o plano, os resultados e os próximos passos. No final do dia, a estratégia é sobre o que se coloca em prática. Ao promover a ação de forma descomplicada, líderes abrem espaço para a construção de expertise e ideias que evoluem com o tempo, e trazem a vantagem competitiva e flexibilidade necessária para navegar por cenários de incerteza e mudança. É justamente neste campo que nossos parapentes precisam pousar.

Marvio Portela é vice-presidente sênior para Estados Unidos, América Latina e Caribe do SAS. O executivo passou por grandes empresas como Oracle e IBM, trazendo uma vasta experiência na área de vendas e gestão de parcerias. Sua carreira no SAS teve início em 2010.

Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.

 

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