Investimentos de impacto, o novo lema do mercado financeiro

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Bruna Constantino, Fábio Kestenbaum e Andrea Oliveira, da Positive Ventures

Os investimentos de impacto estão ganhando cada vez mais espaço no mercado financeiro. O que era antes visto como uma modalidade alternativa de investimento, já se consolida em relevância para investidores e instituições financeiras. Fábio Kestenbaum, presidente do Comitê de Investimentos da Positive Ventures, gestora de venture capital voltada para impacto, analisa que o crescente interesse do mercado acerca de ativos de impacto se dá por duas principais razões. A primeira, geracional, diz respeito a uma tomada de consciência natural e inerente às novas gerações. A segunda, se deve ao fato de que não há outras alternativas senão a transição para modelos de negócios mais sustentáveis, “se não mudarmos a forma como consumimos, produzimos e investimos vamos tornar o planeta inabitável, hostil à vida humana. Investir em negócios de impacto tem muito mais a ver com um instinto de sobrevivência do que com qualquer outra coisa”, diz Kestenbaum.

É evidente que a tendência favorável do mercado em relação aos investimentos de impacto faz com que uma grande variedade de novos produtos comecem a surgir. A variedade de nomes, siglas e produtos tornam o assunto ainda mais complexo para o investidor. Para Daniel Izzo, CEO da Vox Capital, gestora de investimentos de impacto, ESG (Environmental, Social and Governance) é “a nova paleta mexicana do mercado financeiro”, já que a maioria das empresas tem incorporado a sigla em seus negócios e lançado estratégias de mitigação de riscos e impactos.

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Jéssica Rios, Daniel Izzo e Gilberto Ribeiro, parte do time da Vox Capital

“Isso não é, de forma alguma, ruim. É importante que as empresas se deem conta da necessidade de integrar boas práticas à sua atividade interna e externa, mas é preciso separar uma coisa da outra. ESG e impacto são duas coisas completamente diferentes que trabalham para um objetivo comum, mas o primeiro está preocupado com a forma com que uma coisa é feita, o segundo diz respeito ao que é feito”, diz Izzo. Desta forma, um modelo de negócio de impacto não tem a ver com mitigação de riscos e impactos, tem a ver com a promoção de um impacto positivo intencional no core business da atividade da empresa.

“Para simplificar, nós gostamos de chamar de “investimentos decisivos”. Nós não queremos reduzir danos, queremos resolver grandes problemas de forma decisiva, esse é o tipo de impacto que buscamos”, explica Bruna Constantino, Chief Impact Officer da Positive Ventures.

Resiliência a crises

Negócios de impacto não são propriamente modelos novos, já que o movimento é observado há algumas décadas. Entretanto, os últimos dez anos foram decisivos para o setor, que testemunhou um aumento vertiginoso no interesse por este tipo de negócio. No Brasil, o cenário econômico dos últimos anos também se colocou favorável à diversificação de investimentos devido a fenômenos como a queda histórica da taxa de juros e a consequente entrada de uma nova – grande – leva de investidores na Bolsa de Valores.

Mas um fator, particularmente, atuou como grande catalisador dessas mudanças que já estavam em curso: a pandemia de Covid19, acelerando processos e voltando os olhos do mercado a pautas como impacto socioambiental, sustentabilidade, saúde e educação. Para Bruna, referir-se à pandemia de forma positiva é falta de bom senso, apesar do resultado inquestionável sob os negócios de impacto.

Andrea Oliveira, CEO da Positive Ventures, afirma que os negócios de impacto tendem a ser muito resilientes à crise e que a pandemia deixou isso bem claro para o mercado. “Pegando nosso portfólio como exemplo, estamos falando de acesso a um diagnóstico de qualidade para quem não tem acesso a seguros de saúde, educação à distância, cursos de inglês à distância, etc. Todos são negócios essenciais que, em uma crise, tendem a crescer, a ganhar ainda maior importância, ao contrário de outros setores menos essenciais”, explica.

Para Izzo, no entanto, os negócios de impacto possuem uma particularidade, não podem ser criados para “surfar uma onda”, com a simples finalidade de gerar lucro. “Eles têm de ser orgânicos. Não dá para você criar uma empresa de impacto só para ela ser rentável. Primeiro você precisa de uma boa ideia para solucionar um problema real, depois esta ideia precisa funcionar e aí sim, o negócio será rentável”, explica.

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Investimentos tradicionais x impacto

Durante muito tempo os investimentos de impacto estiveram relacionados a iniciativas de caráter social, governamental ou filantrópico. E ainda há uma espécie de tabu no mercado que permeia o assunto e faz com que a modalidade não seja reconhecida como um ativo tão poderoso quanto outros mais “consolidados”.

Andrea afirma que o processo de investir em um modelo de negócio que nasce para gerar impacto não tem a ver com um trabalho social, mas sim com uma eficiente alocação de recursos que gera impactos positivos. Para isso, explica ela, é necessário que as gestoras e os investidores estejam comprometidos em encontrar modelos que solucionem grandes problemas, gerem impacto positivo e ofereçam um bom retorno financeiro aos investidores. “Nós aprendemos a não nos apaixonar pelas causas. Nós investimos em negócios sólidos, rentáveis e que gerem impacto. Além da tradicional lente risco/retorno, nós adicionamos a lente de impacto”, diz.

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Patrícia Genelhú, head da área de investimentos sustentáveis e de impacto do BTG Pactual

A prova de que o olhar do mercado para este tipo de negócio está mudando é que a maioria das grandes instituições financeiras já oferece pelo menos algum tipo de produto que envolva as temáticas sustentabilidade e impacto socioambiental. O BTG Pactual é uma delas, que lançou no início de 2020 uma área inteira voltada para investimentos sustentáveis e de impacto. Patrícia Genelhú, head da área, afirma que o banco sentiu a necessidade de criar a área em função da alta demanda dos investidores por produtos de impacto ou ESG, além do interesse dos próprios colaboradores do banco em alinhar práticas internas aos produtos oferecidos.

“A área nasceu no início de 2020, já em outubro nós lançamos os nossos primeiros produtos, um ETF ESG e, logo em seguida, o Landscape Capital, vertical voltada para investimentos florestais com intencionalidade de impacto”, conta Patrícia. O ETF ESGB11 é um fundo que replica o Índice S&P/B3 Brazil ESG e utiliza a mesma metodologia do Dow Jones Sustainability Index Family, combinando empresas brasileiras e fatores ESG no portfólio.

No início do mês o banco lançou o mais novo produto da área, um fundo voltado para investimentos de impacto. “Essa é a nossa estratégia mais recente, fizemos uma joint venture entre as áreas de investimento de impacto e de private capital. Assim, unimos nossas expertises para gerar retorno e impacto na mesma importância e de forma igualmente séria”, explica.

Uma coisa só

Kestenbaum acredita que negócios e investimentos de impacto, bem como estratégias ESG de mitigação de risco e impacto são apostas essenciais para o mundo atual e futuro dos investimentos. “Entendemos investimentos de impacto como uma fase transitória. Hoje queremos fazer parte desta transição, queremos acelerá-la. Então falamos sobre impacto, medimos impacto, investimos em impacto, mas daqui a cinco, dez, quinze anos tem que ser só investimento, não investimento de impacto. Só consumo, e não consumo consciente”, analisa.

Para Izzo, o sentimento é parecido, “acho que investir sem se preocupar com impacto vai ser tão absurdo quanto fumar dentro de um avião, porque você está efetivamente ajudando a criar alguma coisa com o dinheiro. Todos os negócios possuem um impacto, a diferença é entender qual é esse impacto e se ele é positivo ou negativo”, explica.

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