Como o casal fundador da Materialise, empresa de impressão 3D, fez uma fortuna de US$ 1 bilhão

Apesar da pandemia, empresa viu ações subirem a US$ 80 em 9 de fevereiro, quatro vezes mais do que nos 12 meses anteriores.

Amy Feldman
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Reprodução/Forbes
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Fried Vancraen, CEO e cofundador da Materialise, viu ações subirem a US$ 80 em 9 de fevereiro, quatro vezes mais do que nos 12 meses anteriores

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Por um momento, neste verão (inverno no hemisfério norte), Fried Vancraen e Hilde Ingelaere, o casal fundador por trás da empresa de impressão 3D Materialise viram sua riqueza ultrapassar US$ 2,6 bilhões, de acordo com cálculos da Forbes, enquanto as ações da companhia atingiam US$ 80. Um sucesso muito passageiro: com a queda dos papéis de impressão 3D, a empresa com sede em Leuven, na Bélgica, viu suas ações caírem para US$ 41, transformando a participação de 60% do casal em US$ 1,3 bilhão.

Vancraen, que tem 59 anos, prefere pensar no longo prazo, para a empresa e a indústria que ele ajudou a lançar, do que no valor da sua ação. “Eu não estou dizendo que a minha família não é rica”, afirmou em uma chamada de vídeo recente. “Nós enxergamos isso mais como uma responsabilidade.”

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Nos anos 1980, Vancraen trabalhava no Instituto de Pesquisa da Indústria Metalúrgica da Bélgica quando viu a primeira impressora 3D da pioneira 3D Systems. Ele ficou maravilhado, e a princípio tentou convencer seu chefe a investir nessa nova tecnologia. “Era uma mudança de paradigma”, ele lembra.

Quando a ideia não deu certo, ele largou o emprego e se juntou à sua esposa, Hilde, que tem 58 anos e é mestre em bioengenharia, para abrir a empresa, em 1990. O conceito original da dupla era simplesmente ser um centro de serviço para novas impressoras 3D. Diferentemente, de Hans Langer, que fundou a EOS fora de Munique na mesma época ao ganhar atenção da BMW e outros grandes clientes, Vancraen acreditava que seus consumidores, provavelmente, seriam empresas menores interessadas em prototipagem. “Na Bélgica, nós não temos a mesma base industrial dos alemães”, disse. “Por isso, nós começamos como uma companhia de serviços.”

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No início, Vancraen finalizava as peças para seus clientes na mesa da cozinha. Atualmente, a Materialise é uma das maiores empresas autônomas de impressão 3D do mundo, com receita no último ano de pouco mais de US$ 200 milhões (nas taxas de câmbio atuais). Vancraen, que pretende se aposentar aos 65 anos, foi o CEO da companhia desde o princípio.

Quando a Materialise começou a trabalhar com seus clientes, o CEO descobriu que o software existente era péssimo para impressão 3D. “Quando adquirimos nossa impressora, a dificuldade era não ter clientes com dados que pudessem ser impressos nela, então, tivemos que começar com desenhos 2D que modelamos nós mesmos, o que foi difícil”, afirmou. “Era pior do que isso, porque naquela época nós precisávamos vender uma história. A gente falava, ‘Nos dê seus arquivos em CAD e iremos imprimi-lo para você’, mas se o cliente nos desse o arquivo no CAD seria de uma qualidade tão baixa que ficava mais fácil começar a partir de um desenho, então fomos forçados, desde os primeiros dias, a encontrar uma solução para o problema de software.”

Vancraem comercializou o software desenvolvido pela Materialise, e, com o passar do tempo, essa se tornou a grande vantagem da empresa. E o presidente assinou com clientes como GM, Ford e Baxter Healthcare.

“É fácil dizer que alguém é visionário, Fried é um desses caras”, disse Guy Sips, analista da KBC Securities, com sede em Bruxelas, que acompanhou a empresa desde o IPO, em 2014. “Ele sempre tem dez, 20, 30 bancos de investimento batendo à sua porta, e ainda os recusa, primeiro porque ele acredita nos fundamentos da sua companhia, e segundo porque realmente gosta do que está fazendo.”

Com o passar dos anos, a Materialise fundou um segundo grande negócio na área médica, com um empurrão de Hilde, que é a atual vice-presidente executiva da empresa. Hoje, essa divisão trabalha em produtos que variam de implantes de quadril personalizados a guias cirúrgicos a aparelhos auditivos. A princípio eles simplesmente tentaram copiar a anatomia humana, Vancraem explica, mas com o tempo perceberam que poderiam melhorar os implantes com direcionamento e design personalizados, ou facilitar cirurgias complexas com guias impressos em 3D.

No começo deste ano, por exemplo, suas ferramentas foram usadas no primeiro transplante bem-sucedido de rosto e mão dupla do mundo. “Isso é algo do qual nos orgulhamos muito”, afirma Vancraen. Um uso ainda mais complexo da impressora 3D no qual a Materialise está trabalhando é a tala biorreabsorvível, que pode restaurar as vias aéreas colapsadas de bebês. Em estágio de desenvolvimento na Universidade de Michigan, ela foi usada em cerca de 20 casos de cuidado compassivo.

Contudo, o último ano foi difícil para a indústria de impressão 3D, pois a pandemia atingiu fortemente setores-chave, como o automotivo e o aeroespacial. O crescimento típico de anos anteriores à pandemia foi de dois dígitos, mas o índice desacelerou a 7,5% em 2020, atingindo um total de US$ 12,8 bilhões, de acordo com o último relatório da Wohlers Associates. A receita da Materialise caiu 13% ano passado e registrou um prejuízo de US$ 9 milhões, ante quase US$ 2 milhões de lucro em 2019.

Apesar da pandemia, a Materialise, que é negociada na Nasdaq sob o ticker MTLS, viu suas ações subirem, alcançando US$ 80 em 9 de fevereiro, quatro vezes mais do que nos 12 meses anteriores, o que elevou o valor de mercado da empresa a mais de US$ 4,2 bilhões. Um grande empurrão, segundo Sips, veio da Cathie Wood’s Ark Investment Management, que apostou fortemente em impressão 3D, e agora possui um total de 16% da companhia e uma parte muito maior de seu caixa disponível publicamente. “Por causa da baixa liquidez e do fato de que o fundador ainda detém 60% da empresa, foi uma profecia que se cumpriu”, afirma Sips. “Tudo acima de US$ 50 a ação não tem, na minha opinião, nada a ver com a empresa e seus fundamentos. Dito isso, eu estou muito otimista com a impressão 3D e com a Materialise.”

Vancraen, que já viu de tudo em 30 anos no comando, acredita em um crescimento lento ao longo do tempo, à medida que a tecnologia conquista novos clientes e novas competências. “Vimos esse boom nos anos 1990, vimos outro boom na esteira da última crise econômica, e agora o vemos de novo”, afirma. “Isso vai acontecer, mas não no próximo ano. A impressão 3D é uma lenta revolução.”

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