Quero ser Eufrásia

Eduardo Mira apresenta a história da brasileira que investia na bolsa de valores há mais de 100 anos .

Eduardo Mira
Compartilhe esta publicação:
Artem Peretiatko/Getty Images
Artem Peretiatko/Getty Images

Numa época em que as mulheres não tinham direito nem de existir, Eufrásia não se deixou levar pela opinião dos outros e fez da sua vida uma lição de independência, operando nas bolsas do mundo inteiro

Acessibilidade


A vida é surpreendente, às vezes a gente encontra pessoas sem imaginar e uma série de possibilidades se abrem. Foi num desses encontros e desencontros que eu conheci a minha amiga Mariana Ribeiro e ela me apresentou a fantástica história de Eufrásia Teixeira Leite.

Mari fez uma pesquisa durante oito anos sobre a inspiradora história de Eufrásia Teixeira Leite e essa pesquisa virou um lindo livro chamado “Quero ser Eufrásia”.

Eufrásia foi a primeira mulher a investir em bolsa de valores de forma autônoma em todo o mundo, uma brasileira da cidade de Vassouras, no interior do Rio de Janeiro e que operou em diversas bolsas no mundo inteiro, numa época em que as mulheres não tinham direito a nada. Eufrásia fez história, que deve ser contada não só hoje, no Dia Internacional da Mulher, mas todos os dias.

Eufrásia

Eufrásia nasceu em 1850 na cidade de Vassouras, no interior da cidade do Rio de Janeiro, um lugar muito aprazível, que eu tive o prazer de conhecer há 15 anos. Eufrásia era a irmã caçula de Joaquim José Teixeira Leite e Ana Esméria Correia e Castro.

Inscreva-se para receber a nossa newsletter
Ao fornecer seu e-mail, você concorda com a Política de Privacidade da Forbes Brasil.

Seu pai era um comissário, que naquela época era a pessoa que financiava a produção das fazendas de amigos ou parentes e, por isso, recebia uma parte do que era colhido na lavoura.

No ano de 1872, com o falecimento de seu pai – sua mãe tinha falecido em 1871 – Eufrásia e sua irmã herdaram toda a fortuna da família. A escolha natural seria comprar terras e ampliar os negócios, mas como uma mulher sempre à frente do seu tempo, não se deixou abater por ser uma jovem com pouco mais de 20 anos e sem marido, o que não era visto com bons olhos na época e decidiu investir de forma diferente. Pegou suas coisas e foi com a irmã para a cosmopolita Paris.

A herança da família tinha transformado as duas em mulheres muito ricas. Com a boa educação que teve e o gosto pelas finanças, Eufrásia decidiu multiplicar o patrimônio investindo em ações de empresas dos mais diversos setores, além de títulos de dívidas de vários países.

Eufrásia operou em mais de 10 moedas diferentes, como franco francês, o dólar norte-americano, o dólar canadense, o dólar chileno, o leu romeno, a libra esterlina etc. Também investiu nas bolsas de Nova Iorque, Paris, São Paulo, Egito etc.

Após a morte de sua única irmã em 1928, Eufrásia retornou ao Brasil e, em 1930, faleceu sem deixar herdeiros.

Através de sua habilidade com os investimentos, a herança da família foi multiplicada em muitas vezes e seria capaz de comprar mais de 1850 quilos de ouro.

Se naquela época existisse o ranking de bilionários da Forbes, Eufrásia estaria nele.

Lições de Eufrásia

Independência

Uma das grandes lições de Eufrásia é a independência, mas não só a independência financeira e sim a independência de pensamento. Numa época em que as mulheres não tinham direito nem de existir, Eufrásia não se deixou levar pela opinião dos outros e fez da sua vida uma lição de independência, operando nas bolsas do mundo inteiro, mesmo não podendo participar diretamente das negociações. Para isso, contratou um operador que lhe representasse, Albert Guggenheim. Para cada dificuldade apresentada, Eufrásia construía um novo caminho.

Nunca se casou, pois pelas leis da época, o seu marido passaria a ser o responsável por toda a sua fortuna e ninguém melhor que ela para administrar de forma brilhante o seu dinheiro.

Eufrásia nos deixou uma grande lição de busca e imposição de sua independência, crescendo como resultado da confiança nos seus conhecimentos, na sua intuição e em tudo que aprendeu fazendo a gestão dos recursos que recebeu de herança.

Gestão de portfólio

A gestão de portfólio sempre foi uma marca muito forte nos investimentos de Eufrásia. Ela procurou diversificar entre setores e, dentro desses setores, buscou empresas resilientes, empresas de tecnologia, diferentes países e moedas. Ela era uma investidora do mundo, não ficou presa. Embora tenha nascido numa cidade do interior do Rio de Janeiro, não se limitou ao seu município, nem ao seu estado ou ao seu país. Eufrásia olhava o mundo como um grande celeiro de oportunidades e as aproveitava para realizar investimento em todos os lugares.

Investir em empresas sólidas

Os investimentos que Eufrásia fazia sempre estavam pautados pela segurança, solidez e visão de longo prazo, já que eram voltados para empresas prestadoras de serviços e vendiam produtos essenciais. Nos estudos realizados por Mariana, foram encontradas informações de investimentos de Eufrásia em companhias no setor têxtil e no setor ferroviário, como a Companhia Paulista da Estrada de Ferro e a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, o Banco do Comércio e Indústria de São Paulo, o Banco Mercantil do Rio de Janeiro, a Companhia Antarctica Paulista – que hoje é a Ambev -, o Banco do Brasil, além de empresas de energia elétrica, produção de petróleo e bancos estrangeiros. Ela sempre foi uma pessoa focada em setores como desenvolvimento, indústria, geração de energia e bancos. Tudo aquilo que eu falo que é importante, Eufrásia já fazia há mais de 100 anos.

Investir em tecnologia

Eufrásia era investidora cadastrada nas “exposições universais”, encontros de cientistas de todo o mundo para apresentar novas descobertas. Ela investiu em eletrificação, que era o processo de colocar cabos e levar energia elétrica às ruas e casas.

Pensando no meio ambiente, ela decidiu investir em viscose, por ser um tecido de origem vegetal e que iria reduzir o consumo de seda, preservando o bicho da seda.

Em 1900, ela também investiu num novo meio de transporte que apareceu à época, chamado automóvel.

Resiliência

A resiliência que tanto falamos estava presente em Eufrásia, ela era uma investidora de longo prazo e de empresas resilientes, essa visão de longo prazo foi o que permitiu a Eufrásia encarar o crash da bolsa de nova Iorque em 1929 como uma oportunidade de comprar boas empresas por preços baixos.

Caridade

Eufrásia sempre foi uma filântropa, grande parte de sua fortuna foi deixada para sua cidade natal com o objetivo de construção do hospital e sua manutenção. Com esses recursos, em Julho de 1941, foi inaugurado o hospital Eufrásia Teixeira Leite na cidade de Vassouras com mais de 200 leitos, laboratório clínico, setor de Raio-X, fisioterapia e clínicas pediátrica, médica e oftalmológica.

Quero ser Eufrásia

Eu falei aqui de uma mulher à frente do seu tempo e que serve como inspiração para homens e mulheres. Ela foi a primeira mulher no mundo a investir na Bolsa de Valores de forma autônoma e serve como inspiração por ter desbravado esse mundo há mais de 100 anos.

Hoje em dia muitas pessoas ainda dizem que é complicado, que é difícil, que não sabem onde buscar, mas não sabem o quanto já foi realmente difícil. Se hoje é possível investir, devemos agradecer a pessoas como Eufrásia. Ela fez uma gestão extremamente inteligente de seu portfólio e com diversificação, conseguia viver de renda através de boas empresas, sempre com visão de longo prazo em empresas de valor.

Parafraseando o título do livro da minha amiga Mariana Ribeiro, eu também “Quero ser Eufrásia”.

Eduardo Mira é formado em telecomunicações, com pós-graduação em pedagogia empresarial e MBA em gestão de investimento. É analista CNPI, certificado CPA10 e CPA20, ex-gerente do banco do Brasil e da corretora Modal.

Siga FORBES Brasil nas redes sociais:

Facebook
Twitter
Instagram
YouTube
LinkedIn

Siga Forbes Money no Telegram e tenha acesso a notícias do mercado financeiro em primeira mão

Baixe o app da Forbes Brasil na Play Store e na App Store.

Tenha também a Forbes no Google Notícias.

Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.

Compartilhe esta publicação: