Se o bitcoin quebrar, todo o mercado cai com ele

Considerado termômetro do apetite por riscos do mercado, uma possível quebra na criptomoeda impactaria também as ações.

Oliver Renick
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Barcroft Media/GettyImages
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Considerado termômetro do apetite por riscos do mercado, uma possível quebra na criptomoeda impactaria também as ações

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Só existem duas opções para a atual conjuntura do bitcoin: na primeira, os leilões do Tesouro norte-americano começam a falhar e os investidores, paralisados pelo medo de hiperinflação, se aglomeram no bitcoin. Na segunda, a criptomoeda quebra.

Meu palpite é que ele quebra, e explicarei o motivo adiante. Se isso acontecer é provável que seja reflexo de movimento de risco mais amplo, mas também um contribuinte para a volatilidade. Eis o motivo: o bitcoin é, acima de tudo, um indicador do apetite por riscos do mercado.

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Sim, algumas pessoas compram pelo seu potencial de uso como reserva financeira em um mundo com expectativas inflacionárias, mas as chances disso se materializar permanecem baixas, mesmo que o último ano tenha melhorado a credibilidade histórica da moeda digital. Basta olhar para os mercados no último ano até o momento: os rendimentos do Tesouro e o dólar estão subindo juntos depois de mais um estímulo de US$ 2 trilhões e do Fed mais pacífico da história. Isso nos diz que o mercado está interpretando os gastos como um fator positivo para a economia, e o dólar está se fortalecendo porque os EUA está se recuperando mais rápido do que qualquer outro lugar.

O bitcoin ainda apresenta um risco alto, não há muito o que discutir sobre isso. Mesmo os seus maiores defensores dirão que a moeda pode cair 20-30% a qualquer momento. Se as suas chances de sucesso não fossem tão baixas, os bitcoiners não esperariam recompensas tão altas. Por causa disso, a grande utilidade do bitcoin para os investidores não é como um tipo de hedge (proteção), é como o indicador de sentimento mais puro da história. Ele quebra quando o momento está ruim, e sobe quando está bom. É o mais próximo possível de uma roleta no mundo dos investimentos que pode-se chegar. Ultimamente, o cassino quebrou e todos estão ganhando.

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O S&P 500 não teve crescimento nos lucros no mesmo nível em dois anos, mas entrou em 2021 negociando em níveis de valuations que superaram a era PontoCom em quase todas as métricas. O benchmark foi impulsionado pela expansão dos valuations desde o início de 2019, quase que exclusivamente devido aos cortes nas taxas de juros e várias formas de estímulos. Como a maior parte disso veio do Banco Central, tem sido fácil para as pessoas interpretar a alta da criptomoeda como um efeito direto da extravagância monetária. Mas o resultado não é muito diferente do que vimos com as ações, apenas com movimentos maiores por causa da sua natureza arriscada. A correlação entre o bitcoin e o S&P 500 esteve acima de 0,8 durante quase todo o ano passado. O bitcoin tem se livrado da fraqueza percebida nas ações de grande crescimento ultimamente, mas a rotação das ações acaba de mudar o foco dos mercados para a retomada da economia. No fim das contas, o S&P 500 está abaixo das máximas, assim como o bitcoin.

Se o bitcoin quebrar, isso significa que o sentimento de risco está se perdendo, e um mercado de ações que está saindo de seus níveis mais superficiais da história não pode se permitir isso. Basta olhar para o que já acontece quando os rendimentos do Tesouro aumentam: os futuros do Nasdaq cedem e as ações de crescimento mais populares, como a Tesla, estão tecnicamente em um mercado de urso. Os investidores mudaram de forma drástica para as “ações da reabertura econômica”, e agora muitas empresas do varejo físico estão negociando muito acima de seus níveis pré Covid-19. O P/L (Preço sobre Lucro) do ETF de valor SPYV é 37,5, enquanto o fundo de crescimento do SPYG é 38,7. O ARKK pode ter um P/L negativo por causa de todas as empresas nele que estão perdendo dinheiro, mas o ETF de serviços ao consumidor PEJ é negociado a 100 vezes! O mercado de ações dos EUA não precisa de um motivo para cair com essa elevação, tudo o que precisa é um piscar de olhos dos touros.

O bitcoin vai nos contar se isso está acontecendo

O movimento parabólico no BTC nos últimos seis meses significa que uma quebra a partir daqui provavelmente seria acentuada. Isso também seria devastador para sua história, porque é exatamente quando a criptomoeda deve começar a ter desempenho superior ao das ações: quando as taxas estão subindo após grandes estímulos e preocupações com a hiperinflação. O bitcoin não tem uma boa desculpa para estar altamente correlacionado com ações desta vez. Os recém chegados e os investidores tradicionais que compraram o bitcoin no ano passado não vão tolerar muita desvalorização se isto estiver acontecendo quando não deveria.

O que estou dizendo é que, se o bitcoin quebrar, será efetivamente um grande sinal vermelho para todos os outros ativos de risco. Contudo, pode haver um elemento causal em jogo que também estimula a fraqueza das ações.

Se o bitcoin falhar, o mesmo acontecerá com o restante do mercado de criptomoedas, e isso não vai acontecer no vácuo. Atualmente, este é um mercado de US$ 1,6 trilhão que tem um histórico de vendas expressivas. Depois que essa incrível corrida começou, não é absurdo pensar que ele poderia diminuir de 20% a 40% rapidamente. Imagine se a Microsoft caísse 20% em uma semana. Isso terá um efeito cascata nas ações, porque as pessoas cuja riqueza está vinculada às criptomoedas são a elite tecnológica, cujo dinheiro deriva principalmente das ações das empresas que possuem. Também são os varejistas que têm desempenhado um papel fundamental no rali da Covid-19. Essa é a alavanca do mercado de hoje. Uma explosão no bitcoin provavelmente forçaria uma grande venda simultânea das ações mais lucrativas da década passada.

Ok. Então o bitcoin será atingido? Eu penso que sim. Por três razões principais:

1. O Gráfico do BTC está começando a parecer perigoso, com dificuldade em permanecer acima do nível mínimo diversas vezes nas últimas duas semanas, e saindo de uma tendência de alta que estava intacta desde outubro do ano passado;

2. O dólar está estabelecendo uma tendência de alta este ano, apesar dos enormes gastos deficitários, o que é muito ruim para a trajetória do bitcoin sobre a desvalorização do dólar. Os rendimentos do Tesouro estão subindo, fazendo com que os investidores repensem o investimento em ações sem dividendos. Faz sentido que o bitcoin também esteja em risco. Com os rendimentos subindo constantemente enquanto o Fed demonstra que não tem medo de volatilidade, a era dourada dos bancos centrais sustentando a economia está acabando. Um componente central na narrativa do bitcoin está visivelmente se desgastando.

3. Os pequenos investidores de bitcoins provavelmente estão minguando. Como os coiners gostam de dizer, o bitcoin é um vírus. Os ganhos de preço dependem da adoção por pessoas descrentes nas criptos e, por isso, a última corrida trouxe muitos devotos notáveis. Elon Musk tem falado mais alto, mas acho que é mais importante considerar investidores tradicionais como Howard Marks, que recentemente disse que está animado com a ideia. “Esse é o mais perto de Warren Buffet que você pode chegar. A sensação que tenho dos convidados em meu programa é que, se alguém fosse ceder e comprar bitcoin neste momento, já o teria feito.”

O velho ditado diz que eles não tocam o sino no topo. Acho que temos um sino desta vez. E o bitcoin parece pronto para tocar.

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