Caminhoneiros prometem greve maior que 2018; entenda reivindicações e impactos da paralisação

Categoria deseja se reunir com o presidente Jair Bolsonaro. Greve deve ter início em 1º de fevereiro.

Ana Paula Pereira e Artur Nicoceli
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Anadolu Agency/GettyImages
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Categoria deseja se reunir com o presidente Jair Bolsonaro. Greve deve ter início em 1º de fevereiro

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O cenário desolador que tomou conta das estradas brasileiras em maio de 2018 pode se repetir com uma nova paralisação dos caminhoneiros agendada para 1º de fevereiro. A manifestação, liderada pela Associação Nacional de Transporte do Brasil (ANTB) e pelo Conselho Nacional de Transporte Rodoviário de Cargas (CNTRC), promete mobilizar 20 mil motoristas em todo o país.

Há três anos, quando os caminhoneiros cruzaram os braços por 11 dias, o impacto para a economia foi de R$ 15,9 milhões, segundo dados da Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda. De acordo com a Confederação Nacional da Indústria (CNI), no oitavo dia de manifestação em 2018, as exportações registravam perda de US$ 1 bilhão, impactando especialmente o embarque de commodities.

Para a economista e coordenadora do Núcleo de Estudos da Conjuntura Econômica da FECAP, Nadja Heiderich, a paralisação pode surtir efeitos também nos preços ao consumidor. “Na pandemia tivemos um crescimento expressivo nos custos. Se houver a paralisação, os preços serão ainda mais altos,” avalia. A inflação acumulada em 2020 medida pelo IPCA encerrou o ano em 4,52%.

As demandas dos caminhoneiros de 2018 não são muito diferentes das apresentadas neste ano. Entre as principais reivindicações estão o piso mínimo do frete, condições especiais de aposentadoria, melhor fiscalização da Agência Nacional de Transporte Terrestre (ANTT) e um novo modelo de cobrança do diesel, já que a paridade dos preços com o mercado internacional, segundo a ANTB, tem por “objetivo beneficiar apenas a Petrobras”, relegando aos motoristas os impactos financeiros da variação.

“O motorista, quando sai para fazer uma entrega, negocia o custo do transporte. Contudo, se houver um aumento inesperado do combustível nos postos, a margem que o caminhoneiro irá receber pelo frete é reduzida”, pondera Roy Martelanc, pesquisador e professor de finanças da USP.

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Os preços do petróleo atingiram uma máxima de 11 meses nesta semana, acima de US$ 57 o barril, apoiados pela restrição de oferta após um corte voluntário na produção da Arábia Saudita e pelas expectativas de retorno da demanda global com o início das vacinações.

“Hoje, é cobrado um preço altíssimo do combustível devido à política de PPI (Paridade de Preços Internacionais) da Petrobras, nós queremos uma precificação nacional, com reajuste anual”, comentou Plínio Dias, presidente da CNTRC.

Em 2018, a alternativa encontrada pelo governo Michel Temer foi um acordo com os caminhoneiros, reduzindo em R$ 0,46 o litro do diesel nos postos de combustíveis e implementando mudanças na tabela do frete. A intervenção teve como desfecho a saída do presidente da Petrobras à época, Pedro Parente, defensor da autonomia da estatal e do ajuste dos preços conforme as condições de mercado.

“Se o preço do combustível for trocado pelo modelo sugerido pelos caminhoneiros, quem irá arcar com as variações mensais e semanais, principalmente se houver uma variação brusca? Caso seja acatada a proposta dos motoristas, será mais um gasto para o governo, o que poderá causar um desajuste no mercado,” explica Nadja.

Durante os próximos 15 dias, os caminhoneiros esperam que o ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas, e outros setores do governo como a Casa Civil, o Gabinete de Segurança Institucional, o Ministério da Justiça e a Advocacia-Geral da União dialoguem com as demandas da categoria afim de evitar a paralisação. A categoria pede ainda uma reunião com a presença do presidente Jair Bolsonaro.

Em nota, o Ministério da Infraestrutura informou que há uma agenda permanente de diálogo com as principais entidades representativas dos caminhoneiros por meio do Fórum do Transporte Rodoviário de Cargas (TRC), além de reuniões constantes com suas lideranças. As entidades que encabeçam as paralisações deste ano, todavia, afirmam que não se sentem representadas pelo Fórum, já que as negociações de 2018 não trouxeram benefícios concretos para os profissionais que atuam nas estradas brasileiras.

“Em 2018, algumas entidades e ministros se definiram como representantes da classe dos motoristas, mas não fizeram nada nestes três anos. Nós não aceitaremos se o governo fizer um acordo com eles, agora terá que ser conosco”, afirma José Roberto, presidente ANTB.

Caso as tentativas de diálogo sejam frustradas, os caminhoneiros devem agir em três frentes: um grupo deixará de trabalhar, mas ficará em casa, enquanto outros devem cruzar os braços próximos dos postos de combustíveis. Já um terceiro grupo ficará responsável pela paralisação de rodovias que, segundo as lideranças, ainda não foram definidas.

Não apenas a variação nos preços, mas também a crise aberta pela pandemia de Covid-19 tem impactado o setor de transportes brasileiro. Dados compilados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e divulgados em relatório pela Confederação Nacional do Transporte (CNT) revelam que o PIB do setor caiu 11,3% no primeiro semestre de 2020, o dobro do índice brasileiro, que no mesmo período recuou 5,9%.

Muito além do preço do diesel, Martelanc acredita que o problema seja resultado da estrutura do mercado de combustíveis brasileiro. Na disputa entre a autonomia da Petrobras pela paridade dos preços e maior estabilidade para os motoristas, o especialista avalia que os caminhoneiros devem levar a melhor: “O governo irá ceder aos motoristas, pois a pressão é muito forte”, conclui.

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