O Venture Capital pode ser ensinado em sala de aula?

designer491 / GettyImages
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Com mais pessoas tentando atuar no setor, surgem treinamentos que prometem impulsionar carreiras em venture capital

O Venture Capital (VC) tornou-se um tanto quanto romantizado nos últimos anos, graças ao seu envolvimento com as startups de tecnologia, menor fluxo de capital privado e a associação com vários investidores famosos e celebridades. Como tal, o crescimento, aliado a uma certa mística, o tornou numa escolha cada vez mais atraente para quem procura uma carreira estimulante e variada. À medida que mais pessoas tentam atuar no setor, surgem novos programas de treinamento que prometem dar alguma vantagem aos candidatos na disputa por vagas em venture capital.

Uma dessas iniciativas é o Newton Venture Program lançado há apenas algumas semanas, administrado pela London Business School e pela empresa de venture capital, LocalGlobe. Com o objetivo de profissionalizar e de diversificar a carreira no setor, o curso gerou debate na indústria sobre a sua necessidade e se realmente poderá fornecer um atalho para uma carreira no segmento.

A grande questão é se é possível “ensinar” venture capital no ambiente de uma sala de aula?

Uma carreira em venture capital envolve tradicionalmente seguir a rota de um aprendiz, em que os associados aprendem o ofício no mundo real, ao invés de passar por qualquer treinamento teórico. Em geral, o método é considerado vital para o desenvolvimento de uma infinidade de habilidades, redes e experiências necessárias para o sucesso. No entanto, Lisa Shu, diretora executiva do Programa Newton Venture, argumenta que essa abordagem está desatualizada e pode realmente atrapalhar o aprendizado:

“A rota do aprendizado é lenta e cara”, ela argumenta. “Muitos profissionais de VC estão lutando para navegar em suas carreiras e a maioria das empresas não é grande o suficiente para um treinamento formal. Há uma enorme pressão nas empresas, na liderança de equipes, nos membros do conselho e empresários, e isso inibe o aprendizado, porque você não pode fazer perguntas que o ajude a progredir. ”

Há quem concorde, no entanto, que um programa formal pode ser o lugar ideal para ensinar os princípios básicos de gerenciamento de ativos, fundamentos de um negócio, termos de um compromisso e aprender com estudos de casos anteriores. Reshma Sohoni, cofundadora e sócia da Seedcamp, acredita que isso pode garantir que os profissionais tenham competências mínimas em torno da ‘ciência do VC’, algo que melhoraria a reputação da indústria como um todo.

“Você ouve tantas histórias ruins de fundadores sobre suas experiências com VCs”, explica ela. “Desde a experiência de humano para humano, até a aparência dos documentos e o valor agregado. Portanto, qualquer curso de treinamento que coloque as pessoas no mesmo nível é uma coisa boa.”

Não há substituto para a experiência

Ainda assim, o alcance de um curso é limitado no sentido de fornecer as habilidades que os profissionais em venture capital precisam para ter sucesso, como construção de relacionamento, avaliação de deals, gerenciamento de portfólio e de saídas, temas que não cabem na configuração de uma sala de aula.

O Prof Dr. Peter Lorange, ex-presidente da IMD Business School Lausanne e presidente da Lorange Network argumenta “a condução com a devida diligência pode definitivamente ser ensinada em uma sala de aula. Assim como questões estruturais e modelagem de fluxo de caixa. Além disso, não tenho certeza se o venture capital pode ser ensinado. Afinal, experiência e “intuição” são fatores-chave. ”

Também é importante ter em mente que o venture capital é uma classe de ativos de longo prazo, com ciclos de cinco a sete anos. Logo, paciência é fundamental e os profissionais precisam passar por todos os ciclos até a saída dos negócios, para entender completamente o que está envolvido. Lorange acrescenta que os profissionais em venture capital precisam aprender a “aproveitar as vantagens dos ciclos de negócios específicos para executar o tempo adequado”.

Aprendendo uma abordagem ativista

Embora os profissionais no setor já tivessem de desempenhar um papel variado, esse escopo foi ampliado pelo surgimento de uma abordagem ativa – ou “ativista” – no gerenciamento de carteiras, ao oferecer uma gama de suporte aos empreendedores em todos os ciclos de desenvolvimento das empresas. A experiência da vida real é vital para fazer isso com eficácia, assim como para construir uma rede de contatos ao longo do tempo. Como um profissional de venture capital, você está sempre aprendendo com todos e tudo ao seu redor, todo mundo é um potencial parceiro, investidor, funcionário ou contato para due diligence.

Com tantas demandas concorrentes e um alto nível de incerteza, os profissionais em venture capital também precisam desenvolver habilidades de tomada de decisão e priorização, algo que Paul Rutherford, fundador e diretor administrativo da Nire Capital, acredita ser difícil de se fazer em um curso.

“É difícil imaginar como é a prática, até que você tem um CEO que não está apresentando um bom desempenho ou uma empresa ficando sem caixa”, explica ele. “O coronavírus é um bom exemplo. Você sempre pensa no que faria se um negócio fosse para zero … com a Covid você está colocando em prática essas coisas que normalmente teorizamos. Isso traz muita responsabilidade e você não sabe o que vai encontrar até estar nessa posição”, explica.

Sohoni concorda que a responsabilidade da função é um grande elemento da carreira, especialmente quando se trata de gestão de fundos, ou seja, de gerenciar preocupações e entender como equilibrar o portfólio para entregar os maiores retornos.

“Na verdade, você está administrando o dinheiro das pessoas e isso é importante”, diz ela. “Temos um dever de zelo e há um motivo pelo qual podemos levantar esse dinheiro, que é o fato de entregarmos retornos extraordinários. Se você deseja obter retornos de 3x ou 5x, há muita teoria para gerenciar o portfólio, entender como maximizar valor, o que você fará com o IPO e assim por diante.”

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