Entenda como o Banco Central do Japão tornou-se acionista majoritário de todas as empresas listadas em Tóquio

Reprodução/Forbes
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Haruhiko Kuroda, presidente do Banco Central do Japão apostou na compra de ETFs para tirar país da deflação

Haruhiko Kuroda é o investidor mais sábio de Tóquio? É tentador atribuir esse nobre título ao presidente do Banco Central do Japão, já que suas apostas no mercado de ações têm rendido cerca de US$ 130 bilhões – um ganho inesperado que deixa os “Warren Buffetts do mundo” maravilhados.

E eis aqui o motivo de tanto prestígio: Kuroda pode literalmente imprimir seu próprio dinheiro, enquanto o bilionário e investidor Warren Buffett conta com a confiança dos acionistas e sua habilidade de realizar investimentos de valor. Ainda assim, o lucro sobrenatural de Kuroda quase garante uma nova categoria no Guinness World Records.

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Em 2013, Kuroda, um ex-figurão do Ministério das Finanças japonês, foi contratado após um período de oito anos à frente do Banco de Desenvolvimento Asiático em Manila, nas Filipinas. Quando o então primeiro-ministro, Shinzo Abe, teve a ideia de contratar Kuroda para acabar com a deflação do Japão de uma vez por todas.

Afinal, o tempo de Kuroda na capital filipina foi focado na erradicação da pobreza da região, que possuía a maior divisão entre ricos e pobres. A missão consistia em encontrar novas maneiras de aproveitar os recursos limitados do país e obter a maior tração possível contra a desigualdade. O trabalho que aguardava Kuroda em Tóquio era muito diferente, mas os objetivos se assemelhavam em certos aspectos.

Desde 1999, quando o Banco do Japão (BOJ, na sigla em inglês) reduziu pela primeira vez os custos de empréstimos a zero, os três antecessores imediatos de Kuroda tentaram, e não conseguiram, reaquecer o que até 2011 era a maior economia da Ásia. O primeiro-ministro deu poder a Kuroda para se manifestar como o próprio Mario Draghi em Tóquio. Um ano antes de Kuroda chegar à sede do BOJ, o então presidente do Banco Central Europeu, Draghi, anunciou sua famosa promessa de fazer “o que for preciso” para estabilizar a economia.

Kuroda usou uma abordagem semelhante quando começou a injetar trilhões de dólares nos mercados de títulos. Essa generosidade encurralou a arena do governo a tal ponto que dias inteiros se passaram sem um único negociador de títulos.

A participação do BOJ no mercado de ações começou modestamente. Em meados de 2016, a equipe de Kuroda realmente acelerou o ritmo de compra de ETFs (fundos de índices) em bolsa. Em 2018, o BOJ se encontrava na estranha posição de acionista majoritário em 40% de todas as empresas japonesas listadas. Esse foi o mesmo ano em que o balanço do BOJ superou o tamanho da economia de US$ 5 trilhões do Japão, a primeira para uma nação do “Grupo dos Sete”.

Desde então, o maior “momentum trading” da história ganhou um poder cada vez maior, pois de que outra forma se pode explicar o aumento do índice japonês Nikkei 225 para níveis máximos em 30 anos, à medida que a Covid-19 devasta a economia e ressuscita as forças deflacionárias?

Isso fez com que o BOJ esperasse que o mínimo possível de pessoas percebesse seu lucro gigantesco ou os efeitos colaterais da nacionalização efetiva do mercado de ações do Japão. É profundamente prejudicial para qualquer banco central desempenhar o papel de “baleia” do investimento doméstico. Indiretamente, cerca de US$ 55 bilhões em ações que o BOJ compra anualmente representam mais de 5% das ações de 485 empresas japonesas, diz o NLI Research Institute.

Na verdade, o Japão tem duas “baleias de investimento” no mercado. O BOJ e o Fundo de Investimento de Pensão do Governo de US$ 1,6 trilhão, que competem como maiores detentores de ações japonesas, trimestre a trimestre. Essa dinâmica, é claro, cria o que os investidores chamam de “risco moral”. Muito dinheiro público perseguindo poucas empresas torna tudo mais fácil para os CEOs. Por que se preocupar em inovar, reestruturar ou aumentar a competitividade quando as ações já estão em alta?

Isso também cria problemas de tração que Kuroda deveria ter previsto. A economia lenta não conseguiu elevar os padrões de vida nos EUA na década de 1980. A decisão do Japão de tentar novamente explica por que, oito anos depois, as políticas do BOJ estão aumentando a riqueza dos proprietários de ativos e deixando a classe média para trás. Os salários médios, em termos gerais, permanecem estagnados.

Qual é a resposta? Claramente, a equipe de Kuroda deve fazer mais para atingir os trabalhadores da classe média que mal tiveram um aumento salarial notável em 10 anos. Kuroda pode querer pressionar o atual primeiro-ministro, Yoshihide Suga, e o ministro das finanças, Taro Aso, para tentar outra rodada de pagamentos de 100.000 ienes (US$ 916) para todos os residentes no Japão. Talvez até sugira uma ajuda adicional disponível depois disso para encorajar as famílias a gastar, não economizar.

A estratégia dos ETFs não levou o BOJ nem perto da meta de inflação de 2%. A queda de 0,9% nos preços ao consumidor em dezembro em relação ao ano anterior foi a maior em uma década. Os preços caíram acentuadamente novamente em janeiro, a sexta queda mensal consecutiva.

Legisladores, incluindo Seiji Maehara, ex-ministro da Economia, defendem a criação de uma maneira do BOJ usar seus recursos para financiar programas que visam a inovação. Outros recomendam ao BOJ recompensar as empresas que aumentam os gastos com pesquisa e desenvolvimento – ou aquelas que dividem os lucros com seus colaboradores.

Por que não incitar os legisladores a conceber um esquema em que o BOJ pudesse distribuir ações para investidores iniciantes como forma de aumentar a exposição a ações em alta? A equipe de Kuroda tem o desafio de pensar fora da caixa proverbial e inovar no uso de sua riqueza.

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