Resultados de 2019 revelam que o varejo sobreviveu

Setor varejista teve com bom desempenho em uma economia de recuperação lenta.

Luciene Miranda
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Você lê as reportagens e ouve as notícias sobre os indicadores de uma economia em lenta recuperação no Brasil e fica confuso. Afinal, ao sair de casa e andar pelas ruas e shoppings, vê lojas apinhadas de gente. “Que crise é essa?” é a pergunta que você faz.

A resposta existe – e está atrelada ao desempenho do comércio em 2019. Mesmo com a dificuldade do país em retomar o ritmo de crescimento, o comércio conseguiu resistir e se descolar dos demais segmentos da economia.

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A bolsa de valores, que normalmente revela de maneira antecipada os movimentos econômicos, já dava essa dica aos investidores. Na carteira do Ibovespa, o principal índice de ações brasileiro, composta por ações de companhias de diferentes atividades, não foi raro ver as empresas do varejo no azul durante pregões nos quais todo o resto do mercado ficava no negativo.

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Mas foi o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) que mostrou o desempenho do comércio com maior precisão no levantamento das Contas Nacionais, que mede a produção de bens e serviços do país.

Ao longo de 2019 e, mais especificamente, no terceiro trimestre, o comércio superou outros setores tradicionais da economia, como a indústria (“total” e “da construção”). Chegou perto do item “serviços” e quase empatou com “transporte, armazenagem e correio”.

Segundo Anderson Luz, sócio e diretor da gestora Mont Capital, a confiança que levou o consumidor a sustentar as vendas no comércio teve como alicerce a taxa básica de juros do país no menor patamar desde o início da histórica, em 1999, ano em que o Banco Central adotou o regime de metas de inflação. Na reunião de 5 de fevereiro deste ano, a taxa Selic foi cortada em 0,25 ponto percentual para 4,25% ao ano pelo Copom, o Comitê de Política Monetária do BC. “Quando a taxa é reduzida, acaba sobrando mais crédito, mais dinheiro na ponta final, que é o consumidor. O reflexo disso vemos na bolsa, com os investidores buscando as ações de varejo”, explica Luz.

Luiza e Marisa

Uma das preferências do investidor é pelas ações do Magazine Luiza – que permaneceram entre as principais altas do Ibovespa no dia seguinte à divulgação do balanço do quarto trimestre de 2019. Um sinal de que o mercado gostou dos números, embora a companhia tenha registrado uma queda de 0,5% no lucro líquido ajustado do quarto trimestre de 2019, de R$ 185,3 milhões, na comparação com o mesmo período do ano anterior.

Letícia Moreira
Letícia Moreira

Fred Trajano, CEO do Magazine Luiza

Na apresentação dos resultados, Frederico Trajano, CEO do Magazine Luiza, destacou a expansão em 2019 com a aquisição da Netshoes, em junho, e a abertura da milésima loja, em agosto, além das novas unidades no Mato Grosso e no Pará. Ele falou também da parceria com a Marisa na instalação dos primeiros quiosques, em dezembro, e também da compra da Estante Virtual, no segmento de livros.

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“O crescimento do e-commerce não vai vir dos eletroeletrônicos, porque já temos um nível parecido com o de outros países. O grosso vem de novas categorias.” - Fred Trajano, CEO do Magazine Luiza

O comércio eletrônico da companhia avançou 93% de outubro a dezembro, na comparação com o mesmo período do ano anterior. “O crescimento do e-commerce não vai vir dos eletroeletrônicos, porque já temos um nível parecido com o de outros países. O grosso vem de novas categorias”, explicou Trajano.

Físico e online em transformação

Fred Trajano chamou a atenção para uma transformação pela qual passa o e-commerce, segmento que ajudou (e muito) no desempenho do comércio em 2019. Segundo o IBGE, os itens do comércio varejista com maior destaque são aqueles mais consumidos pela internet, como os das categorias “móveis e eletrodomésticos”, “outros artigos de uso pessoal e doméstico” e “artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos e de perfumaria”. No entanto, segundo analistas, eles podem estar chegando a um ponto de saturação, e novas frentes já são abertas pelas companhias para facilitar o comércio online de outros itens, a exemplo de “livros, jornais, revistas e papelaria”, além de “equipamentos para escritórios, informática e comunicação”.

Pedro Fagundes, analista da XP Investimentos para o setor de varejo, chama a atenção para o acelerado crescimento do e-commerce no Brasil (próximo de 20% ao ano). “Hoje, a gente já está falando de um setor que representa cerca de 7% das vendas totais do varejo, e a tendência continua sendo de concentração dos principais nomes”, afirma.

O setor que engloba “tecidos, vestuário e calçados”, apesar de apresentar menor desempenho no levantamento, também está na mira dos grandes varejistas que têm plataformas mais desenvolvidas de marketplace. A associação entre Magazine Luiza e Marisa no e-commerce exemplifica bem essa aglutinação nas operações.

A entrada da Marisa no comércio eletrônico não é recente (estreou em 1999), mas a companhia teve dificuldade de manter a competitividade. “Viemos bem até 2017, quando nossa plataforma estava cansada e não conseguia atender naquilo que a gente precisava”, explica Marcelo Pimentel, CEO da companhia. Após ajustes, a rede conseguiu aumentar as vendas online. Além do Magazine Luiza, firmou parceria com o Mercado Livre para o uso das plataformas de marketplace já consolidadas. “Três anos atrás, o nosso e-commerce participava com cerca de 2% da venda total da empresa. Fechamos 2019 com 6% da venda total. Temos a ambição de, nos próximos dois anos, ultrapassar a barreira do duplo dígito”, planeja Pimentel.

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A rede Marisa ainda não havia anunciado os resultados totais de 2019 até o fechamento desta edição. Mas o resultado das vendas mantém os investidores animados, com números que levam as ações da Marisa a um desempenho similar ao de outros varejistas na bolsa de valores. O crescimento nas vendas SSS (same store sales), ou seja, das vendas em lojas já existentes, foi de 5,6% de julho a setembro e de 6,1% no acumulado do primeiro, segundo e terceiro trimestres.

Eliel Souza

Marcelo Pimentel, CEO das Lojas Marisa

Também no segmento de vestuário, a Lojas Renner conseguiu resultados animadores não só de vendas, mas também no lucro líquido de 2019, que foi de R$ 1,099 bilhão, alta de 7,7% na comparação com 2018. De acordo com o diretor financeiro da companhia, Laurence Gomes, os investimentos no comércio eletrônico foram intensificados no ano passado, e o e-commerce da rede cresceu 52,8%. “Em 2019, a companhia começou um ciclo de investimento digital no omnichannel, ou seja, na integração total das lojas físicas com as compras online. O cliente quer comprar o produto, e essa decisão tem que ser muito fácil para ele.”

Gomes explica que a Renner se antecipou – a modernização da rede começou há oito anos. “Em 2012, quando todo o comércio varejista estava bem, lançamos um novo ciclo de investimentos, com automatização de toda a plataforma logística e a criação de um centro de serviços compartilhados para eliminarmos as atividades administrativas das lojas. Quando 2015 e 2016 chegaram com a recessão, nós já estávamos preparados”, lembra.

Divulgação
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Laurence Gomes, diretor financeiro das Lojas Renner

O economista Marcel Solimeo, da Associação Comercial de São Paulo, com experiência de mais de 50 anos na área, observa não só uma transformação do perfil do comércio eletrônico, mas também da função das lojas físicas. Ele vê uma concentração no setor, com a permanência e o crescimento dos grandes varejistas que investiram mais nas plataformas de marketplace, em detrimento das redes varejistas menores e, principalmente, de lojas físicas de médio e pequeno portes. “Em shopping centers tradicionais, você vê portas fechadas, tapumes e, quando reabre, o espaço é ocupado pelo setor de serviços, com atendimento médico, odontológico, academias e até mais salas de cinema”, explica.

Mas, ao contrário do que ocorre em outros países onde as lojas físicas estão em extinção, aqui no Brasil, dependendo da localização, elas são vistas como a solução para o principal gargalo do e-commerce brasileiro: a entrega. Nessa modalidade, leva vantagem a rede com pontos em locais mais estratégicos, próximos a estações de metrô, trem e ônibus, para experiências muito rápidas de consumo. Eventualmente, os clientes compram algo na loja quando vão retirar o produto adquirido pelo comércio online.

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O serviço estatal dos Correios não dá conta de atender com agilidade e preço competitivo o volume crescente de entregas, e os grandes varejistas têm investido pesado em alternativas privadas para o transporte das mercadorias. Ainda assim, o valor do frete é considerado alto. “Não é raro as lojas virarem mostruário e depósitos para quem compra pela internet poder retirar sem pagar taxa de entrega”, explica Solimeo.

Tendência para 2020

É consenso entre os especialistas consultados pela Forbes que 2020 não será tão generoso para o comércio varejista como foi o ano passado. Pedro Fagundes destaca que este será um ano de consolidação dessa recuperação apenas para
alguns dos grandes varejistas. “Boa parte da alta que aconteceu no ano passado na bolsa foi muito por investidores incorporando valor ao preço das ações – tanto pela redução do custo de capital, ou seja, a queda da taxa de juros, quanto por uma certa expectativa em relação ao resto da economia. A confiança dos investidores ainda está alta, mas, se as empresas não mostrarem bons resultados este ano, a performance na bolsa não será tão boa. Haverá muito mais volatilidade”, acredita.

Marcel Solimeo alerta que a tendência é, cada vez mais, de crescimento e concentrações no comércio varejista. “Os grandes estão ocupando o espaço dos pequenos, inclusive em bairros, na periferia. Eles conseguem se ajustar ao perfil do consumidor desses locais, além da vantagem de terem maior poder de compra e de preço.”

Já Anderson Luz acha que o desempenho do varejo estará diretamente ligado à política monetária do Banco Central. “Se o BC mantiver ou cortar a taxa básica em 2020, o efeito será muito favorável para o comércio. Sem falar da expectativa de aumento de emprego.”

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