Como o IPO da Espaçolaser pode abrir as portas do mercado financeiro para outras empresas do setor

Captação de R$ 2,64 bilhões da rede de depilação na B3 mostra crescente busca dos investidores por ativos fora dos segmentos tradicionais.

Beatriz Calais
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Divulgação/Caue Diniz
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José Carlos Semenzato e os sócios Ygor Moura, Xuxa Meneghel e Paulo Iasz comemoram o IPO da Espaçolaser

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Na última segunda-feira (1), a Espaçolaser anunciou a conclusão de seu IPO. A rede de franquias de depilação estreou na B3 precificando sua ação a R$ 17,90 por papel, o que resultou em uma captação de R$ 2,64 bilhões. Um marco histórico: é a primeira vez que uma empresa de serviços de beleza abre capital no Brasil.

Mais do que um acontecimento isolado, isso mostra uma crescente tendência de investidores brasileiros à procura de ativos fora dos setores tradicionais. Para Alexandre Pierantoni, diretor-executivo da Duff & Phelps no Brasil e especialista em mercado de fusões e aquisições, essa perspectiva segue um cenário financeiro que já é típico no exterior. “Temos uma multiplicação de setores presentes na bolsa de valores. Cada vez mais nichados”, destaca.

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Segundo o especialista, “é a perspectiva futura que guia investimentos em empresas que estão abrindo capital”. Em um período ainda de crise por conta da pandemia do novo coronavírus, essa visão de mercado se mostra cada vez mais concreta. Pierantoni revela que, mesmo após um 2020 caótico, o ano fechou com recordes de IPOs. A Espaçolaser, por exemplo, vive um momento de ganhos e conquistas na B3 mesmo tendo passado por períodos de paralisações e fluxo zero de clientes em suas lojas.

Até setembro de 2020, último período com dados divulgados, a rede havia faturado R$ 952 milhões, mas com prejuízo líquido de cerca de R$ 65 milhões. Acima do normal em um período de crise, as perdas pouco importaram para o processo no mercado financeiro. “Um IPO sempre está olhando perspectivas futuras. A Espaçolaser tem um case que se provou de sucesso, principalmente quando se pensa na retomada da economia”, explica o especialista.

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Ainda em ascensão no Brasil, o setor de depilação a laser é extremamente atrativo quando se observa os mercados do exterior, onde o procedimento chega a corresponder a 50% do mercado de depilação. No prospecto apresentado pela Espaçolaser, a rede revela que 69 milhões de pessoas no Brasil são adeptas a alguma forma de depilação. Apesar disso, apenas 4,9% da população brasileira se interessa pelo laser. É um cenário de expansão observado com interesse pelos investidores.

Para José Carlos Semenzato, presidente da holding SMZTO, sócia da Espaçolaser, a governança também faz toda a diferença nesse jogo de atratividade. Durante a pandemia, o empresário assumiu o Conselho de Crise da rede de depilação, o que fez com que acompanhasse de perto toda a gestão. “O IPO é um certificado de que você está se comprometendo com todas as características que determinam uma boa governança. O time de gestão precisa estar muito alinhado”, destaca.

Nesse sentido, Semenzato conta que um dos diferenciais foi a gestão minuciosa para manter os consumidores por perto. “Por conta da crise, alguns setores explodiram em inadimplência. A primeira coisa que surge na cabeça do cliente na hora de uma crise é o pânico. Nessa hora, muitos cancelam e desistem de produtos que haviam comprado. Nós tivemos uma gestão muito cuidadosa para manter essa inadimplência em patamares muito baixos em relação ao mercado.”

Como estratégia para alcançar esse resultado, o sócio-fundador da rede, Paulo Iasz, revela que em nenhum momento, mesmo no pior período da pandemia, eles desaqueceram o time. “Parar tudo poderia desmotivar nossas equipes. Nós fizemos um batalhão e colocamos todos os funcionários para conversar com nossos clientes, passando credibilidade e segurança. Além disso, tínhamos vídeo-conferências diárias com diversos setores da empresa”. Com a tática, foi possível manter funcionários e consumidores otimistas sobre a retomada.

“Tudo isso é possível quando você tem uma empresa de alta credibilidade e com muita confiança do consumidor”, destaca Semenzato. “A gente conseguiu fazer 40% do normal em vendas, em um momento de lojas fechadas”. Além disso, os executivos se orgulham por não terem passado por demissões em massa e pela volta precoce do fluxo normal de clientes, ainda em outubro.

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“O setor de estética é o último a perceber momentos de crise e o primeiro a retomar as atividades”, diz Iasz. “O que acontece é que nesses períodos você abre mão de muita coisa. Com isso, vem o desejo de se cuidar e elevar a autoestima. Isso ajuda a suportar a dificuldade.” Observando de perto o mercado financeiro, Pierantoni concorda com a afirmação. “O setor de beleza tem uma resiliência bastante forte. Como todos os departamentos, foi afetado pela pandemia, mas se recupera rapidamente.”

A Espaçolaser é uma exceção?

Sidney Eduardo Kalaes, sócio da Maislaser e presidente da holding de franquias Grupo Kalaes, conta que a pandemia foi um baque que os obrigou a reaprender e reinventar. “Nosso principal foco foi cuidar dos franqueados. Diminuímos a cobrança de royalties, colocamos o departamento jurídico à disposição deles para ajudar na renegociação dos aluguéis e fizemos reuniões online o tempo todo para passarmos segurança”, pontua. A abordagem foi parecida no contato com os consumidores. “Em junho as pessoas começaram a entender que a pandemia não acabaria de um dia para o outro. Foi aí que começamos a ligar para os clientes oferecendo pacotes de serviços com longos prazos de vencimento.”

Com apenas dois anos de mercado, Kalaes conta que foi a partir dessa estratégia que as vendas retomaram a um bom percentual. A empresa cresceu 50% de 2019 para 2020, alcançando um faturamento de R$ 108 milhões. Mesmo com a pandemia, nenhum dos 70 franqueados encerrou suas atividades, o que representa um grande sucesso para a jovem companhia. Sobre o IPO da Espaçolaser, o executivo afirma ser um grande ganho para o setor. No entanto, destaca que, pessoalmente falando, conseguir acolher sua equipe nesse período é tão valioso quanto qualquer atuação no mercado de ações.

Já para Regina Jordão, fundadora e CEO da Pello Menos, esse não foi o melhor ano no quesito financeiro. A rede, que teve um faturamento de R$ 43 milhões em 2019, sofreu um decréscimo de 45% em 2020 por conta da pandemia. Após quase um ano do início do isolamento social, Regina revela que o movimento de clientes ainda não voltou ao normal, o que já resultou no fechamento de três das 46 franquias da marca. “Meus franqueados estão faturando uma média de 50% do valor pré-pandemia. O que nos salvou foram os planos de assinatura, já que 85% dos nossos clientes não deixaram de pagá-los.”

Os serviços de depilação oferecidos pela rede de Regina também podem influenciar nesses resultados. Após 25 anos trabalhando com cera quente, ela já enxerga o laser como um caminho para retomar o faturamento pré-pandemia. “Estamos incluindo esse serviço agora na nossa rede. Serão três tipos de lasers, para cada tipo de pelo. Esperamos que essa introdução nos impulsione novamente.”

Essa busca pela inovação realmente faz diferença quando se trata de mercado financeiro. “Podemos esperar o IPO de várias empresas, o que precisa ter é robustez para estar preparado para o mercado de capitais”, diz Pierantoni. “A Espaçolaser é uma empresa que se preparou para isso. Eles tinham um fundo de private equity, o que os ajudou a ter governança, crescimento exponencial e uma estratégia de desenvolvimento que gera valor.”

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Além disso, esse parece ser um ótimo momento para começar a pensar na possibilidade de um capital aberto. Segundo o especialista, o nível de juros atual, de 2%, torna o investimento muito mais atrativo do ponto de vista risco-retorno. “O risco vai ser muito maior, mas o retorno também”, explica.

De certa forma, tudo depende de um jogo de conquista para mostrar aos investidores que sua empresa vale a pena. “É preciso ter um case atrativo. Se outras empresas tiverem isso, a Espaçolaser não será a única”, finaliza Pierantoni.

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